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Laboratórios: questão de qualidade


Edição de Jun / Jul 2012 - 20 jun 2012 - 14:17 - Última atualização em: 10 jul 2012 - 15:26
Apesar da menor visibilidade dos laboratórios responsáveis pelos ensaios do biodiesel, a certeza de que estejam trabalhando corretamente é fundamental para o funcionamento da cadeia.

Tatiane Oliveira, de São Paulo

O lançamento do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel no final de 2004 nos deixou com um problemão: como fazer para que bilhões de litros de biodiesel chegassem aos postos com garantia de qualidade? A resposta: montar uma extensa rede de laboratórios. Acontece que isso só nos levou a um novo impasse. Afinal, quem garante que estes laboratórios estejam fazendo seu trabalho corretamente? Atestar a qualidade do trabalho de quem atesta o padrão do trabalho das usinas tem sido uma meta duramente perseguida nos últimos anos.

A confiabilidade do sistema começa pelo trabalho da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). É ela que faz o cadastro dos laboratórios e dos ensaios que cada um deles pode fazer. Os interessados em entrar nessa lista têm que comprovar para os técnicos da agência que conseguem seguir todas as normas – nacionais e internacionais –, conforme legislação vigente. Duas resoluções regulam o trabalho dos laboratórios: a resolução 07 de 2008, que determina as metodologias das análises a serem feitas, e a resolução 46 de 2011 (substituta da resolução 31 de 2008), que estabelece os requisitos para o cadastramento de laboratórios.

Em setembro passado, as regras de cadastramento passaram por extensa revisão. “O cadastramento de laboratórios instituído pela resolução ANP nº 46 tende a construir uma rede confiável de laboratórios para análise de biodiesel para emissão de certificado da qualidade. O laboratório que solicita o seu cadastramento sofre vistoria técnica criteriosa de representantes da ANP, nas quais se avalia a capacidade do laboratório em realizar as análises”, explica a agência. Hoje, há 40 laboratórios cadastrados e grande parte deles já está em vias de concluir a adequação à resolução.

As novas regras para os laboratórios foram vistas com bons olhos pelo setor. “Acreditamos que os laboratórios credenciados pela regra antiga não tiveram nenhum problema em atender aos requisitos da resolução 46”, opina a gerente de SMS+Q (Saúde, Meio Ambiente, Segurança e Qualidade) da BSBios, Larisse Garibotti. Por sua vez, a engenheira química e supervisora de controle de qualidade da Fiagril, Raquel Teruel, completa: “O laboratório de controle de qualidade encarou a resolução 46 de forma positiva, pois há um maior controle dos documentos técnicos do setor e determinou-se uma sistemática para a renovação anual do cadastro.” Na opinião de ambas, haverá melhoria na qualidade do biodiesel brasileiro.

Raquel acredita que o treinamento, a capacitação e o uso de novas tecnologias se somam para promover a precisão dos resultados. Ela também ressalta a importância dos laboratórios obterem a certificação ISO 17.025, norma internacional que estabelece requisitos gerenciais e técnicos para a implementação de sistema de gestão da qualidade em laboratórios de ensaio e calibração.

Melhorar a precisão das análises laboratoriais sempre foi uma preocupação central para o setor, já que os laudos determinam se uma carga de biodiesel pode ou não ser comercializada. O projeto Confiabilidade em Ensaios Laboratoriais de Biocombustíveis (Celab) da Fundação Certi é um bom exemplo. Iniciado em 2007, ele capacita laboratórios a realizar ensaios e análises em biocombustíveis de acordo com requisitos internacionais e critérios do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).

Porém, o interesse aumentou depois da nova resolução. O coordenador do Projeto Celab, Cristiano Vicente, explica que a Fundação Certi fornece cursos e assessorias aos laboratórios para que eles possam se adequar às novas regras.

Análises

Uma das maiores usinas de biodiesel brasileiras, a Fiagril, teve seu laboratório estruturado em 2007. Nele, sete analistas, divididos em três turnos, estão credenciados a executar três análises de biodiesel que levam em conta parâmetros como aspecto, viscosidade, densidade, umidade, ponto de fulgor, ponto de entupimento, resíduo de carbono, corrosão ao cobre, glicerina livre, glicerina total, monoglicerídeos, diglicerídeos, triglicerídeos, teor de éster e metanol. Por dia, são feitos aproximadamente 225 ensaios, com horários determinados, analisando as matérias-primas e insumos usados na produção. “São monitorados pontos estratégicos do processo de produção de biodiesel, glicerina, ácidos graxos e borra. O biodiesel, principal foco das análises, é analisado tempestivamente, até que seja emitido o laudo de qualidade e aprovado para formação de lote ecarregamento”, explica Raquel.

Enquanto a produção da Fiagril está em análise, o produto fica num tanque intermediário (tanque de análise) e, caso apresente alguma alteração, é novamente processado. “Essa alternativa existe apenas por segurança, pois não temos registro de reprocessamento”, diz Raquel. Ela informa que após a aprovação dos responsáveis pela qualidade, o produto segue para o tanque de expedição, de onde vai para as distribuidoras. Mas, antes da liberação de cada lote, uma amostra é coletada para que seja feita mais uma bateria de análises estabelecida pela ANP.

Já o Centro de Energias Renováveis (Cerbio) do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), antes de começar todo o processo de análise informa ao cliente os procedimentos de coleta da amostra. “Ao chegar ao laboratório, as amostras são identificadas por um número sequencial. É por esse número que os técnicos responsáveis pela execução dos ensaios registram os resultados correspondentes”, explica a gerente do Cerbio, Elisa Maria Suchek. Os ensaios são realizados conforme metodologias normatizadas.

Comercialização

Na BSBios, por exemplo, há uma rotina de análises que contempla desde as análises dos insumos e matérias-primas no momento de seu recebimento até a qualidade da água de uso industrial.

Para a gerente Larisse, a empresa ter seu próprio laboratório permite agilidade na certificação dos lotes e um acompanhamento mais preciso da produção: “O fornecimento rápido de resultados para a produção permite ajustes rápidos do processo. Esses ajustes evitam produto fora de especificação e [permitem] economia nas dosagens de insumos, como, por exemplo, catalisador e antioxidante.” Ela acrescenta que isso facilita a avaliação das matérias- primas e insumos recebidos. Raquel, da Fiagril, complementa: “É imprescindível ter um laboratório próprio, pois é impossível garantir a qualidade de algum produto que não seja monitorado e analisado.”

Devolução

A gerente do Cerbio, Elisa Maria, explica que tanto as condições de estocagem e armazenamento como a amostragem do biodiesel em toda a cadeia de distribuição podem afetar os resultados. “Por consequência, resultados divergentes aos determinados pelo produtor desse biocombustível são mais expressivos quando os procedimentos de qualidade não são adotados”, explica. Os resultados expressos no certificado de análise são restritos à amostra enviada pelo cliente, ou seja, o laboratório não é responsável por possíveis divergências de resultados que tenham sido provocados por erros na coleta das amostras.

Existem diversos fatores para que uma carga de biodiesel seja devolvida. A ANP destaca que guardar a amostra-testemunha é de suma importância para a verificação da qualidade do biodiesel produzido, podendo ser utilizada como contraprova nesses casos. As distribuidoras também realizam testes que verificam o combustível recebido, observando o aspecto do produto (cor, densidade, partículas suspensas etc) e a massa específica. “Nos casos em que um desses dois parâmetros não está enquadrado na especificação, a distribuidora devolve o produto ao fornecedor, informando o ocorrido à Petrobras”, explica o executivo do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom), Alísio Vaz. Elisa acredita que, mesmo existindo o cadastro na ANP, pode haver conflito de interesses de um produtor que analisa e certifica o próprio produto: “Além da utilização de normas padronizadas e de equipamentos calibrados, a contratação de profissionais qualificados é fundamental para uma boa análise e a confiança dos resultados.”

Interlaboratorial

Para minimizar resultados conflitantes, Elisa explica que a cada seis meses a ANP avalia os resultados dos laboratórios pelo programa interlaboratorial. “As divergências nesses resultados são resolvidas internamente. Considerando que as amostras analisadas são similares, o laboratório irá avaliar questões relacionadas ao procedimento de análise, calibração e manutenção, erros aleatórios, entre outros”, aponta.

Também é realizada uma reunião no Rio de Janeiro, com um representante de cada laboratório participante, na qual são discutidos os resultados.

Larisse, da BSBios, aponta que algumas divergências ocorreram em função da falta de normatização para alguns ensaios, como, por exemplo, o ensaio de aspecto, que hoje já dispõe de norma própria. “O uso de normas internacionais que não contemplam a variedade de matéria-prima usada no Brasil também provocou algumas divergências de resultados entre laboratórios”, explica.

As companhias distribuidoras monitoram periodicamente a qualidade do produto através de testes mais detalhados em amostras coletadas no recebimento. Em caso de divergência em relação ao laudo do produtor, encaminham os resultados à ANP. A agência tem formulário específico de Comunicação de Não Conformidade na entrega do B100, com a identificação da carreta, local de recebimento e indicação dos problemas, sempre acompanhada de fotos.

De acordo com o Sindicom, os casos de não conformidade não representam volume muito significativo quando comparados ao total movimentado. “Mas ainda ocorrem e são graves, pois atrasam a disponibilidade do produto final (diesel) naquele local e indicam a necessidade de atenção à qualidade do mesmo”, pondera Vaz. De qualquer forma, o presidente do Sindicom está otimista com a revisão da especificação do B100 e acredita que a questão da qualidade do biodiesel deve deixar de ser uma preocupação.

Segundo Larisse, em casos de divergência uma boa prática é usar materiais de referência certificados, que além de serem usados na rotina de checagem definida pelo laboratório, podem ser usados para resolver diferenças entre laboratórios. “Além disso, uma boa prática é participar dos Programas Interlaboratoriais em Biodiesel desenvolvidos semestralmente pela ANP, a fim de verificar como estão os resultados do laboratório”, acrescenta.

Transporte

Também é recomendável verificar as alterações ocorridas durante o transporte. “Não temos registros de divergências, pois tomamos vários cuidados desde a entrada do caminhão- tanque na nossa unidade produtora. Todos os caminhões passam por vistoria antes de serem carregados e, caso não sejam aprovados, é de responsabilidade da transportadora tomar medidas”, explica Raquel, da Fiagril.

“Parâmetros de qualidade como teor de água podem sofrer alterações no transporte, visto que os caminhões não sofrem inertização após o carregamento. O mesmo pode acontecer com os parâmetros de contaminação total e teor de metanol, que podem sofrer alterações quando não for realizada uma inspeção prévia dos veículos antes do carregamento”, explica a gerente da BSBios.

Outros tipos de alteração, como incremento dos teores de glicerina livre, também podem ocorrer caso o produtor faça a expedição do produto em caminhões que tenham transportado óleo vegetal sem inspeção prévia das suas condições de limpeza.

A engenheira química da Fiagril também lembra que todas as bocas de entrada dos caminhões precisam estar bem lacradas para evitar interferências externas no produto. Se o meio externo entrar em contato com o interior do tanque, podem ocorrer variações de umidade e o contato com o oxigênio poderá interferir na estabilidade oxidativa do biodiesel. “Não temos registro de ocorrências como esta, mas na descrição dos processos de qualidade do laboratório, o procedimento é retirar de cada caminhão-tanque carregado uma amostra-testemunho, que é lacrada e armazenada”, explica. Isso permite gerar rastreabilidade, que em caso de divergência, permite requerer um novo ensaio pelo laboratório. “Em outro caso, ambos podem, em consenso, eleger um terceiro laboratório para realizar a análise do litígio dos resultados”, conclui Raquel.