BASF
016

Política energética: Pré-sal x biomassa


BiodieselBR.com - 05 jun 2010 - 09:40 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:37
Roberto Tenório, de São Paulo

A crescente euforia política em torno das regras para partilha ou concessão da exploração do petróleo na camada pré-sal ofuscou as preocupações climáticas e tornou um pouco mais incerto os rumos da política energética nacional. De forma tímida, o Brasil buscou inserir os biocombustíveis nos debates da Convenção Climática de Copenhague (COP- 15), realizada no ano passado na Dinamarca. Lula disse que a meta é cortar de 36% a 39% das emissões de gases causadores do efeito estufa até 2020, mas não deixou claro como isso será atingido.

O resultado da convenção foi muito abaixo do esperado. Líderes mundiais ignoraram que estamos diante de uma mudança de paradigma, em que as energias renováveis substituirão progressivamente o petróleo. Nesse contexto, não são poucos os que apontam o Brasil como protagonista dessa mudança. Considerado referência mundial no desenvolvimento de energia limpa, o país enfrenta seu primeiro grande dilema no setor de energia em meio aos esforços globais para redução no uso dos combustíveis fósseis: devemos explorar a riqueza da superfície ou a das profundezas do oceano?

O consenso entre especialistas é de que a política energética provavelmente caminhará rumo à integração entre as fontes derivadas do petróleo e da biomassa. “Os biocombustíveis têm importância estratégica para o Brasil no século 21. O país terá oportunidade de se desenvolver com base no uso moderno de seus recursos naturais: solo, água, biodiversidade, florestas, minérios, inclusive petróleo. O desafio está em conceber um programa de longo prazo, que ultrapasse a duração das administrações governamentais, e que vise ao desenvolvimento cientifico e tecnológico voltado para o uso racional dos recursos naturais dos pontos de vista econômico, social e ambiental”, avaliou Geraldo Sant’Ana de Camargo Barros, coordenador científico do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e professor titular da Universidade de São Paulo (USP).

Ele acrescentou ainda que o desafio será otimizar a exploração do petróleo no período que lhe resta como alternativa economicamente viável e ambientalmente tolerável, e que seus recursos devem ser usados para desenvolver o conhecimento científico e tecnológico para o uso eficiente de fontes de energia limpa, sempre observando as metas de segurança alimentar.

Neste último quesito, o Brasil é um dos poucos países, se não o único, que possui potencial técnico e físico para produção conjunta de duas valiosas commodities: energia e comida. Décio Gazzoni, engenheiro agrônomo e membro do Painel Científico Internacional de Energia Renovável, afirma que é perfeitamente possível extrair do solo brasileiro, por meio da agricultura, o mesmo potencial energético que o do petróleo da camada pré-sal.

Em artigo publicado no portal BiodieselBR.com, intitulado “O Tesouro da Superfície”, o pesquisador tomou como base de cálculo um potencial de extração de 90 bilhões de barris do pré-sal, número considerado alto, uma vez que especialistas o avaliam entre 40 e 50 bilhões de barris. Ele diz que seriam necessários 50 anos para extrair todo esse petróleo, o que começará a ser feito a partir do próximo ano em escala reduzida. Por causa dos altos investimentos em equipamentos, o auge da extração diária do combustível fóssil seria atingido apenas em 2020, com 2 milhões de barris por dia, segundo projeção apresentada durante o lançamento dos marcos regulatórios.

No entanto, com a exploração da biomassa, essa quantidade de barris poderia ser alcançada no primeiro ano. No primeiro exercício comparativo, Gazzoni utiliza a cana-de-açúcar como matriz energética. Ele prevê que a área necessária no primeiro ano seria de 7,26 milhões de hectares, e no ano de 2051, quando as reservas do pré-sal devem se esgotar, o país precisaria cultivar 10,6 milhões de hectares de cana. A energia obtida dessa área equivaleria a extrair 2 milhões de barris por dia, ou seja, a mesma quantidade que seria obtida no auge da extração de petróleo no pré-sal. Toda essa cana-de-açúcar não viraria somente o velho e conhecido etanol, mas também poderia se transformar em diesel renovável. “Já existe tecnologia em fase pré-industrial que utiliza microorganismos transgênicos para transformar a sacarose em hidrocarbonetos lineares, semelhantes ao diesel fóssil, e que podem ser misturados nos motores sem nenhum ajuste mecânico”, observa Gazzoni.

O segundo comparativo do estudo avalia o mesmo potencial energético do pré-sal dividido entre cana-de-açúcar e dendê. Inicialmente, a área de cana necessária seria de 3,6 milhões de hectares no primeiro ano e 5,3 milhões de hectares no ano de 2051. Na cultura do dendê, para extrair os outros 50% de energia, seriam utilizados 9,5 milhões de hectares inicialmente e 15,6 milhões de hectares no final do período. Em termos comparativos, 10 milhões de hectares de dendê é o que o governo federal estima para o programa de expansão do cultivo na Amazônia utilizando somente áreas já degradadas da floresta. “Em 2051, quando a demanda por energia será maior, utilizaremos 21 milhões de hectares no total [com cana e dendê], o que significa, aproximadamente, a área cultivada atualmente com soja no Brasil, ou meros 2,47% do território nacional”, compara Gazzoni.

O pesquisador acrescenta que todo esse espaço necessário poderia ser encontrado tranqüilamente nas áreas de pastagens. Estima-se que, do total de 170 milhões de hectares de pastagens do Brasil, cerca de 25% estejam em estágio avançado de degradação, com baixa eficiência produtiva.