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Armazenamento: Interferindo na qualidade


BiodieselBR - 06 nov 2007 - 12:28 - Última atualização em: 23 jan 2012 - 11:17

As propriedades físico-químicas nas misturas óleo diesel/biodiesel, sobretudo as mais diluídas – como a B3 - são similares às do óleo diesel. Portanto, os requisitos de movimentação e armazenamento são, basicamente, os mesmos. Já no caso do B100, os procedimentos de estocagem e transporte devem ser mais criteriosos, levando em conta suas características de elevada reatividade ao ar e de alta higroscopicidade (capacidade de absorver água).

Os dois principais inimigos do biodiesel, do ponto de vista de estocagem, destaca Cavalcanti, são a oxidação e o contato com água. Ele explica que, diferente do diesel fóssil – composto de hidrocarbonetos, que sofre um processo extremamente lento de oxidação –, o biodiesel tem como matéria-prima óleos vegetais, gordura animal ou resíduos graxos. Óleos vegetais, como os de soja, algodão e girassol, por exemplo, são dotados de cadeias carbônicas insaturadas (duplas ligações), suscetíveis à ação deteriorante do oxigênio. “A exemplo da manteiga, que rancifica à temperatura ambiente, o biodiesel oxida-se quando exposto ao ar”, compara.

Apesar dos óleos de diferentes matérias-primas terem, de forma geral, um comportamento semelhante, a soja – de onde se extrai o maior volume do biodiesel comercializado, hoje, no Brasil –, o algodão e o girassol têm uma tendência maior de insaturação do que o óleo de dendê e o sebo. Isso quer dizer que os dois últimos são, portanto, mais estáveis à oxidação. O dendê, como outras matériasprimas, tem na sua composição os tocoferóis, que são antioxidantes naturais.

Além do grau de insaturação das matérias-primas, há uma série de outros fatores intervenientes no processo de degradação ou envelhecimento do biodiesel. “Dependendo da natureza da matériaprima, do grau de insaturação de seus ésteres, da sua composição, da eficácia dos processos de lavagem, remoção de glicerina e de purificação do produto, o biodiesel tende a oxidar-se em maior ou menor grau”, observa Cavalcanti.

Interferindo na qualidade


Cavalcanti destaca que a oxidação ou rancificação oxidativa, como também é chamada, é o principal processo de degradação a que estão sujeitos os B100. “As conseqüências são danosas à qualidade do produto. A oxidação forma moléculas de hidroperóxidos, gerando ácidos que atacam metais, borrachas e elastômeros”, observa o pesquisador. Os processos de oxidação também tendem a alterar a massa específica (densidade), viscosidade e outras características físico-químicas relevantes do produto. “Foram observadas no mercado, após 60 dias de estocagem, alterações dessa natureza em biodieseis instáveis não devidamente fabricados ou aditivados”, afirma.

Outra conseqüência desagradável da oxidação é que ela também deflagra processos de polimerização - formação de gomas e sedimentos, que tendem a entupir filtros e bicos injetores. Esses produtos são capazes ainda de se converter, a altas temperaturas, em uma espécie de verniz aderente às superfícies internas do sistema de injeção dos veículos, dificultando a combustão. “Essa é uma das principais queixas dos fabricantes de sistemas de injeção”, comenta.

Por mais que estejam vedados, a tendência natural é o acúmulo de umidade no interior dos tanques de armazenamento de biodiesel. Cavalcanti esclarece que, quando exposto à umidade, o biodiesel tem uma capacidade maior de incorporar a água. Estudos conduzidos no CENPES revelam uma capacidade de absorção de água do biodiesel até 30 vezes mais elevada do que a do diesel mineral. “É recomendável um bom monitoramento do teor de água do biodiesel até o momento da sua formulação com o diesel”, adverte Cavalcanti.

O pesquisador explica ainda que a água livre, que decanta e vai para o fundo, pode induzir o aparecimento de um terceiro conjunto de problemas: a contaminação microbiana. Esta tem como desdobramentos: a incidência de processos de biocorrosão induzidos pela presença de bactérias e a geração de biodepósitos – leveduras e fungos, notadamente em fundos de tanque de formato inadequado ou não devidamente drenados.