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Óleo de cozinha: iniciativas isoladas e sem sinergia


Edição de Fev / Mar 2012 - 08 mar 2012 - 13:13 - Última atualização em: 11 mar 2012 - 19:29
Aclamada como a destinação mais sustentável para o óleo de cozinha, a produção de biocombustíveis inclui-se no rol das iniciativas solitárias, carentes de maior estímulo

Cátia Franco, de São Paulo

Todos os meses, mais de 200 milhões de litros de óleo usados no preparo de alimentos são despejados indiscriminadamente nas águas brasileiras, causando um dano ambiental significativo. Só para se ter uma vaga ideia do estrago, apenas um litro de óleo é capaz de esgotar o oxigênio de até 20 mil litros de água. Em poucos dias, o óleo forma uma fina camada sobre a superfície da água, impedindo a oxigenação e, em última instância, causando a morte de peixes, plantas aquáticas e demais seres desses ecossistemas. Por esse e outros vários motivos, o óleo e as gorduras residuais (OGRs) são apontados como os maiores poluidores das águas brasileiras.

A solução para evitar a contaminação desmedida de mares, rios, lagos e nascentes já é conhecida: reciclar o óleo de cozinha. E nesse contexto, a indústria de biodiesel tem um papel crucial. Isso porque a transformação em biodiesel é apontada como a destinação mais nobre e ecologicamente correta que se pode dar ao material.

Se toda essa quantidade de óleo desprezada mensalmente pelos brasileiros fosse coletada, daria para fabricar aproximadamente 7,7% da produção brasileira de biodiesel do ano passado – estimada em pouco menos de 2,6 bilhões de litros – a um custo cerca de 20% menor. É o que afirma a Associação Brasileira para Sensibilização, Coleta e Reciclagem de Resíduos de Óleos Comestíveis (Ecóleo).

Parece algo simples de ser executado. Mas não é. Toda a operação para se colocar essa proposta em prática, além de complexa, tem muitos desafios. Talvez por isso, o número de iniciativas voltadas à reciclagem de OGRs para a produção de biodiesel ainda não seja representativo. Contudo, é importante ressaltar os projetos já existentes, que, trabalhando como formiguinhas, estão contribuindo para mudar esse panorama.

Uma das mais engajadas na questão é Célia Marcondes, presidente da Ecóleo, ONG que, por meio de uma proposta de conscientização e orientação, luta para manter o óleo fora das tubulações e cursos d´água. Desde que abraçou a causa, em 2007, Célia já ajudou indiretamente a coletar, só na Grande São Paulo, 1,7 milhão de litros de óleo usado. A maior parte dessa quantia – algo em torno de 70% – têm como destinação o biodiesel (o restante vai para produção de sabão, massa de vidro, entre outros).

Além firmar parcerias com sindicatos, restaurantes, hotéis e demais estabelecimentos que possam contribuir para a coleta de óleo, Célia presta uma espécie de consultoria para os interessados em montar usinas de biodiesel de OGRs. “Recebemos muitas ligações, e-mails de pessoas interessadas em comprar óleo e até mesmo saber o que se precisa para montar uma usina de biodiesel usando como matéria-prima óleo e gorduras residuais. Procuro oferecer todas as informações necessárias. Estamos à disposição daqueles que querem contribuir para manter o óleo de cozinha longe dos rios”.

Com o propósito de ajudar a identificar os estabelecimentos que integram o exército de recicladores de OGRs, a Ecóleo criou um selo, que é personalizado com o logo do parceiro e conta com a inscrição: “Este estabelecimento recicla o óleo usado”.

Usina volante

Há iniciativas que vão além do estímulo à reciclagem. É o caso do projeto encabeçado pela Biotechnos, cuja atuação se estende por toda a cadeia da reutilização do óleo de cozinha – da coleta à produção do biodiesel.

A empresa partiu de uma tecnologia inovadora para produção de biodiesel. Seu processo não usa ácidos para a neutralização do biocombustível bruto, nem água de lavagem. Além disso, é feito em uma instalação móvel de pequeno porte, que tem capacidade de produção máxima de 5 mil litros de biodiesel por dia (1,8 milhão de litros/ano).

A matéria-prima usada para abastecer a miniusina, que foi criada em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), é obtida por meio de programas de incentivo à coleta, como o Programa de Coleta de Óleo Saturado da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), com quem a Biotechnos firmou parceria. O projeto, que envolve um trabalho de conscientização e educação ambiental nas escolas da cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul, é apontado como um dos mais bem-sucedidos do país. A Biotechnos participa fornecendo os equipamentos de limpeza do óleo de fritura (beneficiamento) e de fabricação de biodiesel.

Além da unidade em Santa Cruz do Sul, a Biotechnos conta com mais quatro miniusinas instaladas pelo país. Em janeiro, deve instalar mais uma em Arraial do Cabo (RJ). “A matéria-prima será coletada por uma cooperativa ligada aos pescadores locais e o biodiesel produzido abastecerá os barcos”, revela Márcia Werle, presidente do Conselho de Administração da Biotechnos.

Satisfeita com os resultados alcançados, a empresa planeja instalar miniusinas em cada uma das cidades-sedes da Copa do Mundo. “Elas serão referências nos próximos dois, três anos para a implementação de iniciativas sustentáveis. Servirão como plataforma nacional para conscientizar sobre a importância de se reciclar o óleo”, acredita Márcia.

A JBS, maior empresa brasileira de processamento de proteína animal, também coordena uma iniciativa pioneira em reciclagem de OGRs, que arrematou o prêmio “Ação Sustentável”, promovido pela Associação Paulista de Supermercados (Apas). Com a ajuda de um parceiro, a Óleo&Óleo, que oferece as bombonas (recipientes para armazenar o óleo usado), a empresa coleta óleo em residências de cidades do interior paulista. Só em 2011, a JBS recebeu 326.685 litros de óleo de fritura.

Paralelamente, a empresa promoveu duas ações de recolhimento de óleo: uma na principal feira supermercadista, na qual foi premiada, e outra em Barretos. A primeira consistiu em fazer a coleta de óleo vegetal usado nos stands da feira. Durante os quatro dias do evento, foram coletados 900 litros de óleo, posteriormente encaminhados à usina de biodiesel da JBS, localizada em Lins (SP). Em Barretos, durante os dias de eventos, foram recolhidos 463 litros de óleo usado, também destinados à produção de biodiesel.

Logística reversa

Foi pensando em como atender as empresas que a consultavam sobre a questão da logística reversa que a Martin Brower teve a ideia que culminou no “Projeto Biodiesel”. A iniciativa consiste em recolher o óleo utilizado nos restaurantes da rede McDonald’s, da qual a Martin Brower é distribuidora exclusiva, e transformá-lo no biodiesel que vai abastecer a própria frota utilizada na coleta. É o denominado “circuito fechado”. “A questão da logística reversa tem um custo elevado, mas para nós era algo viável, já que levamos produtos aos restaurantes da rede duas vezes por semana. Podemos trazer os resíduos a um custo quase zero”, diz Augusto Santos, diretor comercial da Martin Brower.

Mensalmente, a empresa coleta de 7 a 8 mil litros de OGRs nos 20 restaurantes da rede McDonald’s que integram a iniciativa. Após a reciclagem, são transformados no biodiesel que supre cinco veículos da empresa – quatro com B20 e um com B100.

Uma das boas notícias trazidas pelo projeto, criado há cerca de dois anos, é a redução de custo em função do uso do biocombustível. “Vai ficar mais barato. Embora o consumo com biodiesel seja maior, o custo de produção será menor”, prevê Santos. Segundo ele, a Martin Brower pretende expandir o projeto para os 650 restaurantes da rede McDonald’s, mas “antes precisa da aprovação da ANP para uso do biodiesel produzido”.

Qualidade

“Normalmente, as indústrias de biodiesel têm certa resistência em usar o óleo de fritura como matéria- prima porque isso implica trazer para dentro da fábrica um passivo ambiental que tem qualidade altamente heterogênea, dificultando seu aproveitamento. A fabricação de biodiesel é razoavelmente exigente quanto à qualidade e homogeneidade da matéria-prima usada”, pontua José Honório Accarini, assessor da Subchefia de Análise e Acompanhamento de Políticas Governamentais da Casa Civil.

E é justamente no quesito da qualidade que o sistema de filtragem desenvolvido por alunos da Escola Politécnica (Poli) da USP, em parceria com o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA) e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, têm atuado. “A ideia é conseguir alcançar um padrão de qualidade que permita eliminar total ou parcialmente a fase de tratamento preliminar. Dessa forma, o óleo vendido pelos cooperados teria maior valor agregado e, assim, os ganhos seriam superiores”, explica Walter Volpini, aluno do curso de engenharia mecânica da Poli ligado ao projeto.

Testes realizados no Laboratório de Eletroquímica e Corrosão da Escola Politécnica da USP, com amostras do óleo recolhido antes e depois da filtragem, apontaram uma redução de 86,27% na quantidade de água presente no óleo depois de passar pelo sistema de filtragem.

De certa forma, o projeto conseguiu alcançar parte do seu intento. O equipamento tem feito a diferença no trabalho dos catadores da Cooperativa de Arujá (Cora). Antes de utilizarem o filtro desenvolvido pelos estudantes, a cooperativa vendia o óleo que recolhia por um valor que variava de R$ 0,50 a R$ 0,65. Graças ao uso do sistema de filtragem, o valor negociado pela Cora alcançou R$ 1,05 por litro.

Apesar do avanço, o projeto ainda tem desafios pela frente. “Para a produção de biodiesel também é preciso corrigir a acidez do óleo, o que ainda está sendo alvo de estudo”, observa Volpini.

Alvo: dona de casa

O Estado de São Paulo recicla 2 milhões de litros de óleo por mês. Parece muito, mas não é nem 5% do que poderia ser reutilizado. Uma quantidade assustadora de OGRs continua contaminando as águas de rios, lagos e mares. Além de ser crime ambiental, trata-se de um desperdício terrível.

Segundo a presidente da Ecóleo, os responsáveis por alimentar esse processo danoso ao meio ambiente são os milhões de domicílios brasileiros. “A grande dificuldade reside em como conscientizar a dona de casa sobre o potencial poluidor do óleo e convencê-la a não o despejar no ralo da pia”, afirma Célia.

Para Edilson Hiroshi Tamai, coordenador do PET-Mecânica, grupo de iniciação científica da Poli ao qual pertence parte dos estudantes que desenvolveram o protótipo do sistema de filtragem, mudar a cultura da população brasileira em relação ao óleo de cozinha exige mais do que conscientização. “É preciso toda uma infraestrutura para a reciclagem. O dono de restaurante ou a dona de casa precisa armazenar o óleo adequadamente e aguardar a coleta ou ir a um ponto de coleta. Isso se existir um ponto de coleta próximo. Uma cooperativa passar em diversas residências recolhendo pequenas quantidades pode ser inviável”, ressalva.

A colocação do professor é precisa. Tome-se o exemplo de Curitiba, capital do Paraná. O site da Ecóleo lista somente três ecopontos (locais para entrega de óleo usado) para uma cidade de 1,7 milhão de habitantes. Em Campo Grande (MS), que já possui programa de coleta normatizado, o Programa de Coleta de Óleos Residuais de Cozinha (Recol) dispõe de quatro ecopontos, fora os pontos de entrega voluntários.

União faz a força

Conscientizar, criar infraestrutura e oferecer incentivos, inclusive fiscais, aos catadores e aos empresários interessados em produzir biodiesel são algumas das medidas elencadas pelos entrevistados para impulsionar a reciclagem de óleo no Brasil. Mas a quem cabe gerenciar e coordenar essas ações? Ou melhor: quem poderia gerir uma política de reciclagem de OGRs com mais eficiência?

A presidente da Ecóleo considera importante o trabalho realizado pelas ONGs, mas diz que as prefeituras, por estarem mais próximas da população poderiam ter mais sucesso nas campanhas de conscientização sobre o descarte ambientalmente correto do óleo. Algumas prefeituras já trabalham nesse sentido e, embora menos expressivas, há também algumas ações no âmbito estadual. Destaque para o Programa de Reaproveitamento de Óleo Vegetal (Prove), do governo fluminense, que tem o objetivo de estimular a coleta de óleo de cozinha usado e a sua reutilização na produção de sabão e de biodiesel.

Contudo, isoladas e sem sinergia, essas iniciativas não funcionam. “Ou a questão é abraçada e enfrentada por todos – ONGs, entidades de classe, empresas privadas, universidades, executivos federal, estadual e municipal – com ações consertadas e consequentes, ou sempre acabará apenas maquiada, mas não solucionada de forma estrutural e duradoura”, conclui Accarini.