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Mamona: fadada ao fracasso


Edição de Out / Nov de 2011 - 15 out 2011 - 12:00 - Última atualização em: 25 jan 2012 - 17:37
Safra da mamona tem queda em 2011, mas este é apenas mais um capítulo na história de poucas vitórias dessa cultura no Brasil

Rosiane Correia de Freitas, de Curitiba

O motor por trás de todo empreendimento comercial é o potencial que a ideia tem de gerar superávits de forma consistente. Mal traduzindo, isso significa que tem de existir uma diferença positiva entre o valor de mercado dos produtos gerados e o custo total da implantação e produção durante longos períodos de tempo. Dá-se a isso o nome de lucro. Algumas vezes, o lucro do produtor vem da escala de produção. Ou seja, ele ganha muito pouco por unidade, mas como produz e vende volumes muito grandes, no fim das contas, o ganho é substancial. Há também aqueles que têm uma taxa de retorno alta e garantem o lucro mesmo com um baixo volume de vendas.

Não há na literatura econômica, no entanto, casos de empreendimentos sustentáveis no longo prazo quando há uma diferença negativa e persistente entre o valor de mercado dos produtos e seu custo total da produção. A isso se dá o nome de prejuízo. Em alguns casos, pode ser financeiramente sustentável – e até uma boa estratégia de negócios – suportar períodos de prejuízo com a meta de estar numa posição estratégica mais favorável quando o lucro chegar. Mas ele precisa chegar mais cedo ou mais tarde, caso contrário o negócio acaba invariavelmente condenado ao fracasso.

O negócio da mamona no Brasil vive a perspectiva de se enquadrar neste último caso, o dos empreendimentos que dão prejuízo mas que vislumbram uma chance real de obterem retornos no futuro. Acontece que, até o momento, as evidências apontam para uma verdade mais desanimadora: pode ser que a bonança nunca chegue.

A mamona já foi um bom negócio no Brasil. Nas décadas de 1970 e 1980, o país era responsável pelo abastecimento de 65% da demanda mundial. Na safra 1984/1985 tivemos um recorde histórico de 393 mil toneladas dessa oleaginosa. “Mas daí a China e a Índia entraram no mercado com menor custo de produção”, conta o pesquisador Napoleão Esberard de Macêdo Beltrão, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Gigantes asiáticos

Hoje o mercado mundial da mamona é abastecido principalmente pela Índia. O país asiático planta aproximadamente 1 milhão de hectares, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Dados de 2005 (os mais recentes disponíveis no banco da organização) mostram que a Índia movimentou US$ 351 milhões com as 870 mil toneladas de mamona produzidas naquele ano.

A China, outro gigante do setor, produziu 268 mil toneladas e ficou com o segundo lugar no ranking . Segundo a FAO, o Brasil é terceiro maior produtor de mamona do planeta, tendo colhido 176 mil toneladas em 2005.

A esperança, para o mercado nacional dessa cultura, era que os investimentos trazidos para o setor pelo Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) ajudassem o país a retomar o crescimento na produção nacional e seu antigo papel no mercado internacional. No entanto, apesar de ter sido anunciada como “a cara do biodiesel” brasileiro, a mamona permanece bem longe dos tanques de combustível do país e distante do sonho de voltar a ser uma cultura lucrativa. “O que é preciso dizer é que não se faz biodiesel de mamona. Isso é marketing, a realidade é outra”, aponta Jan Brockhausen, diretor da Bom Brasil Óleo de Mamona.

A Bom Brasil é a maior empresa brasileira desse mercado, no qual vem atuando há 50 anos. É com essa experiência que Brockhausen avalia o impacto do PNPB na produção de mamona. “Com todos os investimentos, a produção continua exatamente a mesma. É um mercado fechado, de R$ 200 milhões por ano”, explica. Como mostram dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), isso significa uma safra média anual na casa das 100 mil toneladas. Segundo dados da Conab, desde a safra 2004/2005, a produção nacional de mamona tem se mantido na faixa média das 120 mil toneladas.

Este ano a produção brasileira de óleo de mamona deve ficar abaixo da expectativa, diz Valéria Oliva, da Campestre Indústria e Comércio de Óleos Vegetais. “A entressafra de fevereiro foi muito pequena”, conta. A colheita da safra normal começa em agosto e as perspectivas não são boas. O problema, aponta Beltrão, é que a Região Nordeste, particularmente a área do município de Irecê, na Bahia, ficou 50 dias sem receber chuva, o que vai prejudicar a safra.

“Até a Embrapa perdeu experimentos que realizava na região por causa da falta de chuva”, conta Valéria. Com a seca por período prolongado, a produtividade cai e pode até causar uma quebra de produção.

Sem demanda

O diretor da Bom Brasil avalia que, depois da entrada da Índia e da China no mercado mundial de mamona, o Brasil deixou de ser exportador do óleo. “Hoje a nossa produção é para atender a demanda interna”, diz. A esperança era que o programa de biodiesel conseguisse aumentar o mercado do óleo, garantindo o aumento na produção. Essa alta na demanda, no entanto, ainda não aconteceu. “A Petrobras Biocombustível compra o óleo, mas não usa para produzir biodiesel”, reforça.

De fato, a mamona sequer aparece entre as várias matérias-primas citadas pelos boletins mensais do biodiesel produzidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em junho, o óleo de soja foi a origem de 83% da produção nacional do combustível. A agência registrou também o uso de gordura de frango, porco, sebo bovino, óleo de caroço de algodão e óleo de fritura. Nada de mamona.

Isso não significa que as empresas de biodiesel não estejam comprando mamona. Como as regras do programa Selo Combustível Social não exigem que o óleo adquirido dos produtores familiares seja efetivamente transformado em biocombustível, as usinas podem adquirir o produto dentro da cota exigida pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e revendê-lo pelo melhor preço. O biodiesel, no entanto, acaba sendo produzido a partir de óleos mais em conta, como o de soja ou o sebo bovino. Dessa forma, a totalidade do óleo de mamona comprado pelas usinas de biodiesel acaba voltando para o mercado desse produto, cuja demanda permanece estável há vários anos.

Quem conhece o mercado de óleo de mamona sabe de cor por que o uso dessa matéria-prima nunca emplacou na cadeia do biodiesel. “É um óleo nobre”, diz Beltrão, da Embrapa. Existe toda uma indústria baseada nas qualidades únicas desse óleo: a chamada ricinoquímica. O óleo de mamona – também chamado óleo de rícino – é um componente importante na fabricação de inúmeros produtos, desde batom até plástico. Até na prospecção de petróleo acontece o uso de componentes da mamona.

Segundo Vanessa Oliva, o litro do óleo de mamona pode ser negociado por até R$ 10 o quilo, valor que o torna proibitivo para as usinas. Para perceber o absurdo, basta ter em mente que o biodiesel foi vendido a um preço médio de R$ 2,30 por litro no último leilão da ANP acontecido no final do mês de agosto.

Mau negócio

Uma das promessas de governo do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva era usar a mamona para revolucionar a vida dos agricultores pobres do semiárido nordestino. A planta teria o condão de garantir renda para as famílias, afinal trata-se de um produto nobre. O problema é que, na prática, produzir mamona não é tão bom negócio assim.

Segundo dados da Conab, o custo médio de produção dessa cultura no nordeste brasileiro é de R$ 1.420,48 por hectare, com uma produtividade média na região de 724 quilogramas por hectare. Na ponta do lápis, isso significa uma renda de R$ 883 por hectare colhido aos atuais preços de mercado para essa oleaginosa. Ou seja, sem aumento da produtividade, insistir na produção de mamona equivale a colher prejuízo certo.

O desafio, aponta Beltrão, é fazer com que a tecnologia e o aumento da produção cheguem aos agricultores. “Hoje não existem muitas opções de cultivares que sejam resistentes à seca”, indica. Muitos dos agricultores que plantam mamona estão na mira do governo dentro do recém-lançado programa federal de combate à miséria, Brasil sem Miséria. Mas, apesar de todos os investimentos, o pesquisador aponta que a informação ainda não tem chegado ao produtor. “Tínhamos que investir em centros irradiadores do conhecimento”, sugere.