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Brasil Ecodiesel: Sobras e localização


BiodieselBR.com - 22 dez 2007 - 14:52 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:00
Sobras
Mas os anos de turbulência deixaram seqüelas que ainda podem jogar a Brasil Ecodiesel novamente na tormenta. Desde 2008, o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) vem passando um pente fino sobre as compras de oleaginosas da companhia em 2007. Suspeita-se que ela não tenha comprado o que deveria da agricultura familiar e é possível que isso leve à perda do selo Combustível Social. Embora não adiante o resultado, o coordenador do PNPB pelo ministério, Arnoldo de Campos, garante que essa é uma novela que “está para terminar”. “O tamanho e a capilaridade da empresa fizeram com que a gente tivesse muita dificuldade em fazer esse levantamento. Além disso, a empresa entrou com recursos judiciais que atrasaram nosso trabalho”, justifica o coordenador, garantindo que o resultado sairia em novembro. No entanto, até o fechamento desta edição nada foi divulgado.

Se o pior acontecer, a empresa ficará de fora do maior lote do leilão de biodiesel, reservado às empresas detentoras do selo. Apesar do péssimo momento para uma decisão dessas, pelo menos a empresa não vai mais precisar amargar os seis meses de resguardo que antes eram exigidos de quem perdia a certificação. “Ela pode recuperar o selo imediatamente, só vai depender de ela apresentar a documentação comprovando que corrigiu qualquer desconformidade”, tranqüiliza Campos.

Há também uma querela envolvendo a Petrobras. Em julho de 2008, a Brasil Ecodiesel resolveu levar a estatal aos tribunais sob a acusação de quebra de contrato. Segundo informações repassadas pela direção de RI da Brasil Ecodiesel, a alegação é que entre fevereiro e março de 2008 a Petrobras deixou de retirar os volumes de biodiesel nas unidades produtivas e, com isso, não apenas teria incorrido em multas contratuais no valor de R$12 milhões como também tornado nulas as multas que a Brasil Ecodiesel deveria pagar pela não-entrega de biodiesel em meses subseqüentes.

Já o persistente boato de que a Brasil Ecodiesel estaria se preparando para uma eventual venda, Mauro Cerchiari nega veementemente. “Não vejo nenhuma tendência nesse sentido”, diz. Muito pelo contrário. Durante a apresentação dos resultados do terceiro trimestre, o que transpareceu é que a companhia se vê como uma das consolidadoras do mercado brasileiro de biodiesel.

Localização
Para se tornar uma das consolidadoras, a empresa terá que lidar com o problema da localização e competitividade de suas usinas. Quando o mercado abandonar o modelo dos leilões e a livre concorrência prevalecer, vai vender biodiesel quem conseguir entregá-lo nas distribuidoras pelo menor preço. Nesse momento, a localização das usinas será fundamental para reduzir os custos de logística. No entanto, as usinas estão longe da produção de soja, principal matéria- prima atualmente e que deve reinar ainda por muitos anos. Até mesmo a usina do Rio Grande Sul está mais distante da produção e do consumo que suas concorrentes regionais. Levar esse óleo, ou o grão para ser esmagado, tem um custo proporcional à distância da produção. Contudo, esse custo pode ser reduzido ou anulado se a usina estiver próxima ao consumo. Mas no Rio Grande do Sul essa vantagem não existe. Rosário do Sul fica no sudoeste do Estado, uma das regiões mais pobres, com menor consumo de diesel e mais distantes da produção de grãos.

No Nordeste, as usinas estão longe da soja, mas quase sozinhas na região. Isso seria muito bom para a empresa, se não fosse a Petrobras a principal concorrente no mercado nordestino. As duas usinas da Petrobras na região têm capacidade de suprir 217 milhões de litros de biodiesel e o consumo de B5 em 2010 será de pouco mais de 360 milhões de litros. Ou seja, a Petrobras pode tomar até 60% do mercado do Nordeste com sua capacidade atual. E a situação pode se complicar ainda mais com o funcionamento comercial da usina da Petrobras de Guamaré, no Rio Grande do Norte. Sobrariam para a Ecodiesel cerca de 143 milhões de litros para serem divididos entre suas quatro usinas, que têm capacidade de 464 milhões de litros por ano. Uma ocupação pequena, que não interessa a nenhum gestor de indústria.

O sucesso da empresa no longo prazo depende muito de como será o novo plano estratégico da empresa. Seus custos de produção e logísticos são maiores que os de suas principais concorrentes, o que torna sua situação complicada em um mercado de livre concorrência. O grande desafio é transformar uma empresa que foi moldada para trabalhar com a agricultura familiar e que possui usinas distantes da produção de soja em uma companhia que se encaixe no modelo dominante do setor: o da integração com as esmagadoras de soja.
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