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Óleo de fritura: de resíduo a riqueza

1-credito--Aleksandr-Ugorenkov---Dreamstime
Usinas investem na reciclagem de óleo de cozinha usado para compatibilizar bons negócios e conscientização ambiental
Edição de Ago / Set 2013 10 min de leitura
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Usinas investem na reciclagem de óleo de cozinha usado para compatibilizar bons negócios e conscientização ambiental

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Usinas investem na reciclagem de óleo de cozinha usado para compatibilizar bons negócios e conscientização ambiental


Maria Fernanda Takahashi, de Curitiba

Amplamente utilizado em cozinhas domésticas e industriais, o óleo vegetal é um grande causador de poluição ambiental quando descartado indevidamente. Cada litro de óleo pode contaminar até 12 mil de litros de água, sem contar que pode levar ao entupimento de redes de esgoto e tubulações, gerando transtornos e atraindo ratos e baratas. O óleo descartado incorretamente também impermeabiliza o solo, o que coloca em risco a vida de comunidades durante períodos de chuvas mais intensas, e forma metano, um gás que, além de malcheiroso, está entre os maiores vilões do aquecimento global.

É por esses e outros motivos que a reciclagem do óleo usado vem ganhando importância e atraindo investimentos de empresas interessadas em lhe dar um destino ambientalmente adequado. O material pode ser transformado numa série de produtos, entre os quais o biodiesel.

A produção do biocombustível a partir do óleo de cozinha usado já acontece há algum tempo no Brasil e no mundo. O processo é simples: depois de recolhido, o óleo é filtrado e decantado. Uma vez purificado, passa por um processo praticamente idêntico ao usado com qualquer outra matéria-prima. No fim, 80% do produto transforma-se em biocombustível, 10% em glicerina e apenas 10% é descartado. Dados de BiodieselBR mostram que foram produzidos 24,6 milhões de litros de biodiesel a partir de óleo de fritura usado em 2012, índice 89% maior que o do ano interior [veja gráfico].

Empreendedorismo social

O interesse em aproveitar as oportunidades criadas por essa matéria- prima tem inspirado a formação de novas empresas e projetos dedicados exclusivamente a encontrar novos usos para o óleo vegetal pós-consumo. É o caso da Ecóleo, de São Paulo. Criado com o objetivo de realizar a coleta e reciclagem do óleo de cozinha, o projeto começou recolhendo óleo usado de porta em porta num bairro da capital paulista, mas rapidamente ganhou novos rumos ao se transformar numa organização não governamental, que hoje mantém parcerias até com empresas de fora do país. “Sensibilizamos o setor público e o privado criando ecopontos ligados à rede de beneficiadores do resíduo, que por sua vez transformam o resíduo em matéria-prima, que é destinada a diversas indústrias, como a de biodiesel, tintas, velas, entre outras”, afirma a fundadora e presidente da Ecóleo, Célia Marcondes.

Só na Grande São Paulo, as entidades que trabalham em parceria com a Ecóleo já arrecadam mais de 2,6 milhões de litros de óleo por mês. Destes, cerca de 1,8 milhões de litros (70%) são transformados no biocombustível.

É um ramo que parece ter sido feito sob medida para atrair uma nova geração de empresários alinhados com a ideia de empreendedorismo social, que veem nos negócios uma ferramenta não somente para fazer dinheiro mas também para obter impactos positivos na sociedade e no meio ambiente.

É um discurso muito presente nas empresas criadas para desenvolver projetos ligados à reciclagem de óleo. A Lirium Reciclagem é uma que atua no mercado de São Paulo. “A ideia de criar uma empresa especializada em coleta de óleo vegetal nasceu quando os nossos diretores se depararam com um comerciante jogando o óleo num bueiro, poluindo rios e causando entupimento em tubulações”, conta Nelson Denuzzo Junior, gerente administrativo da empresa.

No mercado desde 2001, a Lirium disponibiliza recipientes com capacidade para 50 a 200 litros de óleo, e a coleta é realizada de acordo com o consumo do cliente. “Nossos principais clientes são restaurantes, condomínios, escolas, hospitais, algumas indústrias e diversos comércios geradores de resíduos de óleo e gordura vegetal”, enfatiza Denuzzo. Tão importante quanto a coleta do óleo usado é a atuação em projetos sociais, atitude levada a sério pela empresa. “Colaboramos com várias organizações, ajudando na inovação de ideias para o crescimento das mesmas e disseminando as boas ações para o trabalho ambiental.”

Sensibilização e consciência

Não foram apenas as empresas mais recentes que resolveram investir na reciclagem do óleo ve-getal para preservação ambiental. No ano passado, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), existente desde 1981, lançou o “Óleo Sustentável”, programa para coleta de óleo de cozinha usado. Representante das principais empresas dos setores de processamento de soja, refino de óleos vegetais e produção de biodiesel, a entidade percebeu a carência e a necessidade de se trabalhar com campanhas de educação ambiental, principalmente nas residências.

O gerente de sustentabilidade da Abiove, Bernardo Pires, explica que o “residual pós-consumo dos óleos vegetais gerado pelas redes de fast food, restaurantes e estabelecimentos comerciais já é amplamente recolhido. Essa logística valoriza o produto e facilita o acesso ao mercado de produção de biodiesel e outros produtos”. Por isso esse projeto foi direcionado para o óleo consumido nas residências. “O desafio atual é coletar o óleo usado em unidades domésticas. Queremos sensibilizar o consumidor sobre a importância da sua participação no processo de coleta do óleo de cozinha residual”, complementa.

As ações do Óleo Sustentável têm caráter educativo para o consumidor, promovendo a conscientização sobre o armazenamento e despejo correto do óleo usado em pontos de coleta. “A educação ambiental é uma das principais características do programa, pois conscientiza o consumidor a não despejar o óleo usado em locais inadequados e esclarece sobre os impactos ambientais nas redes de esgoto, rios, lagos e mares. [O óleo] pode, além de entupir tubulações, matar peixes e outros seres vivos aquáticos, já que reduz o teor de oxigênio da água”, destaca Pires. O passo a passo do armazenamento e descarte do óleo e o mapeamento dos locais para entrega do material estão entre os principais pontos abordados pelo projeto.

Mesmo trabalhando na conscientização da população há algum tempo, foi só no ano passado que a Abiove firmou alguns termos que reforçam o compromisso da indústria com a sustentabilidade . Eles foram assinados em conjunto com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SMA) e da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), e determinam o desenvolvimento de ações, procedimentos e meios para viabilizar a coleta e a destinação final ambientalmente adequada dos resíduos de óleo comestível, em consonância com a Resolução SMA 38/2011, que estabelece a relação de produtos geradores de resíduos significativos para o ambiente.

Entre os termos está o encaminhamento de resíduos de óleo comestível coletados para beneficiamento ou outra destinação ambientalmente adequada, bem como das embalagens descartadas para a reciclagem, e a instalação e manutenção de Pontos de Entrega Voluntária. A expectativa da Abiove é de alcançar 1.100 postos de coleta no estado de São Paulo.

Pires explica que, em contrapartida, o governo do estado de São Paulo atuará em conjunto no projeto e “incluirá nos programas estaduais de educação ambiental orientações referentes ao descarte adequado do resíduo de óleo comestível; incentivará programas de capacitação de professores da rede pública de ensino e implementará mecanismos, instrumentos econômicos e medidas de incentivo fiscal para fomentar a indústria de reciclagem e produtos confeccionados com material reciclado e suas respectivas cadeias de valor”.

Novos empregos

A reciclagem do óleo vegetal não beneficia apenas a preservação do meio ambiente e a criação de novos produtos. A geração de novos empregos também é um ponto forte desses projetos. Na Ecóleo, são diversos associados, além das parcerias com sindicatos e entidades ligadas ao setor de educação ambiental. “Essa ação gera trabalho para educadores ambientais, catadores, coletores, beneficiadores, recicladores, entre outros, sem falar no transporte e na própria reciclagem do resíduo. São aproximadamente 1.200 postos de trabalho direto e 800 indiretos, tornando os benefícios inúmeros”, comentaCélia Marcondes, presidente da empresa.

Ações e trabalhos em conjunto com entidades filantrópicas também são foco de algumas empresas de reciclagem de óleo. A Duque Reciclagem, por exemplo, busca ajudar com palestras e eventos que incentivam as boas práticas ambientais. Um dos trabalhos da empresa, realizado em comemoração ao último Dia do Meio Ambiente (5 de junho), contou com a colocação de dois pontos de arrecadação de óleo num shopping center. Wagner Mendes, proprietário da empresa, afirma que as parcerias dão certo e trazem inúmeros benefícios. “O social é uma aposta para que os estabelecimentos não joguem óleo no ralo e que aceitem as instalações de displays para o armazenamento de óleo usado, conscientizando a população e os empresários.” Neste projeto, a Duque Reciclagem também ficou responsável pela coleta e contagem da arrecadação, e cada litro de óleo recebido reverteu uma quantia ao Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC) de Rio Claro, São Paulo. “Se cada um fizesse a sua parte, o mundo seria muito melhor. Buscamos sempre as novas ações para conscientizar a população e, de certa forma, ajudar”, afirma Mendes.

Outra empresa preocupada em disseminar a importância da reciclagem de óleo em conjunto com obras de caridade é a ADN Biodiesel. A empresa atua na produção e desenvolvimento de tecnologias para fabricação de biodiesel com a utilização de óleos usados e também participa de diversos projetos sociais, dentre eles o “Todos em prol da sustentabilidade”. A iniciativa, em parceria com as Apaes de Bauru e Pederneiras, em São Paulo, visa a reverter recursos e benefícios às instituições, bem como agregar valores e sustentabilidade. “A empresa elabora e realiza uma série de projetos socioambientais com a intenção de sensibilizar a sociedade quanto ao descarte adequado de óleo de cozinha usado, bem como possui parceria com algumas prefeituras para a realização da coleta de resíduos, atuando em parceria com escolas, empresas, ONGs, instituições e outros”, comenta a gerente comercial da empresa, Adriana Melo.

Para quem trabalha dessa forma, a empresa não é apenas um negócio, mas uma causa. A equipe da ADN Biodiesel, por exemplo, procura também estar envolvida em eventos ligados à temática meio ambiente. “Nosso trabalho surgiu por meio da logística reversa do óleo e da gordura pós-uso. Fizemos um laboratório e desenvolvemos a nossa própria tecnologia para o beneficiamento do óleo usado. Hoje fazemos palestras sobre nosso trabalho e disseminamos as boas práticas do consumo consciente e descarte adequado de resíduos com enfoque no óleo de cozinha usado”, diz Adriana.

“Mesmo atuando com diversas associações, cooperativas e projetos de várias prefeituras da região de Bauru, e tendo alguns parceiros que nos ajudam nos trabalhos, a atuação com crianças é diferente. Fazer palestras para crianças é algo mágico, estes pequenos podem fazer acontecer e mudar nosso planeta”, complemente, satisfeita.

Governo de fora

Todas essas iniciativas teriam projeção e resultado muito maiores se houvesse apoio governamental. O incentivo dos governos municipais, estadual e, principalmente, federal proporcionaria um evidente crescimento no recolhimento deste óleo.

Hoje as usinas gastam milhões de reais pagando bônus para agricultores familiares que plantam soja há décadas. Parte desse dinheiro poderia ser destinado a ajudar os milhares de pessoas que trabalham nas ruas recolhendo material para reciclagem.

O receio do governo em ser enganado com eventuais fraudes o impede de dar qualquer incentivo fiscal para os produtores de biodiesel que desejam implementar esse tipo de trabalho. Este já é o sexto ano do biodiesel no Brasil e o governo ainda sequer esboçou algum apoio a iniciativas de reaproveitamento de óleos vegetais usados.
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