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Crambe: formação da cadeia e falta de chuva


BiodieselBR.com - 25 nov 2007 - 15:14 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:15
Falta de chuva
A seca em Goiás prejudicou quem plantou cedo, em meados de abril. Como a chuva demorou para chegar, as lavouras não tiveram uma boa germinação. Foi o caso dos produtores do município de Jataí (GO), um dos pioneiros no cultivo do crambe. Eles plantaram pela primeira vez em 2008, em uma área de 500 hectares, e ficaram animados com o rendimento: 20 a 30 sacas por hectare. A idéia era ocupar este ano uma área de 20 mil hectares, mas acabaram reduzindo para um quinto do planejado. Eles não tiveram a mesma sorte que no ano passado e o rendimento médio caiu praticamente pela metade: foram colhidas 15 sacas/ha. “O clima não ajudou muito, faltou chuva”, diz Claudio Doncini, proprietário da Jataí Biodiesel. Mesmo assim, eles continuam apostando na cultura e pretendem expandir a área plantada no ano que vem para 10 mil hectares.

Já em Mato Grosso do Sul, o clima não prejudicou as lavouras. Ernest Ferter, produtor da região de Itaum, próximo a Dourados, está colhendo sua segunda safra de crambe. Ele plantou em abril em uma área de 630 hectares e concluiu a colheita em meados de agosto. “Este ano o crambe está indo muito bem, acredito que haverá uma produtividade acima de 1.500 quilos por hectare”, diz.

Ferter possui esmagadora de grãos e chegou a produzir biodiesel de forma experimental. Porém, o destino da produção não será esse. Ferter vai vender o óleo para indústrias de tintas, que pagam melhor pelo produto. O óleo de crambe possui bom valor comercial por ser rico em ácido erúcico, que compõe 57% do produto. “Ainda não compensa produzir biodiesel, pois estamos comprando óleo diesel abaixo de R$ 1,80”. Ele, porém, não descarta futuramente produzir o biocombustível para consumo próprio.

Com o bom rendimento desta safra, o produtor pretende aumentar a área plantada para até 3 mil hectares e desenvolver um fomento na região. Mas para isso ele quer ter contrato de compra da produção, com garantia de preço.

Ferter conta que no ano passado o rendimento de sua lavoura de crambe foi fraco, com produção de 900 quilos por hectare. “A gente não tinha muita experiência. Apesar de ser uma cultura rústica, o crambe é exigente quanto à qualidade de solo. Não responde tanto à adubação e sim à fertilidade da terra”, diz. Segundo ele, uma das principais preocupações é garantir que a germinação aconteça de maneira uniforme. “A terra precisa estar seca no plantio e se chover 20 milímetros é o suficiente”, diz. Ele alerta que é preciso atenção com a época certa de plantio, porque o crambe é suscetível à debulha de grão, o que dá muita perda de produção na hora da colheita.

Na opinião do produtor, o grande potencial do crambe está na ocupação das áreas ociosas da agricultura. Ele diz que depois do milho safrinha, praticamente não existe outra opção de cultivo. “E é aí que entra o crambe”.

Formação da cadeia
A organização da cadeia produtiva tem sido um dos pré-requisitos para viabilizar o avanço da cultura. Segundo Dirceu Luiz Broch, da FMS, a entidade está divulgando o crambe somente nas regiões onde a cadeia está formada, ou seja, onde há uma indústria na ponta garantindo a compra da produção. A entidade está entrando em contato com empresas da região e já iniciou negociação com a unidade industrial da Granol, em Oswaldo Cruz (SP). Há expectativas de que a multinacional Glencore, ao assumir o controle da Agrenco, retome a produção de biodiesel, abrindo uma oportunidade na região. “Para que o crambe cresça é necessário que as indústrias comprem a produção”, ressalta Broch. Ele acredita que no curto prazo a cadeia estará mais organizada, permitindo que o crambe se torne uma opção de cultivo para a entressafra do Centro-Oeste. “Temos tecnologia, agricultores interessados e solo disponível para a safrinha”, diz.

Mesmo com todo esse potencial enumerado pelo diretor, enquanto não houver a garantia de compra da produção e de preços, o avanço em área cultivada será tímido para a próxima safra. “Alguns produtores plantaram por conta própria em 2008, quando a Jataí Ecodiesel anunciou que compraria a produção. Como tiveram boa produção no ano passado, alguns expandiram a área, mas daqui por diante a tendência será de cautela”, opina Depiné, da Caramuru.

O diretor da FMS é mais otimista. A entidade calcula que no ano que vem serão fomentados 15 mil hectares. “A avaliação que a gente faz é que o crambe tem potencial comercial e a tendência é de aumento da área de plantio onde houver empresas que comprem a produção”.

Quem faz a conta não duvida do potencial da cultura. Se forem utilizadas as áreas agrícolas que normalmente ficam ociosas no período de março a outubro em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Goiás – regiões mais apropriadas para a cultura –, haveria produção de óleo suficiente para atender nada mais nada menos que toda a demanda do B4, com 1,86 bilhão de litros de biodiesel por ano (partindo de um rendimento médio de 1.500 quilos por hectare).

À medida que a cadeia for organizada, que as pesquisas mostrarem resultados na fase agrícola e também na utilização comercial da torta e do farelo, o crambe poderá se tornar uma alternativa à soja para o biodiesel no curto prazo, principalmente no Centro-Oeste. E tudo leva a crer que os próximos dois anos serão decisivos para a difusão da cultura no Brasil.
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