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O patinho feio?


Edição de Abr / Mai 2008 - 15 abr 2008 - 14:49 - Última atualização em: 13 dez 2012 - 16:59
A produção de biodiesel a partir do óleo da palma ainda é pouco significativa em volume no Brasil. Apesar disso, o potencial dessa matéria-prima é destacado por pesquisadores e indústria.

Fernanda Guirra, de Goiânia

Na conhecida história infantil O Patinho Feio, o personagem principal passa por poucas e boas até descobrir que, na verdade, era um lindo cisne. Guardadas as devidas diferenças entre as fábulas e o mundo dos negócios, tudo indica que o dendê tem potencial para ser um “cisne”, mas ainda é visto como o “patinho feio” entre as matérias-primas utilizadas na produção de biodiesel no país. Os pesquisadores afirmam que o dendê (ou palma) é a oleaginosa com a maior capacidade de produção de óleo por hectare – até oito vezes mais do que a soja – e o governo brasileiro também concede incentivos fiscais à cultura. No entanto, mesmo com esses fatores positivos, as lavouras não deslancharam por aqui.

Segundo o pesquisador Amélio Dall’Agnol, da Embrapa Soja, a atual produção brasileira de biodiesel deixa clara a preferência dos produtores e das indústrias pela matéria- prima soja. “Cerca de 80% do biodiesel produzido no país vem do óleo de soja. Dos 20% restantes, cerca de 15% vêm da gordura animal e apenas 5% da produção é feita a partir de outras oleaginosas, como dendê, mamona e girassol”, afirma. Pelos cálculos do pesquisador, devem existir aproximadamente 60 mil hectares voltados para o cultivo do dendê no Brasil.

Ele acredita que o alto custo de implantação das lavouras de palma, cerca de R$ 3 mil /hectare, e o tempo de maturação da planta (entre três e quatro anos para que apareçam os primeiros frutos) sejam os principais entraves ao desenvolvimento do dendê. “Mesmo que depois de implantados os dendezeiros continuem produzindo por mais de duas décadas, qual é o pequeno produtor que pode esperar quatro anos para ter algum retorno do seu investimento?”, declara.

Na opinião de Dall’Agnol, esse cenário só deve mudar com a consolidação do Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB). “Isso também aconteceu com o Proálcool, o Programa Nacional do Álcool, criado na década de 70. No início, pensaram na mandioca como matéria-prima, mas acabamos utilizando a cana-de- -açúcar”, conta o pesquisador. O governo, explica ele, precisa implementar uma política de estímulos para que os empresas se estabeleçam na região amazônica, aproveitando as áreas degradadas, principalmente ao longo das rodovias federais que cortaram a floresta, como a Transamazônica. “Há milhões de hectares disponíveis, mas os empresários precisam de incentivos para entrar nessa aventura”, diz.

Potencial

O Grupo Agropalma, que possui o maior e mais moderno complexo agroindustrial de plantio e processamento de óleo de palma do país, foi um dos primeiros a enxergar o potencial do dendê para o biodiesel. O Palmdiesel, como foi batizado o biodiesel da Agropalma, é obtido a partir dos ácidos graxos retirados do óleo de palma no processo de refino. Tanto a refinaria quanto a usina de biodiesel estão localizadas em Belém, no Estado do Pará. O diretor comercial da empresa, Marcello Brito, também afirma que o principal gargalo para o desenvolvimento do cultivo da palma no país é a falta de linhas de financiamento específicas, com a carência adequada para a cultura.

“O Brasil ainda não se atentou para a potencialidade desta cultura em áreas degradadas”, destaca o executivo. Segundo ele, na atualidade, não existe óleo vegetal que seja viável para a produção de biodiesel sem subsídios, em virtudedo alto valor das oleaginosas nos mercados nacional e internacional. “Mas como estes preços são cíclicos e dependem de muitas variáveis na composição de seu valor, o que é inviável hoje, não necessariamente o será amanhã. Assim, a palma ainda se situa como a mais viável para a produção de biodiesel pela sua incomparável produtividade em relação a outras matérias-primas”, destaca.

A Agropalma produz biodiesel por esterificação de ácidos graxos, um processo conhecido mundialmente e largamente utilizado em outros setores da indústria de óleos vegetais. “Experiências que fizemos no passado, infelizmente, não se mostraram produtivas ou competitivas em relação a custos de produção, o que nos levou a buscar uma tecnologia comum, já conhecida, testada e utilizada em larga escala mundo afora”, explica Brito. A capacidade de produção autorizada da usina de biodiesel é de 24 milhões de litros por ano. “No entanto, em função do alto preço do ácido graxo, aliado ao baixo preço do biodiesel, nossa perspectiva é produzir algo em torno de quatro milhões de litros em 2008.”

Há algumas semanas, a empresa anunciou um investimento de R$ 12 milhões na expansão da área cultivada com palma – o aumento previsto é de quatro mil hectares. Assim, o grupo deve chegar aos 37 mil hectares próprios plantados, com o que pretende atingir a meta de saltar da produção atual de 130 mil toneladas para 220 mil toneladas em 2011. “Ao todo, empregamos cerca de cinco mil pessoas diretamente em 37 mil hectares de plantios próprios. A formação de mão-de-obra é trabalho diário do nosso grupo. Não existe formação externa para o nosso setor”, assinala o diretor comercial.

Em recente artigo sobre a produção nacional de biodiesel, o coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues, destacou que, entre as palmáceas, a “grande vedete” é o óleo de palma. De acordo com ele, duas importantes vantagens do dendê são as seguintes: pode ser cultivado por pequenos produtores, como os da agricultura familiar, e se constitui em excelente alternativa para recuperação de áreas degradadas da região amazônica.

“Os grãos chegam a produzir até mil quilos de óleo por hectare, e o dendê produz seis vezes mais. O problema é que o dendê demora quatro anos para começar a produzir, e os grãos são anuais. Mas é evidente que, uma vez em produção, o dendê tem vantagens comparativas espetaculares, até porque o custo de implantação da planta só se dá uma vez, ao contrário dos grãos, semeados todos os anos”, afirmou Rodrigues em seu texto.

O pesquisador João Flávio Veloso, da Embrapa Soja, afirma que ainda há muito desconhecimento sobre a cultura do dendê no Brasil, mas acredita que a demanda crescente de óleos vegetais pelas usinas de biodiesel vai permitir que a produção dessa matéria-prima (e de outras pouco utilizadas hoje em dia) possa se estruturar no país.

Preocupação ambiental

Marcello Brito, da Agropalma, lembra que a soja continuará a ser, ainda por muitos anos, a principal matéria-prima para o biodiesel nacional. “Não há como negar este fato e somente quem não conhece o setor pode dizer o contrário. O resto ainda é promessa de um futuro sem data marcada.” No caso da palma, entretanto, ele julga que os aspectos ambientais são de suma importância no fortalecimento do setor. De maneira alguma, explica o diretor, a cultura deve ser vista como um “substituto” de florestas, e sim como uma planta que pode ser utilizada em áreas degradadas e sob rigorosos critérios socioambientais.

“Mas as autoridades brasileiras ainda não se atentaram para isso e alguns investimentos feitos em um passado recente, e outros que estão sendo feitos neste momento, terão que pagar caro no futuro para se adaptarem a estas novas realidades do campo socioambiental e das emissões de gases de efeito estufa”, afirma Brito.

Segundo ele, a agricultura de hoje não pode mais ser feita com o “desleixo do passado”, quando apenas aspectos exclusivamente agrícolas eram levados em conta, como se a operação toda não provocasse impactos em um ecossistema. “Este cenário só vai mudar com as pressões internacionais, já que parte do empresariado brasileiro ainda não caiu na real. Muitos ainda não se utilizam de ferramentas para medir os riscos dos problemas que a falta de ações socioambientais poderá trazer a seus negócios”, declara o diretor comercial da Agropalma.

O pesquisador Ricardo Lopes, da Embrapa Amazônia Ocidental, é outro que destaca os pontos positivos do cultivo da palma em relação ao meio ambiente. De acordo com ele, é uma cultura permanente, com alta capacidade de fixação de carbono – aproximadamente 26 toneladas de carbono estocados por hectare em plantios adultos. Além disso, a planta oferece boa cobertura do solo nas áreas de cultivo, protegendo o terreno contra a erosão e a lixiviação (processo que sofrem as rochas e solos ao serem lavados pela água das chuvas). “Também vale lembrar que, quando já está em plenaprodução, o dendezeiro possui um dos menores custos de produção de óleo entre as oleaginosas, de US$ 250 a US$ 300 por tonelada no Brasil”, comenta.

Do ponto de vista social, Lopes destaca que a opção pelo dendê contribui para a geração de renda e emprego no campo. “Por ser uma cultura perene, que produz ao longo do ano, é possível ter um fluxo de caixa mensal, o que facilita a organização do orçamento do produtor. E também existe estabilidade da oferta de óleo, já que, geralmente, não ocorrem reduções drásticas da área plantada como pode acontecer com as culturas anuais.”

Como características desfavoráveis ao desenvolvimento do cultivo dos dendezeiros, o pesquisador da Embrapa Amazônia Ocidental cita o custo de implantação da lavoura, a alta demanda de mão-de- -obra e a necessidade de associar a produção ao processamento de cachos, exigindo uma escala que viabilize a instalação da usina de processamento. “Mas com linhas de crédito adequadas, os custos de implantação e de manutenção na fase improdutiva deixam de ser problema. Existe ainda a possibilidade do uso de culturas intercalares, que podem gerar renda nos três primeiros anos após o plantio”, destaca.

Sobre as perspectivas da dendeicultura no país, Lopes lembra que o Brasil é importador de óleo de dendê e que não deve tornar-se auto- -suficiente tão cedo, já que a área plantada deveria ser dobrada para atender a crescente demanda do mercado. Neste cenário, explica ele, embora exista viabilidade econômica para a produção de biodiesel a partir do dendê, o óleo deverá continuar sendo destinado à industria de alimentos, que ainda garante melhor remuneração para o produto.

“O óleo da palma produzido no país não é destinado para o biodiesel. A Agropalma, por exemplo, produz o Palmdiesel utilizando os ácidos graxos retirados do óleo de palma no processo de refino, ou seja, a empresa aproveita um subproduto – o que, aliás, é muito interessante. Isto só vai mudar com o aumento da oferta, o que exige aumento acelerado nos plantios de palma, e benefícios que tornem a planta atrativa, do ponto de vista econômico, para a produção do biodiesel”, analisa o pesquisador.

Embora o Amazonas seja o Estado com maior área climática apta para a cultura, conforme Lopes, as empresas encontram dificuldades para investir na região. Vários grupos, segundo ele, já avaliaram a possibilidade de instalar projetos no Amazonas, mas não conseguem áreas com as dimensões adequadas e não encontram incentivo que justifique os investimentos no Estado. “Não existem incentivos em âmbito estadual para o cultivo do dendezeiro, apenas a possibilidade de obter o Selo Combustível Social com isenção de PIS/COFINS”, explica.

Ele lembra que a grande preocupação com a dendeicultura na Amazônia é que a atividade provoque a devastação de grandes áreas de floresta. “Particularmente, não tenho essa preocupação”, afirma o pesquisador. “Além das áreas desmatadas disponíveis (cerca de 3,2 milhões de hectares no Estado), mesmo imaginando que fosse feito um projeto agressivo de expansão da dendeicultura na região Norte visando produzir biodiesel suficiente para substituir todo o diesel consumido no país - o que demandaria em torno de oito milhões de hectares plantados e mais de um milhão de trabalhadores - isso levaria várias décadas, explica Ricardo Lopes. “E teríamos que desmatar menos de 3% das florestas existentes.”

Para o pesquisador, nos próximos anos, o mais provável é que a cultura continue se expandindo no Pará, Estado responsável por 90% da produção nacional, com mais de 50 mil hectares de palma plantados.