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Crambe: Pé no chão


BiodieselBR.com - 01 dez 2009 - 07:48 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:16
Graças ao ciclo curto do crambe, as pesquisas agrícolas se desenvolvem rapidamente. Ainda assim, a cultura avança com cautela no Centro-Oeste, de olho no longo prazo

Alice Duarte, de Curitiba

Produtores de Goiás ainda se recordam do entusiasmo que sentiram no ano passado quando inesperadamente conseguiram excelentes resultados com o plantio experimental de crambe. Mesmo com pouco conhecimento tecnológico, sem a aplicação das técnicas recomendadas e sem adubo, algumas lavouras do município de Jataí alcançaram rendimentos de até 2.100 quilos por hectare. O ano de 2009 prometia ser ainda melhor. Tanto é que muitos produtores não pensaram duas vezes na hora de aumentar a área plantada. Mas as condições climáticas na época de plantio e a falta de conhecimento técnico prejudicaram algumas lavouras. Agora, depois de contabilizar os resultados desta safra, os produtores estão tomando uma postura mais cautelosa para o ano que vem, enquanto paralelamente as pesquisas avançam e a cadeia produtiva é organizada. Quem está fomentando o crambe acredita que a partir do terceiro ano de cultivo já vão existir dados técnicos que possibilitem divulgar a cultura e iniciar a expansão em larga escala.

Os produtores do Centro-Oeste concluíram no final de agosto a colheita desta que foi oficialmente a segunda safra. A principal produção se concentrou no Estado de Goiás, em uma área de 6 mil hectares nos municípios de Itumbiara, Vicentinópolis, Rio Verde, Goiatuba, Santa Helena e Jataí. A cultura atraindo bastante interesse, pois apresenta baixo custo de produção e alto índice de produtividade. E por ser uma cultura precoce, se encaixa perfeitamente como opção para a safrinha. Assim, o produtor, especialmente o do Centro-Oeste, nas áreas onde se colhe soja ou milho nos meses de março e abril, e que normalmente plantava milheto apenas para cobertura, agora tem a opção de plantar crambe.

Outra boa notícia é que, justamente por ter ciclo muito curto, que dura de 70 a 90 dias do plantio à colheita, é que as pesquisas podem avançar muito mais rápido do que o seu “concorrente” pinhão-manso. Como é uma planta perene, a Jatropha curcas L. demanda vários anos de pesquisa até a sua domesticação; a Embrapa fala em até cinco anos para se obter a homogeneidade e estabilidade da cultura. E é nesse ponto que o crambe sai na frente, pois já existe uma cultivar no Brasil: é a FMS Brilhante, registrada em 2007 pela Fundação MS (FMS), de Maracaju (MS), que desde 1995 se dedica ao estudo da cultura.

Fomento
O cultivo este ano deixou de lado o experimentalismo e foi conduzido de forma mais profissional, com o apoio da iniciativa privada. A Caramuru Alimentos – uma das principais empresas processadoras de grãos de capital nacional e uma das maiores fabricantes de biodiesel – iniciou na safrinha deste ano o fomento do crambe em Goiás. Em parceria com a FMS, a empresa fomentou cerca de 30 produtores e fez contratos com preços pré-fixados com dez deles, que chegaram a produzir 950 toneladas. Ao final desta safra, a empresa comprou uma produção total de 1.640 toneladas de 41 produtores.

A Caramuru pretende processar os grãos em dezembro, em uma esmagadora com a tecnologia multiplantas, com capacidade de 500 toneladas por dia. “Temos que conhecer a tecnologia de extração. Nós já temos experiência com a canola e o grão do crambe é muito semelhante”, diz o diretor de Originação da empresa, Davi Eduardo Depiné. O óleo processado deve ser usado na produção de biodiesel, na usina localizada em São Simão (GO).

A produção é inexpressiva perto do que a empresa obtém com o fomento de outros grãos como milho, girassol e canola. A estratégia é introduzir o crambe devagar até que as pesquisas avancem. “O plantio aqui em Goiás está no início e começou de uma forma até errada. Alguns produtores não colheram este ano porque ainda se conhece pouco a cultura. Tivemos problemas com plantios tardios, solos compactados, espaçamentos etc.”, relata Depiné. Mesmo com a parceira da FMS para divulgar a tecnologia existente e com a realização de dias de campo, dos 65 produtores que plantaram o crambe, 24 não colheram este ano. Segundo o diretor, a tecnologia divulgada foi a conhecida para o Mato Grosso do Sul, “mas a realidade edafoclimática de Goiás é diferente”.

O engenheiro agrônomo Carlos Pitol, responsável pela Pesquisa e Difusão de Tecnologias Agropecuárias da FMS, diz que é necessário fazer alguns ajustes técnicos porque a região de Goiás é nova e não se tem todas as informações sobre o comportamento da cultivar nas condições ambientais e no solo da região.

Dirceu Luiz Broch, diretor executivo da FMS, diz que os produtores que não seguiram a recomendação (que primeiro plantaram milho, depois sorgo e só então o crambe, no pior solo ou na época não recomendada) colheram menos. “Mas aí é um erro técnico do produtor”, diz. “Quem seguiu as recomendações e plantou na época certa e no solo indicado teve um bom rendimento, com 1.000 a 1.300 quilos por hectare”.

A Caramuru quer ao menos três anos de pesquisas na região. Os produtores apoiados pela empresa estão indo agora para o segundo ano de cultivo. “Quando houver segurança vamos divulgar a tecnologia”, diz Depiné, informando que a empresa vai reduzir em 50% a área fomentada em 2010. Esse recuo é apenas estratégico. Visa justamente garantir a produção de crambe em larga escala, pois alcançando segurança no plantio para os produtores, o cultivo deverá trazer ótimos resultados, já que a planta não ganha rejeição entre os agricultores. A empresa ressalta que o crambe tem grande potencial para a produção de biodiesel como cultura de safrinha, principalmente por não ser alimento.

A empresa está agora selecionando produtores para o segundo ano de fomento e renovou o contrato com a FMS para o desenvolvimento de pesquisas. A fundação está buscando a importação de novas variedades da espécie para avançar no desenvolvimento de novas cultivares. “Estamos fazendo o segundo ano de ensaios de Valor de Cultivo e Uso (VCU) da cultivar para tornar o plantio legal aqui na região. Vamos fazer ensaios em várias regiões e épocas de plantio”, diz Depiné. Com o VCU, os produtores vão dispor de informações técnicas sobre o comportamento da cultivar FMS Brilhante nas condições de solo e clima de Goiás.
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