022

Pequenas usinas: Outros fatores


Edição de Abr / Mai de 2011 - 31 mai 2011 - 14:15 - Última atualização em: 19 jan 2012 - 10:40

Outros fatores

“O mercado de biodiesel é mais complexo do que sonha nossa vã filosofia”, ironiza o sócio da SPBio, Haroldo de Barros, parafraseando Shakespeare. De acordo com o empresário, ser grande não é nem de perto tão importante quanto ser verticalizado. “Prefiro ser pequeno com esmagamento do grande. Para mim está claro que faz mais diferença uma usina ter controle da matéria-prima, dos custos da soja e do óleo, do que ela ter uma escala de mais de 200 milhões de litros”, assegura.

“Ser verticalizada é condição sine qua non”, concorda o vice- -presidente da Araguassu, Sérgio Di Bonaventura, que administra uma usina do Mato Grosso com capacidade de 36 milhões de litros, no limiar entre as médias e as pequenas. Segundo ele, empresas cujo faturamento dependa exclusivamente do biodiesel devem estar passando por maus bocados, uma vez que o preço médio voltou a apresentar forte queda no 21º leilão da ANP. “Quem olha de fora não consegue entender como é que essas indústrias conseguem se sustentar comprando óleo e revendendo biodiesel. Independentemente da escala que elas possam ter”, surpreende-se.

Mas a verticalização e a possibilidade de complementar a renda no mercado de farelo serviria como um colchão contra as flutuações do mercado. “Como o farelo representa 50% de nosso faturamento, a gente consegue absorver melhor essas oscilações no biodiesel”, completa Bonaventura.

O diretor industrial da Biopar, Nivaldo Tomazella, não está convencido de que a verticalização seja realmente o caminho a ser seguido, embora reconheça que ela é uma vantagem importante neste momento. Mas ele aponta um probleminha no plano: uma unidade de esmagamento custa cerca de quatro vezes mais do que uma usina de biodiesel. “Se minha unidade de biodiesel custou R$ 20 milhões, não vou colocar mais R$ 80 milhões para viabilizar. Não faz sentido”, comenta. No fundo, ele acredita que o esmagamento só será um diferencial importante enquanto o biodiesel continuar dependente da soja. É por isso que a Biopar tem apostado bastante em oleaginosas alternativas, especialmente a canola. “Estamos começando a crescer nisso. Vamos implantar um programa de plantio de canola com agricultores familiares do sudoeste do Paraná”, adianta.

Nesse meio tempo, Tomazella decidiu contornar a falta de esmagamento através de parcerias comerciais. “Temos conversado com empresas que poderiam fazer o esmagamento em parceria. Eu ficaria com o óleo e, de quebra, eles venderiam o farelo, que é algo que eu não quero assumir”, resume.

Como aponta Carlos Omar Polastri, da Cesbra, os altos preços de entrada não são a única pedra no caminho entre biodiesel e esmagamento. “As usinas integradas podem baixar os preços do biodiesel por terem o próprio óleo, mas essa é uma estratégia que tem seus limites. Afinal, o objetivo de um negócio de esmagamento é gerar lucro, e não ficar subsidiando biodiesel”, pondera.


Questão regional

Ter ou não esmagamento não é a único fator a considerar na hora de julgar a viabilidade financeira das pequenas e médias usinas. A questão logística também é essencial, e não são poucos os empresários que dizem que poderiam ser tão ou mais competitivos do que as grandes usinas caso o sistema de leilões não colocasse todos no mesmo balaio.

“As grandes dizem que são mais competitivas por causa dos custos fixos. Mesmo que eles consigam ter um custo três ou quatro centavos mais baixos do que o meu, será que isso vai fazer frente aos custos de frete para trazer biodiesel lá do sul para Estados como o Amapá?”, questiona o diretor-presidente da Biotins, Eduardo Bundyra. Localizada em Paraíso do Tocantins (TO), a Biotins tem capacidade para produzir pouco mais de 29 milhões de litros ao ano, o que a coloca entre as pequenas.

Para Bundyra, “um belo dia a negociação direta vai chegar e as demandas não vão ser mais todas redondinhas como acontece sob a proteção do sistema de leilões”, o que deve dar uma bela mexida no tabuleiro e beneficiar usinas menores que tenham vantagens na hora de atender mercados regionais importantes. “Nosso plano sempre foi crescer nos mercados regionais”, prossegue, garantindo que os resultados dos releilões mostram que a disputa em diversas praças da Região Norte fica entre a Biotins e a unidade em Porto Nacional (TO) da Brasil Ecodiesel. “Temos vantagem no frete para o Amapá e para o Maranhão”, garante.

Podem não ser mercados tão vistosos quanto os do Sul Maravilha, mas são grandes o bastante para pagar as contas de usinas do porte da Biotins e têm apresentado bons índices de crescimento nos últimos tempos. Regionalizar a produção também ajuda a evitar que se queime muito combustível para produzir e distribuir combustível. “Isso daria mais eficiência ao setor no longo prazo”, arremata o diretor da Biotins.

Outros projetos na área partem da mesma premissa. Instalada em Ji-Paraná (RO), a Amazonbio, por exemplo, tem um modelo denegócios desenhado em função dos espaços amplos e inóspitos da região amazônica. “Necessitamos de diversas usinas de médio porte para viabilizar nossa estratégia logística, integrando originação sustentável da matéria-prima, eficiência da produção e logística”, explica Mauro Tozzi, da Brasil Biofuels, empresa que controla a usina desde junho de 2009.

Nessa dinâmica, o futuro de uma pequena ou média usina está muito ligado ao consumo de diesel na região no entorno da unidade, a real capacidade das usinas que atendem este mercado e o nível de verticalização e originação da matéria-prima.


Sobrevida

Como os leilões da ANP são decididos pelo preço mais baixo, a vantagem fica com as grandes. Há quem reclame, por exemplo, de que a forma como os itens são divididos protege os maiores. “Os lotes maiores são os que vendem melhor pelo fato de ter menos gente brigando. Eu não consigo ver isonomia nisso”, critica Bundyra, explicando que isso está provocando um movimento de predação.

A ideia de que o PNPB tem esnobado os pequenos anda ganhando tração, especialmente no Mato Grosso, que concentra 21 das 30 usinas pequenas. Por e-mail, o Sindicato das Indústrias de Biodiesel no Estado do Mato Grosso (SindiBio/ MT) declara: “O PNPB não tem incentivado em nenhum ponto as usinas de médio e pequeno porte”. E, oportunamente, lembra que as pequenas geram mais empregos do que as maiores.

Por enquanto, o sindicato diz que não tem nenhuma proposta, mas já existem conversas internas sobre a viabilidade de destinar uma fatia dos leilões para os pequenos. O gerente administrativo da Cooperativa Mista Sapezalense (Coomisa), Marcelo Rodrigues Machado, confirma que os produtores matogrossenses têm falado no assunto. Segundo ele, não se trata de uma ação de autodefesa comercial, mas de preocupação com os aspectos sociais do programa de biodiesel. “Se você não viabilizar as pequenas, você também não viabiliza projetos de agregação de valor que localidades carentes precisam”, finaliza.

A questão é se as pequenas e médias vão sobreviver às turbulências que andam se insinuando, e se um novo marco regulatório que aumente a mistura de biodiesel vai chegar a tempo de dar uma sobrevida a estas empresas.