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Alysson Paulinelli: Apagão Tecnológico


BiodieselBR.com - 17 jun 2007 - 08:44 - Última atualização em: 20 jan 2012 - 11:48
Revista BiodieselBR Só depois de 30 anos o Proálcool conseguiu atingir sua maturidade política e econômica. Quais foram os principais erros e acertos do programa?

Alysson Paulinelli O programa foi uma proposta de alternativa aos combustíveis fósseis, pois havia uma angústia de que o petróleo ia acabar. O Brasil já produzia álcool na época, mas nós precisávamos ter uma produção maior para atender ao sistema de transporte brasileiro. É evidente que esse esforço foi feito com muito sacrifício, porque no início não havia tecnologia adequada. A tecnologia industrial ainda era muito incipiente e o projeto recebeu muitas críticas no início porque, na época, para produzir uma quilocaloria de álcool gastava-se uma quilocaloria de combustível fóssil, e produzir álcool era quase 30% mais caro que a gasolina. Foi um projeto de muita vontade política, mas por que nós suportamos isso? Porque nós tínhamos absoluta certeza de que esta equação mudaria, como de fato hoje mudou. Com uma quilocaloria, sem nem precisar mais usar combustível fóssil, estão produzindo entre 9 e 10 quilocalorias de álcool. Mesmo com o petróleo nesse nível que está aí, ele é competitivo. O que houve foi uma decisão política. O governo teve que ajudar com subsídio para poder impulsionar o sistema produtivo. O país chegou a ter mais de 80% de carros a álcool naquela época. Só que em seguida, depois do segundo choque do petróleo, a tecnologia que tínhamos no início não era suficiente para dar a competitividade necessária. Novas jazidas surgiram e o preço do petróleo barrou aquele ímpeto inicial do Brasil. Mas ficou a vontade de desenvolver técnica e cientificamente o processo e o país evoluiu muito nisso. A cana, que rendia uma média de 60 toneladas por hectare, foi para 80 toneladas, e existem usinas que estão acima disso. O processo industrial também deu um salto. O mais importante é que, com a terceira crise do petróleo, o Brasil já estava com um nível de capacidade produtiva excelente. O que ajudou muito, evidentemente, não foi só a pesquisa localizada no processo produtivo agrícola ou industrial, mas foi principalmente o carro flex.

Então a lição que ficou é que não há evolução da indústria sem o suporte adequado do governo no início?

Alysson Paulinelli
Sim. Eu acho que agora a tendência do mundo é de cair numa discussão mais séria sobre os biocombustíveis. É preciso colocar uma visão mais realista do que se pode fazer, deixar essa ideologização que foi feita em torno da ecologia e cair num sistema mais viável. O problema do biodiesel é que a equação ainda não está bem resolvida. Tecnologicamente ela ainda tem muito que evoluir.

Como o senhor compara as políticas públicas do Proálcool com o Programa de Biodiesel?

Alysson Paulinelli Falta vontade política. Fala-se tanto, mas não se faz objetivamente. Vou te dar um exemplo. Quando nós criamos a Embrapa, dois anos depois já havia 12 centros funcionando no Brasil; com cinco anos, havia 16 centros funcionando. Mandamos treinar 1.530 técnicos no exterior, fizemos todo um esforço porque houve uma decisão política. Eu vou ser franco, tem sete anos que eu estou ouvindo falar na construção do Centro Nacional de Pesquisa em Agroenergia. Está no papel até hoje, não funciona, e nós estamos perdendo um espaço fabuloso num país que detém o maior potencial de produção de óleo. É o país mais rico em palmáceas, que são reconhecidamente as maiores produtoras de óleo. O que nós estamos estudando? Tem meia dúzia de gatos pingados pesquisando, em um esforço próprio ou com o apoio das universidades. A Embrapa não conseguiu ainda entrar no ritmo que precisaria porque não houve vontade política. Como é que vai levar um investidor a produzir biodiesel? Se é preciso subsidiar, então vamos fazer isso logo. Ora, vamos entrar e fazer funcionar como foi feito naquela época com o álcool.