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[Paulo Suarez] Europa: um possível mercado para o nosso biodiesel

Como é comum na história política dos nossos vizinhos argentinos, toda vez que uma crise aparece no horizonte o governo toma medidas populistas com efeitos bastante questionáveis.
Edição de Jun / Jul 2012 4 min de leitura
Como é comum na história política dos nossos vizinhos argentinos, toda vez que uma crise aparece no horizonte o governo toma medidas populistas com efeitos bastante questionáveis. Com a grave crise econômica que se arrasta na Argentina por mais de uma década, a Casa Rosada vem tomando medidas cada vez mais heterodoxas, que têm afetado suas relações com diversos países. Este ano a Comunidade Europeia assistiu estupefata a diversas medidas protecionistas dos argentinos em relação ao comercio bilateral, além da nacionalização da YPF, ex-estatal privatizada pelo governo portenho no final do século 20 e controlada até um mês atrás pela espanhola Repsol. Como era de se esperar, os europeus, em especial os espanhóis, não ficaram satisfeitos com a situação e já começam a tomar medidas em retaliação.

Infelizmente para o agronegócio argentino, tudo indica que quem irá pagar o preço vai ser mesmo a indústria do biodiesel. Dos 2,5 bilhões de litros de biodiesel que produz, a Argentina consome internamente apenas 31%, sendo o restante exportado para a Europa. Só para a Espanha a Argentina exportou 720 milhões de litros do biocombustível em 2011, o que lhe rendeu US$ 1,1 bilhão. Em resposta à nacionalização da YPF, o governo espanhol já está realizando consulta a produtores europeus para que troquem de fornecedores e, em seis meses, abandonem a importação de biodiesel argentino. Mas as medidas não param por aí. Enquanto escrevia esta coluna, saiu a notícia de que a Comunidade Europeia abriu processo na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a Argentina pelas restrições do país latino-americano às importações do bloco. Esta medida poderá resultar numa retaliação a todos os produtos argentinos, paralisando a exportação de biodiesel para a Europa.

Esta pode ser a chance para a nossa indústria de biodiesel finalmente conseguir entrar no mercado europeu. De fato, os produtores europeus têm pouca condição de competir com a nossa agroindústria, bem como dificilmente terão capacidade de produzir os 21,8 bilhões de litros de biodiesel necessários para atingir até o ano de 2020 a ambiciosa meta de substituir 10% dos combustíveis fósseis consumidos. Assim, vejo como um possível desdobramento da crise diplomática decorrente das políticas comerciais da Casa Rosada a excelente oportunidade para a nossa indústria ampliar o seu mercado. Este poderia ser um caminho para resolver o problema crônico de capacidade ociosa que discuti nesta coluna na edição anterior da revista BiodieselBR.

No entanto, para ingressar no mercado europeu a nossa indústria de biodiesel deverá atender a uma série de exigências inexistentes no comércio nacional. Como a política do programa europeu é fortemente baseada na diminuição da emissão de carbono, os produtores deverão comprovar que o seu biocombustível, além de atender às rígidas especificações técnicas, foi produzido com matéria-prima e processos que resultem na emissão de pelo menos 35% menos gás carbônico que o diesel fóssil. A meu ver, comprovar que o nosso biodiesel cumpra este quesito será extremamente complicado, pois pairam dúvidas sobre as nossas práticas agrícolas, principalmente relativas a possíveis deslocamentos da nossa fronteira agrícola envolvendo a derrubada de florestas.

Finalizando, acredito que temos uma excelente oportunidade de ampliar o mercado do nosso biodiesel e finalmente nos transformarmos em exportadores. No entanto, isso só será possível caso tenhamos investimentos no sentido de certificar tanto a origem quanto a qualidade do nosso produto, o que poderá ser feito, por exemplo, com a criação de um selo emitido por uma organização certificadora independente.

Paulo Suarez é professor do Instituto de Química da Universidade de Brasília (IQ-UnB) e foi vencedor do Prêmio Mercosul de Ciência e Tecnologia em 2005.
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