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O problema da qualidade da glicerina


BiodieselBR.com - 05 jun 2010 - 09:40 - Última atualização em: 19 dez 2011 - 17:07
O problema da qualidade
Rodrigues tem feito sua parte para tentar poupar os rios de mais essa agressão. Ele foi o coordenador de um projeto de pesquisa que levou ao desenvolvimento de um novo processo de purificação que pode abrir as portas de certos mercados, por enquanto fechadas à glicerina do biodiesel.

Um dos problemas da glicerina gerada com o biodiesel é que ela sai das usinas tão contaminada que, se não passar por um meticuloso processo de purificação, torna-se praticamente imprestável para boa parte dos seus grandes consumidores. As indústrias farmacêutica, de cosméticos e de alimentos estão entre as que mais usam a substância como matéria-prima, mas, por razões óbvias, nenhuma delas pode usar glicerina de qualidade inferior. “A glicerina que sai da reação de transesterificação tem um monte de impurezas. Ela tem muita água, concentrações de sal muito altas, traços de catalisadores, de metanol e de biodiesel”, resume Rodrigues. Mas dependendo da tecnologia empregada pela usina, esses fatores podem ser minimizados.

Não é tarefa simples se orientar dentro do universo dos padrões de qualidade da glicerina. O número mais importante na hora de separar o joio do trigo é a porcentagem de glicerol em sua massa total: a glicerina bruta pode ter praticamente qualquer teor de glicerol, sendo que graus de pureza abaixo dos 30% são bastante comuns; acima disso vem a glicerina loura, com teores de pureza na faixa dos 80%; no topo está a glicerina de grau farmacêutico, com 99,5% de glicerol. Evidente que quanto mais pura, melhor seu preço de mercado. Segundo cotação da UniAmerica, na primeira semana de março, a bidestilada de grau farmacêutico podia ser vendida por até R$ 1.700 a tonelada.

As usinas costumam fazer um primeiro tratamento da glicerina que sai diretamente da linha de produção de biodiesel, a bruta, para tentar recuperar o máximo que puderem do metanol. No final, acabam com glicerina loura nas mãos, mas o mercado remunera tão mal esse produto que o empresariado não tem mostrado muito entusiasmo. É o caso do diretor superintendente da BSBios, Erasmo Carlos Battistella. “Não estamos gastando nem esforço e nem dinheiro com a glicerina. Temos outras prioridades”, admite.

O representante de uma companhia do setor, que prefere não se identificar, reconhece que a falta de projetos consistentes tem levado os empresários a apelar para medidas extremas. “A gente acumula glicerina e tenta vender enquanto dá. Acontece que uma hora você fica sem espaço, e aí você simplesmente doa o material. É o que a gente tem feito, e 100% do mercado tem feito o mesmo”, reconhece. Para ele, o setor como um todo ainda está ocupado demais em conseguir fazer o programa de biodiesel funcionar.

O gerente administrativo da mato-grossense Fiagril, Francisco Flores, admite que os tanques destinados à glicerina, com capacidade para 600 toneladas em geral, não bastam para acumular o material, sendo preciso usar outros tanques quando eles vêem “a coisa apertar”. “Teve época em que chegamos a ter 5 mil toneladas de glicerina aqui dentro. Tivemos que usar o tanque de sebo”, comenta.

Purificação
Não ajuda nada o fato dos processos de purificação, que poderiam contribuir para que a glicerina do biodiesel alcançasse preços mais atraentes, serem particularmente caros. O elevado ponto de ebulição (290ºC) e viscosidade da glicerina exigem um tipo de destilação sob baixa pressão que não é lá muito econômico do ponto de vista do consumo de energia.

O processo de purificação da glicerina desenvolvido por Rogério Rodrigues tenta resolver essa dificuldade quimicamente. Primeiro a glicerina é misturada com um solvente para ser transformada num intermediário cíclico, o que promove a precipitação de boa parte das impurezas; então ela passa por uma hidrólise que faz a glicerina ir para um lado e o solvente para o outro. “A gente consegue remover as impurezas sem destilação, o que implica ganho energético. Além disso, toda a matéria-prima é recuperada no final. Com isso a gente consegue ser mais competitivo”, explica Rodrigues.

De tão promissor, o processo acabou chamando a atenção da Companhia Petroquímica do Nordeste (Copenor), empresa instalada no Pólo Petroquímico de Camaçari, na Bahia. A empresa está investindo US$ 10 milhões numa primeira unidade de purificação com capacidade de processamento de 20 mil toneladas de glicerina ao ano. Ela está prevista para entrar em funcionamento até o final deste ano.
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