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Fóssil não convencional no caminho dos renováveis

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Revolução das fontes fósseis não convencionais aumenta a sobrevida da era do petróleo e empurra a revolução dos renováveis um pouco mais para o futuro
Edição de Ago / Set 2013 9 min de leitura
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Revolução das fontes fósseis não convencionais aumenta a sobrevida da era do petróleo e empurra a revolução dos renováveis um pouco mais para o futuro

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Revolução das fontes fósseis não convencionais aumenta a sobrevida da era do petróleo e empurra a revolução dos renováveis um pouco mais para o futuro


Fábio Rodrigues, de São Paulo

Há pouco menos de cinco anos, quem tivesse a audácia de dizer publicamente que a energia do futuro poderia ser o petróleo corria sério risco de ter que aturar um daqueles olhares meio irônicos, meio condescendentes que reservamos para esses tipos obstinados que teimam em ignorar a passagem do tempo. O leitor pense, por exemplo, em qualquer dos muitos bichos-grilos que, passados praticamente 50 anos, nunca chegaram realmente a sair dos anos 60. E quem diria que, no fim das contas, o esquisitão estaria coberto de razão?

Também pudera. Desde 2002, os preços do barril de petróleo estavam subindo sem parar até que, em julho de 2008, chegaram a estratosféricos US$ 147. Esse movimento só foi revertido graças à implosão da economia norte- -americana, que deflagrou a crise financeira global cujos ecos ainda reverberam. De lá para cá os preços se recuperaram, e, desde abril de 2011, acabaram se estabilizando mais ou menos numa faixa que vai dos US$ 85 aos US$ 125. Em 31 de julho, as cotações estavam entre US$ 92,70 (WTI) e US$ 105,70 (Brent).

O problema com isso é que uma porção de projetos de energia renovável entrou em apuros. Na época em que foram desenhados, a alta no barril de petróleo parecia irrevogável, e isso tornava a vida das empresas que estavam investindo em renováveis relativamente simples. Tudo o que elas precisavam fazer era esperar, pois, cedo ou tarde, seu produto se tornaria competitivo. Agora, ninguém mais sabe quando é que isso vai acontecer. Se é que vai.

“As fontes renováveis vão ficar mais para frente ainda porque os fósseis, especialmente o gás natural, são mais baratos”, opina o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires. Para o analista, no entanto, os biocombustíveis serão menos afetados que outras fontes alternativas precisamente porque têm uma relação sinérgica com os combustíveis convencionais. “Tirando aqui no Brasil, onde o etanol hidratado compete diretamente com a gasolina, no mundo inteiro os biocombustíveis são aditivos do petróleo, melhorando sua performance e reduzindo seu consumo”, conclui, acrescentando que a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) estima que a demanda global por biocombustíveis deverá crescer 5% ao ano até 2035.

Um membro do governo brasileiro que conversou com BiodieselBR na condição de ter sua identidade preservada também garante que essa nova realidade das fontes fósseis não deve ter impactos mais sérios no mercado nacional de biocombustíveis. “Temos a matriz energética mais limpa que existe no mundo e o governo federal está determinado a mantê-la assim”, garante.

Pico adiado

Essa renovada estabilidade dos preços do petróleo aponta para uma crise na crença de que estávamos às vésperas do pico do petróleo, o momento em que a produção mundial atingiria seu ápice histórico, para então iniciar uma lenta e irrevogável trajetória de de-clínio. Acontece que, contrariando os melhores prognósticos, as reservas globais de petróleo não estão encolhendo. Muito pelo contrário. Segundo dados da IEA, em 1981 o mundo tinha à disposição pouco mais de 649,1 bilhões de barris de petróleo; passados 30 anos (os dados de 2012 e 2013 ainda não estão disponíveis), esse número havia mais do que dobrado, chegando a impressionantes 1.473,7 bilhões de barris.

Considerando que o consumo em 2011 foi de 88,5 milhões de barris diários, temos petróleo o suficiente para atender a demanda mundial por mais 45 anos – em 1981, as reservas faziam frente a apenas 29 anos de consumo. E isso na improvável contingência de não encontrarmos mais uma única gota de petróleo, o que não parece ser bem o caso. Não quer dizer que o pico do petróleo não chegará – ele é um recurso não renovável, afinal de contas –, mas ninguém mais se arrisca a dizer que estejamos em sua iminência.

Nesse meio tempo, já há quem proclame que estamos vivendo uma nova revolução do petróleo. Um dos principais defensores dessa hipótese é o italiano Leonardo Maugeri, que, em meados do ano passado, publicou pelo influente Belfer Center da Universidade de Harvard uma pesquisa sintomaticamente intitulada “Oil: The Next Revolution” (“Petróleo: A Próxima Revolução”), cuja tese central é a de que, graças ao caixa reforçado, as petroleiras iniciaram um ciclo de investimentos sem precedentes. Mais que isso, o petróleo caro colocou na ordem do dia uma série de fontes “não convencionais” de óleo e gás [veja box].

O resultado: desde que o barril continue acima de US$ 70, a produção mundial deverá chegar a 110,6 milhões de barris por dia até 2020, a maior elevação desde os anos 80.

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A todo gás

Ironicamente, a maior estrela da nova revolução do petróleo é o gás natural. Em grande parte, esse novo status do gás se deve ao extraordinário crescimento que o setor vem experimentando nos Estados Unidos, onde as reservas comprovadas saltaram de 195,5 para 348,8 trilhões de pés cúbicos entre 2001 e 2011– um aumento de extraordinários 178,4%. Esse crescimento tem sido alimentado principalmente pela exploração do chamado shale gas, ou gás de folhelho (a denominação gás de xisto, largamente usada pela imprensa brasileira, é equivocada). É tanto gás que os preços do insumo estão andando de marcha a ré. Em meados de 2008, mil pés cúbicos de gás saíam por US$ 10,79, enquanto no final de 2012 o mesmo volume estava custando US$ 3,35.

Ao menos por enquanto, essa revolução é um fenômeno tipicamente norte-americano. O estudo de Maugeri projeta que os Estados Unidos devem ultrapassar a Rússia e se tornar o segundo maior produtor de fósseis – petróleo e gás – até 2020, atrás apenas da Arábia Saudita. Contudo, o italiano acha que são grandes as chances de que outros países também entrem nessa corrida. “O boomnos Estados Unidos não é uma bolha temporária, mas a mais importante revolução no setor de petróleo em décadas. Provavelmente isso será emulado em nível mundial nas próximas décadas, com resultados potencialmente surpreendentes”, escreve.

Maugeri não está sozinho. Em 2011, a Agência Internacional de Energia publicou um relatório especial chamado “Are we entering a golden age of gas?” (“Estamos entrando numa era dourada do gás?”), no qual previa que até 2030 o gás natural se tornaria o segundo recurso energético mais importante do mundo, ultrapassando o carvão e se aproximando do petróleo [veja gráfico].

Segundo Maurício Jaroski, gestor de química sustentável na consultoria MaxiQuim, o relatório da IEA causou alvoroço. “Esse levantamento tem enchido os olhos de muita gente por seu potencial. Essa energia existe e há um otimismo real, mas é algo para o médio e longo prazos, até que as tecnologias sejam adaptadas e cumpram as exigências ambientais”, pondera.

O Brasil é um dos países que está de olho nas novas possibilidades, e já tem marcado para outubro um leilão que vai incluir áreas com potencial para o desenvolvimento de gás tanto convencional quanto não convencional. Embora não existam números oficiais, o Ministério de Minas e Energia trabalha com uma estimativa de que o país possa ter reservas não convencionais entre 460 e 500 trilhões de pés cúbicos. De qualquer forma, não seria para já. De acordo com o analista Walter De Vitto, da consultoria paulistana Tendências, ainda existe pouca informação sobre esse tipo de fonte no Brasil. “Eu não vejo isso acontecendo no país antes de 10 ou 15 anos”, avalia, lembrando que os investimentos nessa área são todos de longo prazo.

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Petróleo caro

A repentina abundância não quer dizer necessariamente que os preços do petróleo voltarão a cair. O problema é que extrair petróleo dessas novas fontes não sai barato. Segundo De Vitto, o petróleo do pré-sal só se viabiliza se o preçodo barril se mantiver entre US$ 50 e US$ 60. “O que vai determinar [o preço do petróleo] é o custo de extração dessas novas fontes. Sem elas não vai mais ser possível sustentar a demanda mundial”, afirma o analista, garantindo que os tempos de petróleo a US$ 20 não têm mais volta.

“O petróleo continua extremamente caro, ele só parece barato agora porque algumas projeções mais pessimistas apontavam que o barril chegaria a US$ 200. A gasolina e o diesel continuam tão caros quanto antes, o que mantém nossa decisão de investir em combustíveis renováveis”, lembra a fonte do governo ouvida por BiodieselBR.

Pires, da CBIE, não é tão otimista, e protesta contra a falta de entusiasmo do governo federal em relação aos biocombustíveis. “Depois da descoberta do pré-sal em 2008, o governo brasileiro fez uma opção clara pelo fóssil”, afirma.

Jaroski, da MaxiQuim, aponta que a retomada dos fósseis vem vitimando negócios na área de renováveis nos EUA. Segundo o analista, boa parte das empresas que haviam começado a fazer investimentos na área por volta de 2008 agora estão revendo seus planos. “Por causa da competitividade do gás, elas estão abandonando os renováveis”, desanima-se.

Nos anos 70, o então ministro da energia da Arábia Saudita, sheik Ahmed Zaki Yamani, cravou uma frase que acabaria se tornando antológica em todo o debate sobre o futuro da indústria do petróleo. “A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra”, ironizou o saudita, para explicar que o petróleo não se esgotaria do dia para a noite, mas se tornaria relativamente irrelevante muito antes de se tornar realmente escasso.

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