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Quebra de safra: Bom para uns, ruim para outros


Edição de Ago / Set 2012 - 27 ago 2012 - 12:38 - Última atualização em: 31 out 2012 - 12:01
Quebra de safra na América Latina e nos EUA estimula alta dospreços e aumenta a pressão sobre os produtores de biodiesel

Rosiane Correia de Freitas, de Curitiba

O ano de 2012 tem sido particularmente bom para os produtores de soja brasileiros. Puxado pela demanda aquecida e por uma seca que afetou os resultados das colheitas no Brasil e na Argentina, o preço dessa commodity anda batendo recordes e a tendência é que a alta continue. Trata-se de uma era de ouro, alguns dizem. Ouro não porque os grãos dessa oleaginosa emanem um amarelo forte, mas porque parece que a valorização do produto não conhece fronteiras. É um cenário de sonho, que poucas indústrias já tiveram a alegria de vivenciar.

Mas o paraíso de alguns, às vezes, é o inferno de outros. No caso da soja, a alegria dos produtoresrurais tem sido motivo de angústia para as usinas de biodiesel. O setor tem gastado um bom bocado de tempo nos últimos sete anos falando sobre a urgente necessidade de desenvolver oleaginosas alternativas. A realidade, no entanto, é bem simples: no último Boletim Mensal de Biodiesel da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a soja representou a origem de 77% da produção nacional desse combustível.

Com isso em mente, é fácil notar por que a indústria do biodiesel é tão sensível ao preço da soja. No fim das contas, esse é o fator singular mais importante na definição do custo deste biocombustível. Nesse front, no entanto, as notícias não são boas, justamente em função da alta nas cotações. No Mato Grosso, maior produtor brasileiro de soja, a saca de 60 quilos chegou a ser comercializada a R$ 62,50 no início de julho. Segundo o Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea), no mês de junho o preço da oleaginosa subiu 14,6%, enquanto no mesmo período o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), apurado pela Fundação Getúlio Vargas, registrou módicos 0,66%.

Ao longo de julho, a cotação da soja na Bolsa de Chicago quebrou recordes várias vezes, registrando seus maiores preços desde maio de 2004. “A atual conjuntura, com os estoques baixos e a quebra da safra, estimula essa situação”, explica o economista Daniel Latorraca Ferreira, do Imea. “É uma época de ouro para o setor”, comemora Evaldo Kazushi Takizawa, engenheiro agrônomo e consultor da Ceres Consultores Agrícolas.

E a tendência é que o preço continue a subir. Isso porque no segundo semestre começa a ser colhida a safra de soja nos Estados Unidos, principal produtor dessa oleaginosa no mundo, e o clima por lá não colaborou com o aumento da produção. “Eles tiveram os mesmos problemas que o Rio Grande do Sul e a Argentina tiveram: seca muito forte”, conta Liones Severo, da GS Grãos de Soja. A safra americana começa a ser colhida em setembro, e com essa perspectiva de quebra a pressão sobre os preços aumenta.

Demanda

Segundo Carlos Henrique Fávaro, presidente da Associação dos Produtores de Soja do Estado de Mato Grosso (Aprosoja), a valorização está ajudando os agricultores a investir em seus negócios e se capitalizar. “O produtor tem se mostrado maduro. Hoje 45% da safra futura [no Mato Grosso] já foi comercializada, o que mostra que o agricultor se aproveita dessa fase sem ser imediatista”, avalia.

A boa fase, para os produtores, é resultado de uma série de eventos. Primeiro, a soja está consolidada como importanteproteína mais importante do mercado hoje”, explica Severo, da GS Grãos e Soja. A demanda, especialmente na China, só cresce. “A soja deixou de ser só alimento. A demanda se ampliou tanto que, mesmo com safra recorde, o déficit [do produto] no mundo não seria coberto”, calcula Takizawa, da Ceres.

A alta dos preços da soja, no entanto, tem seu lado ruim. “Há um aumento nos insumos que inflaciona os custos de produção”, aponta Takizawa. Para ele, esse panorama favorece o endividamento dos produtores. “É preciso acompanhar de perto esse processo para evitar um comprometimento da capacidade de investimento do produtor”, completa.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), na safra 2011/2012 a colheita resultou numa produção 8,9 milhões de toneladas menor que a do ciclo anterior – quando foram colhidas 75,3 milhões de toneladas –, uma retração de 12,3%. Isso apesar da área de produção da cultura ter sido ampliada em 819,5 mil hectares, um crescimento de 3,4%. No entanto, é bom lembrar que o Brasil registrou recorde de produção na safra 2010/2011 e que os estoques no país ainda são altos, aponta Leonardo Amazonas, analista de soja da Conab.

Nos Estados Unidos, segundo o Departamento de Agricultura (Usda), a safra 2011/2012 está estimada em 83 milhões de toneladas, uma redução de pouco mais de 4,2 milhões de toneladas em relação ao inicialmente previsto. Isso apesar dos agricultores norte-americanos também terem aumentado a área de plantio. Tudo em função dos problemas causados por uma seca histórica que o país está enfrentando desde abril.

A estiagem está atingindo em cheio o Corn Belt – conhecida área de produção de grãos que abrange os estados de Iowa, Illinois, Indiana, Michigan, partes do Nebraska, Kansas, Minnesota e Missouri. A região enfrenta sua pior seca desde 1988 e as plantações de soja da região não devem registrar uma boa produtividade na época de colheita.

O relatório do Usda também aponta que, apesar do aumento das importações de soja da América Latina e do Canadá, esses países conseguiram suprir apenas parcialmente a demanda, uma vez que também houve redução de produção na América do Sul. A entidade norte-americana destaca na última estimativa, divulgada em 11 de julho de 2012, que os estoques mundiais encolheram em 270 mil toneladas.

Biodiesel

Apesar do panorama de aumento de preços de sua principal matéria- -prima, na opinião de Leonardo Amazonas, da Conab, o mercado de biodiesel não tem motivos para entrar em alerta. “Não afeta porque o consumo (da indústria de biodiesel) é muito pequeno. Além disso, o preço do óleo sofre menos com a pressão do mercado”, explica. Mas os preços do óleo de soja parecem não concordar com o argumento. Segundo relatório do Centro de Estudos Avançados de Economia Aplicada (Cepea), órgão vinculado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), o preço da tonelada do óleo já chegou, em 2012, a bater em R$ 2.700,00. No último leilão de biodiesel da ANP, em junho, o combustível foi negociado a um preço médio de R$ 2,491 o litro, um valor bem superior à média de preço do litro do diesel vendido ao consumidor, que, segundo dados da ANP, ficou em R$ 2,045 durante o mês de julho. Quando comparado ao preço pago pela distribuidora pelo diesel a diferença fica ainda maior, já que as distribuidoras têm pago cerca de R$ 1,37 por litro.

Corn Belt

O relatório divulgado em julho pelo Departamento de Agricultura americano aponta alguns dados relevantes. O verão seco e intenso que afeta a região do Corn Belt (centro-oeste americano) este ano prejudicou a produtividade dos campos de soja, que está na faixa dos 2.723,5 kg/ha, uma queda de 228,6 kg/ha em relação à estimativa de junho. Até setembro, quando começa a colheita, não há expectativa de que o tempo colabore, o que pode colocar ainda mais pressão sobre os preços. Há quem aposte que as cotações em Chicagopodem chegar a US$ 20 por bushel (medida equivalente a 27,21 kg), quatro dólares acima da cotação atual.

Maior produtor de soja do mundo, os Estados Unidos têm um estoque estimado em 3,5 milhões de toneladas. Além de atender ao mercado interno, a soja americana é vendida principalmente para a China, maior consumidora mundial do grão. Com a quebra na safra norte- -americana, a expectativa é que produtores de Argentina, Brasil e Paraguai aumentem sua participação no mercado chinês, reduzindo a oferta na América Latina.

“A subida dos preços não chega a afetar o mercado interno dos Estados Unidos porque o norte- -americano médio gasta pouco de sua renda com alimentação. No entanto, o preço deve afetar atividades como a criação de suínos, que dependem dessa proteína, além de inflacionar o mercado de insumos”, avalia Liones Severo.

Cenário de crise

No Brasil, a seca afetou a produção de soja no Paraná e, principalmente, no Rio Grande do Sul. Segundo Liones Severo, da GS Grãos de Soja, no Rio Grande do Sul já há empresas importando o grão de países vizinhos para poder manter a produção. A Camera Agroalimentos confirmou que utilizou desse recurso, mas não destinou a soja para a produção de biodiesel. Mas no mercado circula a informação de que empresas dedicadas apenas à produção de biodiesel estariam importando matéria-prima de outros países do Mercosul. Isso dá uma boa medida dos apuros que o setor vem enfrentando, especialmente porque a prática é vedada pelas regras estabelecidas nos editais dos leilões da ANP. Mas, de acordo com o entrevistado, mesmo esse recurso tem seus limites. “A oferta é pequena”, alerta.

Considerando as entregas de biodiesel feitas pelas usinas às distribuidoras, é possível verificar que realmente o setor vive um período complicado. Este cenário de crise que se projeta no horizonte provavelmente teve seu início quando o 25º leilão de biodiesel chegou ao fim, no início de março deste ano.

Na época, BiodieselBR resumiu a disputa dizendo que não sentiu a presença de nenhum mecanismo de deturpação, em uma clara referência à famosa frase de Rodrigo Rodrigues, coordenador da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel (Ceib), que atribuía a falta de disputa nos leilões a um desconhecido mecanismo de deturpação. Dessa forma, o leilão terminou após uma disputa intensa, onde os preços dos lotes com selo e sem selo se equipararam, situação rara com a qual o setor não estão acostumado a trabalhar. Além disso, nas semanas seguintes, o preço do óleo de soja começou a subir, direção oposta do que apostavam algumas usinas. Os reflexos só seriam sentidos nos meses de abril, maio e junho, quando as unidades de produção deveriam entregar o volume com o qual se comprometeram. O índice médio de entrega alcançou 85%, um dos piores percentuais dos últimos anos. As entregas de maio foram as piores desde setembro de 2008, quando a Brasil Ecodiesel vendia biodiesel mas não entregava, alternando a participação de suas usinas nos leilões.

O Mato Grosso, maior produtor de soja do país, registrou aumento de safra e de área plantada, o que coloca os agricultores do estado numa situação particularmente boa para aproveitar a alta dos preços. A região, porém, também é a maior produtora de biodiesel. Ou seja, os produtores de grão estão ganhando mais dinheiro do que esperavam e a indústria está com dificuldades de obter matéria-prima, em grande parte pelo volume de grãos que é exportado. Um ótimo cenário para o governo iniciar os trabalhos com o objetivo de alterar a Lei Kandir.