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Canal Cliente-Caminhão: tecnologia a serviço da logística


Edição de Jun / Jul 2012 - 20 jun 2012 - 11:41 - Última atualização em: 10 jul 2012 - 17:23
Fiel ao que prometeu, sistema da Petrobras vem colhendo diversos elogios e fornecendo à estatal a segurança necessária para passos mais ousados

Cátia Franco, de São Paulo

A logística envolvendo a distribuição do biodiesel é uma questão complexa que ainda está muito distante de uma solução efetiva, principalmente considerando os poucos esforços envidados pelo poder público para melhorar e potencializar modais alternativos de transporte, como o ferroviário e o hidroviário. Contudo, alguns dos problemas inerentes a essa sistemática estão começando a ser minimizados e, em alguns casos, até sanados, com ajuda da tecnologia. A ideia, em si, não é nova. Mas chama a atenção por ser oriunda de uma percepção aguçada, adaptada para atender algumas das necessidades mais importantes da indústria de biodiesel.

Estamos falando do CC-Caminhão, um módulo do Canal Cliente, sistema da Petrobras que por meio da internet integra processos comerciais, operacionais e financeiros da empresa com seus clientes. O CC-Caminhão tem uma proposta específica: fazer a gestão de agendamentos de carregamentos rodoviários de produtos como diesel, gasolina, asfalto etc. Já está em funcionamento há alguns anos, sendo amplamente conhecido no mercado de distribuição de combustíveis e correlatos.

A grande sacada da Petrobras foi perceber que dispunha de uma ferramenta preciosa para certos atores da indústria de biodiesel – no caso, distribuidoras e usinas – e então ligá-los ao sistema. “Esse foi o ‘pulo do gato’: adaptá-la para o uso em outras bases, que não são de propriedade da empresa”, define Sandro Barreto, gerente de comércio de biodiesel da Petrobras.

O CC-Caminhão destaca-se pela simplicidade de manuseio, não exigindo do usuário grande capacitação no quesito informática. Após configurado, o módulo está pronto para ser operado. Num primeiro momento, as usinas efetuam a atualização do estoque diário de biodiesel e as distribuidoras fazem o agendamento do horário para carregamento das carretas. O sistema se encarrega de verificar crédito, cota e estoque para, em seguida, criar uma Ordem de Venda. A distribuidora envia o caminhão na data e horário previamente agendados. A usina em questão verifica no sistema o horário de carregamento da carreta. Estando tudo certo, valida a entrada para o abastecimento.

Na prática

Na teoria, parece tudo perfeito. Mas e no dia a dia, o sistema tem funcionado a contento? Segundo as usinas e a distribuidora com as quais a BiodieselBR conseguiu conversar, a resposta é um retumbante sim. Mas é preciso ressaltar aqui que várias das empresas procuradas pela reportagem preferiram não comentar o assunto sob justificativas distintas, como “indisponibilidade de fonte até o prazo de fechamento da matéria” e “preferência por não comentar o assunto no momento”. Houve até quem simplesmente não desse nenhum retorno.

“O sistema é ótimo e completamente eficiente em sua proposta”, avalia Márcia Veroneze Bisol, supervisora de qualidade da Biopar, usina paranaense que utiliza o CC-Caminhão desde outubro passado. “Com o agendamento prévio, acabaram-se as filas de espera para carregamento.”

João Artur Manjabosco, gerente da Camera, usina de biodiesel situada em Estrela (RS), que já trabalha com o sistema há cerca de oito meses, reitera o dito por Márcia: “Hoje, a fila para carregamento é virtual, sem que haja a necessidade do caminhão-tanque ficar parado em frente à usina.”

A conta ficou boa para ambos os lados. “Com o agendamento, não corro o risco de o caminhão ficar parado. Antes, caminhão meu ficava barrado na fila 14, 15, até 16 horas. Agora, temos algo mais racional”, considera José Debiasi, gerente de marketing e responsável pela compra de suprimentos da distribuidora GP Combustíveis. Ao imprimir maior organização e controle ao agendamento de carregamentos, o CC-Caminhão eliminou situações de inconveniência que geravam descontentamento para as duas pontas envolvidas nesse processo.

A supervisora de qualidade da Biopar conta que antes dessa ferramenta ser implementada, as distribuidoras não respeitavam a programação: “Enviavam caminhões de acordo com a sua necessidade. Havia dias em que se acumulavam caminhões para carregamento, e outros nos quais o pátio ficava vazio.” O sistema exige disciplina das distribuidoras, pois não tolera atrasos ou antecipações. Caminhões que chegam às usinas uma hora a mais ou a menos do horário marcado não são autorizados a entrar. “E se o motorista não chegar no prazo, deverá aguardar até o dia seguinte. Para a usina que tem a necessidade de carregar, isso não é tão bom, pois terá que ficar com caminhões no pátio que poderiam já ter sido carregados. Mas creio que é a única forma de acostumar as transportadoras a esse novo sistema”, considera Márcia.

Já o gerente de marketing e responsável pela compra de suprimentos da GP Combustíveis lembra que até o CC-Caminhão entrar em operação, não existia por parte das usinas o cuidado de anotar o número de compartimentos do caminhão-tanque – um item de informação obrigatório no sistema da Petrobras. “Eu mandava um caminhão com capacidade de 45 mil litros, mas não conseguia o abastecimento total, porque, por exemplo, a legislação que disciplina essa questão no Rio Grande do Sul não permite. Isso acabou com o CC-Caminhão”, afirma Debiasi.

Passível de melhorias

Implementado em mais de 40 usinas, num processo que se iniciou em setembro de 2011 e foi concluído em abril último, o módulo já recebeu ajustes – coisa perfeitamente natural e previsível em qualquer projeto incipiente. As avaliações positivas acerca de seu desempenho demonstram que hoje o CC-Caminhão atende satisfatoriamente às expectativas de seus usuários. Mas isso não significa que o sistema não seja alvo de novas sugestões de aprimoramento e, até mesmo, críticas. “Obviamente, o processo de melhoria continua, não se esgota”, reconhece o gerente de comércio de biodiesel da Petrobras. Segundo ele, a empresa aperfeiçoa o módulo à medida que recebe sugestões e manifestações de seus clientes e fornecedores.

Embora, de maneira geral, expresse contentamento com o sistema, Marcia, da Biopar, diz que falta, no caso do B100, um CNPJ para ser faturado e um endereço diferente para a entrega: “Não existe no sistema um espaço para a distribuidora fazer essa observação durante o agendamento. Pelo menos não tinha até março.”

Debiasi, por sua vez, desaprova a falta de flexibilidade criada pela necessidade do cadastro prévio dos caminhões. Em sua opinião, o cadastramento poderia ser feito na hora, bastando informar dados como nome do motorista, placa do caminhão, entre outros. “Tenho uma frota cuja capacidade de carga não é uniforme. Há caminhões para carregar 43, 45, 38 e 35 mil litros de biodiesel. Apenas cinco ou seis deles estão cadastrados no sistema. E se quero enviar outro veículo, me é vetado, porque o mesmo não foi previamente cadastrado”, diz o gerente de marketing e responsável pela compra de suprimentos da GP Combustíveis.

O gerente de comércio de biodiesel da Petrobras justifica a exigência alegando que o cadastramento prévio das carretas e cavalos é fundamental para o controle do volume que pode ser carregado. “Os veículos são arqueados e aferidos pelo Inmetro e não se deve carregar volumes inferiores ou superiores ao que o caminhão- tanque está autorizado”, expõe Barreto. “Se permitíssemos o agendamento apenas com a placa, não teríamos como conferir com antecedência se o veículo que o distribuidor está tentando agendar é aferido para carregar o volume solicitado.”

A Petrobras executa o cadastramento da frota quando isso é solicitado pelo cliente. “Ele só precisa passar as informações para a Célula de Aquisição e Faturamento de Biodiesel, recentemente criada no Paraná, sob gestão da equipe de faturamento da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar)”, diz Barreto.

Próxima etapa

A boa receptividade do mercado de biodiesel ao CC-Caminhão até o momento (ainda é um pouco cedo para falar em “sucesso”) garante à Petrobras a segurança necessária para avançar em seu projeto. A possibilidade de realizar o agendamento de carregamentos é apenas o coquetel do banquete que a empresa pretende servir aos stakeholders envolvidos na logística de distribuição do biocombustível.

Segundo Barreto, quando estiver inteiramente implementado, o que deve ocorrer lá pelo final desse ano, o Canal Cliente terá sua serventia ampliada ao mercado de biodiesel, oferecendo um processo de faturamento de compra e venda automatizado, incluindo o trâmite de documentos fiscais entre fornecedor, distribuidores e Petrobras.

“Com isso, será possível reduzir o tempo de espera para liberação dos caminhões-tanques e dar ainda mais visibilidade às etapas do processo para todos os agentes envolvidos neste fluxo, já que a ferramenta permitirá um acompanhamento online do caminhão – do momento em que é feito o agendamento até a liberação do caminhão para carregamento com biocombustível”, destaca o gerente. A previsão é que o sistema de emissão e recebimento de notas fiscais e pagamentos da Petrobras comece a ser implementado neste próximo semestre.

Se essa proposta irá agradar, só o tempo dirá. Se nos pautarmos pela experiência até agora bem-sucedida do CC-Caminhão, as perspectivas são positivas.