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Martin Mittelbach: Pesquisa e tendências


BiodieselBR.com - 12 nov 2007 - 11:43 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:21
Revista BiodieselBR O senhor tem se dedicado há quase 30 anos ao estudo do biodiesel. Como o senhor avalia a evolução no campo da pesquisa nessas últimas três décadas?
Martin Mittelbach É interessante que o número de estudos científicos sobre biodiesel cresceu enormemente nas últimas décadas, mas não há nenhuma grande reviravolta em relação ao desenvolvimento inicial do combustível. O processo tecnológico básico é quase o mesmo em aplicações industriais e as matérias-primas utilizadas hoje também são praticamente as mesmas. Ainda assim, tivemos várias inovações interessantes nos últimos anos, que ainda precisam ser testadas na prática, como a transesterificação supercrítica, a transesterificação enzimática e o desenvolvimento de catalisadores heterogêneos.

Em que setor houve os maiores avanços?
Martin Mittelbach Os maiores avanços foram na área de qualidade. As especificações européias para qualidadedo biodiesel, bastante severas, foram adotadas ou ligeiramente modificadas em quase todos os países do mundo, o que levou a uma grande melhora na qualidade em relação aos primeiros estágios de produção. Isso também proporcionou uma larga aceitação por parte dos fabricantes de motores e da indústria de combustíveis e tornou possível o uso do biodiesel, principalmente na forma de misturas, do B2 ao B20. Vários novos métodos analíticos foram desenvolvidos para melhorar a qualidade do combustível e garantir um bom desempenho no mercado.

Quais são as novas tendências para este mercado?
Martin Mittelbach
As novas tendências são observadas em várias áreas. Existe a necessidade de se encontrar matérias-primas que não sejam usadas para alimentação, como óleo de fritura usado, resíduos de gordura animal, filtrado de caixas de gordura e óleos microbianos; da mesma forma, precisamos de sementes não alimentícias, como o pinhão-manso, a mamona etc. Quanto a processos tecnológicos, temos novos catalisadores recicláveis, como enzimas ou catalisadores inorgânicos heterogêneos; transesterificação sob condição supercrítica sem a utilização de catalisadores; novos métodos de purificação do biodiesel que economizam água no processo de lavagem (“lavagema seco”); lavagem com tecnologia de membranas ou o uso de adsorventes; e destilação do produto final. Em relação ao uso da rota metílica ou etílica, pela necessidade de se melhorar o balanço de gases de efeito estufa, o uso do etanol, em vez do metanol, pode ser uma solução apropriada. Já quanto ao uso de misturas ou biodiesel puro, a tendência observada é, cada vez mais, a preferência pela utilização de misturas. Isso acontece devido ao receio dos fabricantes de motores de que com o B100 só sejam dadas garantias para tratores, e não para carros de passeio. Além disso, a instabilidade dos preços do petróleo e dos óleos vegetais atrapalha o uso mais amplo do biodiesel puro. Restrições legais para o uso de derivados do petróleo em áreas sensíveis, como no transporte aquático e em regiões onde pode haver contaminação de lençóis freáticos, podem ajudar a incentivar a utilização do B100.

Como está o balanço energético e o ciclo de vida do biodiesel na Europa?
Martin Mittelbach
Em todos os estudos de biodiesel, o balanço energético pode ser considerado positivo, com a relação entre energia consumida e energia gerada ficando entre 1:1,5 e 1:1,7, dependendo da matéria-prima, método de produção e do uso de coprodutos.

Em 2008, nenhum país europeu esteve entre as quatro nações que mais depositaram patentes na área de biodiesel. O Brasil ficou em quarto lugar, à frente da Alemanha, maior produtor mundial de biodiesel. A que o senhor atribui isso?
Martin Mittelbach
A Europa sempre esteve à frente nas pesquisas e no uso do biodiesel, de forma que a maior parte de suas patentes foi depositada no passado. O ritmo de patentes na Europa diminuiu porque a produção e o uso do biodiesel estão bem estabelecidos por lá. Para tal comparação, também é muito importante observar se determinada patente é inteiramente nova ou apenas um pedido de patente para determinado país baseado em outra patente já concedida.

Como o senhor vê as pesquisas de biodiesel no Brasil? Os pesquisadores brasileiros estão em nível de igualdade com pesquisadores americanos ou europeus?
Martin Mittelbach
Eu diria que os pesquisadores brasileiros, hoje, estão no mesmo nível dos europeus e americanos. O know-how brasileiro na implementação e no uso do bioetanol deu um impulso considerável às pesquisas de biodiesel. O grande número de matérias-primas disponíveis também estimula a pesquisa.