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J.P. Morgan abandona cenário-base para petróleo com guerra: ‘Não sabemos como modelar o desfecho’

Premissas de que custos econômicos imporiam restrições ao governo americano foram frustradas e estratégia de saída do conflito parece pouco clara

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Pela primeira vez desde o início da guerra envolvendo Estados Unidos e Irã, o J.P. Morgan deixou de trabalhar com um cenário-base para o mercado de petróleo. Em relatório publicado nesta quinta-feira, os estrategistas de commodities do banco fazem uma admissão reveladora sobre o grau de incerteza que cerca o conflito: “Simplesmente não sabemos como modelar o desfecho.”

Natasha Kaneva, Lyuba Savinova e Artem Fakhretdinov, da equipe global de pesquisa de commodities, afirmam que, no início da guerra, trabalhavam com a premissa de que os custos econômicos imporiam limites à atuação do governo americano.

“Partíamos da premissa de que havia limites econômicos que o governo dos Estados Unidos não estaria disposto a ultrapassar: petróleo a US$ 100, gasolina perto de US$ 5 por galão, inflação cheia de 4% ou o rendimento do Treasury de dez anos acima de 5%. Essas restrições nos davam um cronograma implícito, e esperávamos que, até junho, houvesse algum tipo de acordo para reabrir o Estreito”, apontam.

Seis meses depois, muitos desses limites foram ultrapassados, mas a estratégia para encerrar a guerra está menos clara, e não mais. “O petróleo está acima de US$ 100, e o rendimento do Treasury de dez anos superou 5%. A gasolina, a US$ 4,37 por galão, permanece em níveis recordes com ajuste sazonal, apesar de o pico da temporada de viagens rodoviárias já ter ficado para trás. Mais preocupante é o diesel, que atingiu a máxima histórica de US$ 6,31 por galão às vésperas do inverno, período de maior demanda sazonal, enquanto os estoques se encontram nas mínimas históricas”, afirmam.

Segundo o J.P. Morgan, o mercado está em alerta. Com base nas condições atuais de oferta e demanda, o banco estima um valor justo de US$ 90 para setembro, mas o Brent é negociado a US$ 106.

“Usando nossa regra prática de que cada interrupção de 1 milhão de barris por dia na oferta acrescenta cerca de US$ 4 ao preço, esse prêmio de US$ 16 indica que o mercado precifica o risco de perdas adicionais de 4 milhões de barris por dia, além dos 10 milhões já interrompidos, e não uma redução confirmada e duradoura da oferta.”

Os riscos aumentaram na última semana, à medida que o conflito abriu novos pontos de pressão no Oriente Médio. Os estrategistas destacam o avanço dos houthis pela costa do Mar Vermelho no Iêmen e em direção ao estreito de Bab el-Mandeb, colocando em risco outra rota marítima crucial. Um ataque ao oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita também interrompeu temporariamente uma importante alternativa para as exportações de petróleo. O relatório cita ainda os recentes ataques ucranianos contra refinarias russas.

Uma alta mais expressiva do petróleo, no entanto, tem sido limitada pela forma como o mercado físico encontrou equilíbrio. Segundo o J.P. Morgan, o comportamento dos preços depende menos da duração do conflito do que do ajuste entre oferta, demanda e estoques enquanto a guerra persistir.

“Os estoques são o principal mecanismo de equilíbrio entre oferta e demanda. É também por isso que as variações dos estoques comerciais da OCDE têm o maior peso em nosso modelo de precificação do petróleo”, apontam.

A projeção inicial do banco, de rápida redução dos estoques globais, não se concretizou. “Na prática, o mercado encontrou outro caminho para se equilibrar. Diante da incerteza sobre a duração do conflito, governos e consumidores optaram, em grande medida, por preservar os estoques, mantendo barris em reserva para momentos mais difíceis.”

Os estoques recuaram fortemente até maio, estabilizaram-se em junho e julho e voltaram a registrar quedas mais moderadas em agosto e setembro. No total, a redução dos estoques de petróleo bruto e derivados somou 555 milhões de barris, apenas cerca de um terço do que os estrategistas esperavam.

Paralelamente, a demanda desde março ficou cerca de 4,4 milhões de barris por dia abaixo do nível registrado no ano passado. Esse ajuste foi aproximadamente uma vez e meia maior que os 2,9 milhões de barris por dia correspondentes à redução dos estoques.

“Ao recorrer muito mais à destruição de demanda e muito menos à redução dos estoques, o mercado conseguiu absorver uma interrupção extraordinária da oferta sem uma alta sustentada dos preços do petróleo. Desde o início do conflito, o Brent foi negociado, em média, a apenas US$ 94.”

Isso também indica, segundo o banco, que os receios de esgotamento dos estoques como mecanismo de equilíbrio são prematuros. A capacidade remanescente, porém, é desigual. Os estoques comerciais americanos já estão próximos do piso do intervalo recente, enquanto a Reserva Estratégica de Petróleo pode fornecer apenas mais 30 milhões de barris.

“A próxima rodada de retiradas, portanto, teria de partir dos países que preservaram seus estoques durante os seis primeiros meses do conflito”, afirmam.

Ainda há estoques suficientes para amortecer uma interrupção prolongada antes que sejam atingidos níveis de estresse operacional, limitando a necessidade de uma alta substancial do petróleo.

“Caso os fluxos do Oriente Médio permaneçam nos níveis atuais, porém, nosso modelo indicaria preços no quarto trimestre de 2026 e em dezembro de 2026 cerca de US$ 7 e US$ 8 acima das nossas projeções atuais, respectivamente. Em resumo, ainda há munição suficiente para manter os preços contidos — por enquanto.”

Gabriel Roca – Valor Econômico 
 

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