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Futuro dos combustíveis para os carros de passeio


BiodieselBR.com - 19 fev 2007 - 15:03 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 10:53
Carros de passeio
No mundo dos carros de passeio, a gama de combustíveis que aparecem como possíveis substitutos do petróleo são bastante diferentes. No Brasil, nem é preciso dizer qual é a alternativa mais avançada. Desde os anos 1970, com o Proálcool, o país vem apostando alto no etanol. E o advento dos carros flex, que hoje tomam conta do mercado, mostra que a aposta estava certa.

“Até hoje, o Brasil é o único grande país onde boa parte dos carros de passeio já funciona a álcool. E isso é uma realidade agora porque a implementação do programa começou 30 anos atrás”, afirma Horst Bergmann. As três décadas de investimento levaram o Brasil a ser hoje um raro caso de país que tem 45% de sua energia extraída de fontes renováveis (a média mundial é de apenas 14%). E entre os combustíveis de veículos, 26,2% já eram renováveis no país em 2008, segundo o Ministério da Ciência e Tecnologia.

Apesar disso, ainda não há perspectivas de que o etanol de cana-de-açúcar possa ser usado em grande escala em veículos pesados. Grandes montadoras, como a Ford e a Fiat, realizam ou já realizaram testes do gênero, mas ainda não se tem qualquer previsão de uso comercial. Fora do Brasil, outras duas alternativas também estão muito presentes, e ganham cada vez mais força: o carro elétrico e o carro movido a hidrogênio. Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que se trata de fontes que ainda apresentam muito mais problemas a resolver do que o etanol. Mas ambas caminham a passos largos para dominar mercados internacionais.

A idéia do carro elétrico não é nova. Na verdade, nos anos 1990, a GM chegou a colocar carros inteiramente elétricos na Califórnia. No entanto, além dos próprios problemas da tecnologia (o principal deles, a baixa autonomia), o carro elétrico enfrentou uma série de lobbies da indústria do petróleo. Como resultado, a montadora, que havia colocado os carros apenas para leasing, não deu opção de compra a nenhum de seus clientes. Ao final do contrato, recolheu os automóveis e os destruiu.

De lá para cá, muita coisa mudou. O petróleo está uma década mais perto de acabar e as emissões de poluentes – até mesmo devido a protocolos internacionais ligados à área do meio ambiente – precisam baixar rapidamente. Nesse contexto, o carro elétrico ressurge com força.

Hoje, na Ásia, a Toyota tem como um de seus principais produtos o Prius, um carro híbrido que funciona tanto com combustíveis tradicionais quanto com energia elétrica. Os híbridos ajudam a resolver um dos principais problemas da bateria elétrica. Embora já tenha melhorado sua capacidade de autonomia, o carro elétrico ainda não vai muito longe. No Brasil, por exemplo, especialistas apostam que o carro elétrico poderá ser uma solução essencialmente urbana. “As longas distâncias do país tornam a alternativa proibitiva para caminhões ou ônibus de viagens”, diz Bergmann.

E os elétricos, é preciso dizer, também não representam a solução de todos os problemas ambientais. É lógico que se trata de um motor limpo, que não tem nem base de comparação com um motor a combustão interna movido a combustíveis fósseis. Mas o problema vem antes de a energia chegar ao motor.

“O que está por trás da tomada?”, pergunta Gilberto Pose, da Shell. “Hoje, você tem algumas alternativas para fazer energia elétrica: hidráulica, que causa alagamentos; atômica, que tem sérios riscos ambientais; e termoelétrica, que tem emissão de poluentes. Não existe mágica”. A solução ideal, nesse caso, seriam fontes limpas também de obtenção de energia. A hidrelétrica é ainda uma das melhores saídas. Melhores ainda seriam a eólica e a solar, mas há ainda questões não resolvidas, como o alto custo.

Já o carro a hidrogênio apresenta outras questões. Novamente, trata-se de um combustível considerado limpo. Mas, assim como no carro elétrico, há dúvidas sobre o aspecto ambiental. “Como obter o hidrogênio?”, pergunta Christian Wahnfried. “A hidrólise da água é uma idéia, mas as pesquisas ainda estão no início. Então dá para pensar em pegar aquilo que se tem na mão. Tirar o hidrogênio do metano (CH4). Só que o carbono, nesse caso, vai para a atmosfera”, adverte.

Outro ponto contra o carro a hidrogênio está no preço. Pouco tempo atrás, especulava-se que um carro com essa tecnologia não sairia da fábrica por menos de US$ 1 milhão. É claro que isso tornaria a idéia absolutamente inviável. Os pesquisadores acreditam, porém, que as pesquisas para baratear a tecnologia e a sua própria produção em massa podem fazer com que esse preço baixe o suficiente para tornar viável a comercialização.

Cenário
E quais as tecnologias que irão despontar no século 21? Na busca dessa resposta, Décio Gazzoni, membro do Painel Científico Internacional de Energia Renovável, vinculado à Academia Internacional de Ciências, realizou um estudo prospectivo identificando as 12 tecnologias para geração de energias renováveis nos transportes mais cotadas para este século (veja box). O estudo analisou os avanços em motores de combustão, os novos biocombustíveis, a eletrificação dos transportes e outras tecnologias, traçando um quadro muito otimista dos novos desenvolvimentos.

De acordo com Gazzoni, há uma janela de oportunidades para o setor de biocombustíveis até o meio do século. Porém, a tendência é que os biocombustíveis sejam substituídos daí em diante pelo hidrogênio e pela captura direta de energia solar e eólica (veja gráfico). “Tecnologias chegarão como protagonistas e desaparecerão em pouco tempo, substituídas por outras mais eficientes sob os aspectos energético, econômico, ambiental e social”, diz Gazzoni em seu artigo.

O fato é que o petróleo está acabando, o aquecimento global já é palpável e o mundo precisa de fontes de energia mais limpas, baratas e renováveis. Os bilhões de dólares investidos nos últimos anos em fontes renováveis deverão trazer algumas respostas para essa equação.

Evidente que a solução não passa somente pelas mãos dos pesquisadores, mas dos governos e formuladores de políticas públicas, que necessitam aprofundar mais a análise dessas novas tecnologias para convergir esforços e evitar tomar caminhos equivocados.