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Glicerina, loira fatal: o mercado brasileiro e as perspectivas


Edição de Jun / Jul 2012 - 20 jun 2012 - 09:14 - Última atualização em: 10 jul 2012 - 17:21
A glicerina seduz pela infinidade de aplicações, mas a discussão sobre o reaproveitamento desse coproduto do biodiesel precisa se estender além dos dividendos que sua comercialização pode gerar

Cátia Franco, de São Paulo

Esta foi uma reportagem às avessas. A ideia era descobrir se valia a pena as usinas de biodiesel investirem na destilação da glicerina. Nesse sentido, a suposição era que o grande desafio seria obter informações acerca do custo para instalação de plantas destiladoras e outras cifras, já que existe certo melindre das empresas em falar de dinheiro. Por outro lado, as informações sobre o comportamento do mercado brasileiro de glicerina não seriam problema, afinal trata-se de um produto com ampla e larga aplicação em diversos setores da nossa indústria e que, por isso, deveria contar com bom acervo de informações mercadológicas. O que aconteceu foi exatamente o oposto nos dois casos.

Procurada, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) alegou, por meio de sua assessoria de imprensa, não dispor de dados recentes sobre o produto. “O último levantamento é de 2006”, foi a resposta da entidade. Questionada sobre o porquê da defasagem, uma vez que a entidade lançou há pouco nova edição do Anuário da Indústria Química Brasileira, a resposta foi a seguinte: “Nós temos espaço em nosso anuário para a divulgação de dados sobre o mercado de glicerina. Mas as empresas não nos passam essas informações. E a contribuição com dados para o anuário é voluntária.”

Restou fazer trabalho de formiguinha, coletando informações de profissionais com experiência no setor para conseguir apresentar ao leitor – mesmo sem a chancela de dados oficiais – o panorama do mercado de glicerina no Brasil e as perspectivas para o produto resultante do biodiesel.

Premissa básica para quem desejar ingressar nesse mercado: o biodiesel (e, consequentemente, a glicerina) precisa ser oriundo de um processo com parâmetros bem definidos. “A glicerina com aceitação de mercado é a que chamamos de glicerina loira, cujo teor de pureza beira os 85%. Os bons processos de produção de biodiesel garantem isso”, explica José Luiz Olivério, engenheiro mecânico de produção e vice-presidente de tecnologia e desenvolvimento da Dedini S/A Indústrias de Base, empresa que fornece plantas de destilação para glicerina.

A observação de Olivério foi reiterada por todas as fontes ouvidas por BiodieselBR. O argumento é simples e lógico: quanto melhor a qualidade do biodiesel produzido, melhores seus coprodutos. Isso se traduz em menos investimento para purificar a glicerina a fim de disponibilizá-la num mercado cujo nível de exigência é elevado.

Na opinião de profissionais que trabalham com glicerina, a qualidade é hoje o principal entrave para os produtores de biodiesel que planejam disponibilizá-la em escala comercial e lucrar com isso. “A glicerina proveniente da produção de biodiesel é uma glicerina vegetal de boa qualidade, mas a maioria das disponíveis no mercado possui traços de metanol, e, com isso, não vejo hoje sua aplicação no segmento farmacêutico”, afirma Kelly Batista Carvalho, coordenadora do segmento cosmético-domissanitário da Cosmoquímica, empresa que comercializa glicerina de grau farmacêutico. “Os traços de metanol podem ser removidos por processo de decantação e purificação, mas não é o que tenho visto no mercado em termos de produto.”

Isso tem repercutido de forma negativa sobre a glicerina proveniente do biodiesel em geral. A ponto de praticamente inviabilizar sua entrada neste nicho bastante rentável que é o farmacêutico. Afinal, como o metanol é altamente tóxico, não dá nem para pensar em usar um produto com traços da substância na confecção de cápsulas que irão revestir medicamentos, xaropes ou pomadas.

O problema não reside apenas no metanol usado no processo de produção de biocombustível, mas também no excesso de catalisadores. É nesse aspecto que foca a pesquisa desenvolvida pela doutora do Centro de Ciências Químicas, Farmacêuticas e de Alimentos da Universidade Federal de Pelotas (CCQFA/UFPel) Mariana Antunes Vieira. A pesquisadora explica que o processo de transesterificação pode gerar muitas impurezas – de origem orgânica, como o metanol, e de origem inorgânica – por conta dos catalisadores. Controlar os níveis de contaminação é essencial para os produtores que desejam fazer o aproveitamento de seus coprodutos.

Atualmente, o estudo empreendido por Mariana, que esteve entre as iniciativas premiadas na 6ª edição do Programa L’Oréal-ABC-Unesco para Mulheres na Ciência, está na fase de determinação da presença de elementos metálicos (magnésio, cálcio, potássio, sódio) na glicerina proveniente da produção de biodiesel. “Em amostras recolhidas em usinas do Rio Grande do Sul, constatamos um alto teor de sódio”, revela.

Quesito mandatório

O quesito qualidade – que, no caso da glicerina, podemos traduzir por “pureza” – não somente é determinante para o ingresso no mercado, como se mostra um fator preponderante na hora de analisar se vale a pena investir numa planta de destilação.

Um leitor mais atento poderá questionar: “Se há múltiplas aplicações para a glicerina, por que se preocupar? Basta vender para mercados menos exigentes.” De fato, há essa possibilidade. No segmento industrial, por exemplo, as aplicações são quase infinitas, e as exigências em termos de qualidade, bem menores. “Este é o segmento em que a glicerina resultante do biodiesel tem atuado forte, e daqui pra frente fará isso cada vez mais”, prevê Kelly, da Cosmoquímica.

Acontece que, segundo especialistas, o uso industrial no qual a glicerina resultante do biodiesel tem se destacado não é o mais rentável. Aqui, novamente a lógica é simples: o produto com maior grau de pureza tem o maior valor de mercado. Segundo apurado por BiodieselBR, paga-se hoje por uma tonelada de glicerina loira (aquela cujo grau de pureza gira em torno de 85%), em média, R$ 350. Já por uma tonelada de glicerina de grau farmacêutico, cujo grau de pureza chega a 99,7%, cerca de R$ 1.800 – quase seis vezes mais. “No caso da glicerina com baixo teor de pureza, em torno de 70% a 75%, a solução é queimar, mesmo porque para transformar num produto passível de comercialização será preciso muito investimento”, diz Olivério.

Obviamente, o processo de purificação para atingir o grau farmacêutico é mais acurado – e oneroso. Para chegar a tamanho grau de pureza é preciso, além da destilação, que elimina as impurezas voláteis e possibilita a decantação de matéria sólida, adicionar mais uma etapa, a de refino, também com uso de filtros de temperatura que ajudam a retirar impurezas adicionais. Mesmo sendo um processo caro, há gente de peso no mercado de biodiesel que acredita que o retorno compensa o investimento.

Quanto vale o show

Embora não confirme oficialmente a informação, a Granol está construindo uma planta de refino de glicerina de padrão farmacêutico em sua usina na cidade de Anápolis (GO). É o que assegura a GEA Westfalia Separator Brasil, empresa responsável pelo fornecimento dos equipamentos de destilação do produto para a Granol.

A Granol, que ainda produz somente a glicerina loira, diz que no último ano obteve um valor líquido médio de R$ 300 por tonelada comercializada. Também afirma que no mesmo ano foram produzidas 35.600 toneladas do coproduto - 18.700 toneladas em Anápolis (GO) e 16.900 em Cachoeira do Sul (RS). Fazendo as contas, por baixo a Granol embolsou R$ 10,5 milhões com a venda de glicerina de qualidade inferior. Agora, calcule isso com base no preço médio de uma tonelada de glicerina de grau farmacêutico informado acima, R$ 1.800. Não é preciso muito raciocínio para entender que esse é um investimento atraente.

Embora apenas 7% da glicerina vendida no Brasil tenha como destinação a indústria farmacêutica (o setor de cosméticos continua imperando como o principal consumidor, absorvendo cerca de 40% da glicerina comercializada), a decisão da Granol de investir numa planta de destilação é um bom indicativo de que há um mercado a ser explorado pelos produtores de biodiesel.

Entretanto, além de garantir um produto de qualidade, há outras condições a serem atendidas para os que pretendem seguir por esse caminho.

Uma delas é ter uma escala mínima de produção. Segundo as fontes da GEA e da Dedini, o investimento só se justifica em usinas de produção de biodiesel com capacidade igual ou superior a 100 mil toneladas por ano. Para uma produção inferior a isso, o custo da purificação é salgado. O preço de uma planta de destilação para uma usina de biodiesel, cuja produção média anual gire em torno de 100 mil toneladas de biocombustível, varia de R$ 10 milhões a R$ 12 milhões, estima Olivério. Ou seja, é preciso ter bolsos fundos para se aventurar.

O vice-presidente da Dedini também ressalta a importância de, no plano-diretor da usina, haver previsão para expansão de área. Embora diga que espaço não seja problema, uma planta de destilação, segundo ele, pode ocupar até metade da área de uma usina. A capacidade de disponibilização de energia térmica e elétrica é outro quesito a ser conferido na hora de se cogitar construir uma instalação de purificação de glicerina.

Mas o retorno pode ser bastante considerável, “uma vez que é possível atingir um valor até cinco vezes superior ou mais com a venda da glicerina purificada ao invés da glicerina bruta, dependendo do momento de mercado”, garante o gerente de vendas da Divisão Recursos Renováveis da GEA, Osvaldo Bullara.

Retorno

Quanto isso representa exatamente? Como o mercado de glicerina oscilou muito nos últimos anos, fica difícil fazer estimativas precisas. Contudo, os preços pagos pela glicerina da Granol indicam uma crescente valorização do produto. Segundo a própria empresa, o preço médio por tonelada em 2009 ficou em R$ 39; em 2010, subiu para R$ 131; e, no ano passado, bateu em R$ 300 por tonelada. Uma valorização de quase oito vezes em dois anos.

Olivério é um dos que se arrisca a falar que o payback (tempo entre o investimento inicial e o momento no qual o lucro líquido acumulado se iguala ao valor desse investimento) de uma destiladora do tipo seria inferior a dois anos.

Valor agregado

Mas o principal impulso para fazer o reaproveitamento da glicerina resultante da produção de biodiesel não deve estar centrado em projeções de lucros, alegam os pesquisadores ouvidos por BiodieselBR. Até porque, de acordo com o professor da Escola Politécnica da Universidade de Pernambuco e coordenador de coprodutos da Rede Brasileira de Tecnologia do Biodiesel, Sérgio Peres Ramos da Silva, o mercado brasileiro de glicerina estaria saturado. Ou seja, não dá para contar com que os preços atuais do mercado se mantenham favoráveis no futuro.

A proposta de dar uma destinação mais inteligente a esse coproduto, ao invés de queimá- -lo nas caldeiras ou estocá-lo, tem como base o apelo sustentável. Isso porque a queima da glicerina pode liberar uma substância cancerígena, denominada acroleína. E para os produtores que sonham em obter o passaporte para o mercado europeu, trata-se de uma questão a ser avaliada.

O professor elenca projetos inovadores para o aproveitamento do produto residual do biodiesel, que fogem aos propósitos comerciais já difundidos. Uma dessas iniciativas converte a glicerina em gás para, posteriormente, transformá-la em combustível líquido. Segundo Peres, no seu estado gasoso, o material já poderia ser utilizado para movimentar caldeiras e motores. “Há empresas nos Estados Unidos usando essa tecnologia para produção de combustíveis alternativos, o glyclene e o glycoal”, informa o professor. Para alavancar a iniciativa, o governo norte-americano está subsidiando o processo em meio dólar por galão (um galão equivale a 3,8 litros).

A despeito das dificuldades para se avaliar o potencial do mercado de glicerina no Brasil, é indiscutível que os produtores de biodiesel precisam começar a pensar seriamente em aproveitar a glicerina resultante da produção. Não importa se apostando na comercialização ou em projetos diferenciados, como o citado pelo professor Peres. Só o simples fato de agregar valor, com forte apelo sustentável, à cadeia produtiva, já pode tornar o aproveitamento de produtos residuais do biodiesel um bom negócio.