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Coluna Luiz Pereira: Quem paga o pato?


BiodieselBR - 06 nov 2007 - 13:06 - Última atualização em: 15 mar 2012 - 11:41
O mercado de biodiesel tem se expandido significativamente ao longo destes últimos anos, tanto no Brasil quanto no exterior, e suas perspectivas futuras estão cada vez mais alvissareiras, apesar das pressões internacionais baseadas em temas como segurança alimentar, políticas de proteção de mercado e sustentabilidade sócio-ambiental. E como parte deste processo, várias estratégias de marketing têm sido inseridas na dinâmica desse mercado, mediante campanhas promocionais de diferentes tipos. Nada contra essa importante atividade do setor produtivo, que aprendi a admirar pela criatividade e grande tirocínio de seus melhores profissionais.

No entanto, há circunstâncias em que políticas mais agressivas de marketing institucional causam certa confusão na sociedade moderna e isso tem afetado alguns conceitos importantes da área de biocombustíveis que, de acordo com o dito popular, acabam glorificados pelo uso. Como exemplo, temos a gasolina que virou sinônimo de gasool (ou gasolina contendo etanol anidro em sua composição), o biodiesel que virou sinônimo de B2, o óleo de mamona que se tornou matéria-prima para a produção de “biodiesel” e o fazer biodiesel, que se tornou tão simples a ponto de qualquer pessoa se sentir no direito de fazê-lo em sua própria casa.

Além disso, outras conseqüências da falta de exatidão científica nas declarações de muitas pessoas levaram à idéia errônea de que a combustão do biodiesel é totalmente isenta de poluentes, que derramamentos de biodiesel seriam totalmente inofensivos ao meio ambiente e que o uso de B2 já é capaz de gerar uma redução significativa no perfil de emissões de motores diesel. Nessa linha de pensamento, vale lembrar que um dos principais argumentos para a expansão do uso de biodiesel sempre esteve associado à perspectiva de que seu uso não exige alterações significativas no motor, caracterizando- o como bicombustível por natureza.

Atualmente, vários pesquisadores e usuários dos mais diversos níveis têm revelado que, preservada a qualidade do biocombustível já estabelecida na legislação pertinente, motores não modificados podem ser alimentados com misturas até o limite de B20, que pode ser ampliado para B100 mediante pequenos ajustes no projeto e na manutenção programada do motor. Trata-se, portanto, de um modelo bastante similar aos motores bicombustíveis do ciclo Otto que, graças a uma brilhante estratégia de marketing, se tornaram uma grande coqueluche do mercado.

Disse-me um grande amigo que os motores bicombustíveis do ciclo Otto representam a própria personificação do pato. Isto porque o pato, em sua inocência, é uma ave incapaz de voar ou de nadar com elegância, ou seja, incapaz de executar essas duas habilidades eficientemente. Nesta hora, como proprietário de um automóvel bicombustível, sinto uma saudade imensa daqueles motores a álcool que faziam pelo menos 9 km/L na cidade (deles, fui proprietário de pelo menos dois), já que o meu pato não passa dos 7 km/L em um motor 1.6 flexfuel. Portanto, convenhamos, pato mesmo é o pobre consumidor brasileiro que, por força das aparências, adquire o direito de opção pelo combustível mais barato (ou de maior sustentabilidade ambiental) sem se dar conta de que estará pagando alto pela decisão, já que a desempenho desses motores é clamorosamente inferior aos seus próprios precursores.

Em suma, percebe-se realmente que o marketing continua sendo uma das principais essências do capitalismo moderno e que o consumidor, por não estar bem informado sobre as conseqüências de suas opções, sempre acaba tendo que pagar o pato.

Por Luiz Pereira Ramos, professor do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutor pela Otawa-Carleton Instituto de Biologia da Universidade de Otawa, no Canadá.