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Independência ou morte


Edição de Abr / Mai 2008 - 15 abr 2008 - 16:25 - Última atualização em: 13 dez 2012 - 16:59
Enquanto os EUA intensificam a busca pela independência energética, o biodiesel cresce em participação. E o desafio enfrentado pela maior economia do mundo está repleto de obstáculos.

Tania Menai, de Nova York

Americanos adoram independência. É assim que o jornalista Robert Bryce, especializado em energia, abre seu livro “Gusher of Lies” (Poço Jorrante de Mentiras), lançado nos Estados Unidos em março deste ano. Bryce argumenta que o país gosta de ser independente em tudo, e isso inclui combustível. Seu livro mostra que, apesar do desejo nacional, essa independência não é possível – e cita os diversos porquês. Ainda assim, desde Richard Nixon esse tem sido o discurso de todos os presidentes americanos e agora de todos os atuais candidatos à Casa Branca - Barak Obama, Hillary Clinton e John McCain. Essa independência também foi citada no documentário de Al Gore (“Uma Verdade Inconveniente”, de 2006, que ganhou o Oscar e lhe rendeu um Prêmio Nobel), e é essa a urgência das empresas do ramo desde os ataques de 11 de setembro: depender cada vez menos dos árabes para abastecer seu país. Todos têm pavor de pensar que os petrodólares que gastam no outro lado do mundo possam vir a abastecer os bolsos de terroristas.

“A sabedoria comum é buscar o conforto da independência energética – e o discurso está vindo da direita, da esquerda, dos ecologistas, da agricultura, da força trabalhista, dos republicanos, dos democratas, dos senadores, do congresso, de George W. Bush, das páginas de opinião do New York Times e dos neoconservadores”, escreve Bryce, ao apresentar o panorama atual. De fato, nem o etanol nem o biodiesel poderiam substituir em larga escala o petróleo sem impactar no suprimento de alimentos. Se toda a produção de soja for dedicada ao biodiesel, este substituiria apenas 6% da demanda norte-americana de diesel. É isso que concluiu um estudo publicado pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences, em 2006. “O biodiesel sozinho seria apenas um band-aid no problema”, sentencia Daniel W. Basse, presidente do AgResource, em Chicago, uma empresa de análise, pesquisa e consultoria na área agrícola.

A situação nos EUA é mais grave que no resto do mundo. “Não há comparação entre o que se produz hoje no Brasil e nos EUA: o Brasil produz muito mais”, afirma Basse levando em consideração oconsumo e a demanda. “Os EUA usam menos de 1% em termos de biodiesel”, explica.

Misturas

Segundo Amber Pearson, portavoz do Conselho Nacional de Biodiesel (National Biodiesel Board) nos EUA, nos Estados com incentivo fiscal, como Illinois, a mistura de 11% de biodiesel e 89% de diesel mineral, ou B11, pode ser mais barata num posto do que o diesel normal. Ela diz que na maioria dos Estados, os preços do B2 ao B20 são competitivos com o preço do diesel mineral, e podem variar de um lugar para outro. Os incentivos fiscais se aplicam aos que misturam e aos pequenos produtores – quem mistura recebe 26 centavos de dólar por litro. “Não há mistura obrigatória no país, mas alguns Estados exigem uma mistura mínima”, diz Pearson. “Por exemplo, em Minnesotta o mínimo é de B2. No estado de Washington, onde fica Seattle, alguns galões podem conter B2 e outros não conter nenhum biodiesel. As misturas mais populares nos EUA são B2, B10, B11 - como em Illinois, que possui uma política de incentivo fiscal - e B20”, afirma.

Ela acrescenta que o maior obstáculo, hoje, é manter o preço nos postos competitivos com o diesel mineral, dado que os preços de grãos como a soja são muito altos. “Não importa o quanto o governo dê em subsídio, o preço do óleo de soja está subindo para um preço que tornará o biodiesel um combustível não lucrativo”, afirma Basse. Ele ressalta ainda que as usinas nos EUA estão operando no vermelho. “Não estamos prontos para comercializar a soja como combustível, apenas como alimento. A demanda que se tem da China é imensa, a soja não seria capaz de supri-la.” Basse prevê a busca de outras fontes, como água e eletricidade.

Crescimento

Mas essa crise não atrapalhou o desenvolvimento de usinas. Nos últimos quatro anos o setor triplicou ou dobrou, dependendo da região nos EUA. Só no último ano o número de usinas saltou de 90 para 160. Para atender esse crescimento, a logística teve que se desenvolver também. “A distribuição hoje é feita por milhares de caminhões, trens de carga e pontos-de-venda com misturas. Ainda há estudos para testar a viabilidade de enviar o biodiesel por tubulação”, diz Pearson.

Já Basse lembra que a maior parte desta distribuição é feita no centro-oeste do país: “muitos caminhoneiros e fazendeiros usam biodiesel, mas a situação fica mais complicada para que o combustível chegue às costas e áreas urbanas. Ainda há muita dificuldade para o consumidor comum achar um posto com biodiesel”, diz ele, lembrando que o caso dos veículos de São Francisco (veja quadro) é um esforço extra, e não um padrão.

Há um ano, os CEOs de General Motors, Ford Motor Company e Chrysler Corporation, braço da DaimlerChrysler, pediram oficialmente ao presidente George W. Bush para apoiar iniciativas que tragam mais etanol e biodiesel para mais postos de abastecimento. Segundo os executivos, até 2012, metade dos veículos feitos por essas três montadoras serão capazes de funcionar com biodiesel ou o E85, uma mistura de 85% de etanol e 15% de gasolina. Mas antes de inovar, eles dizem que precisam dos incentivos e da infra-estrutura fornecida pelo governo. Na época, o presidente Bush pediu por um corte de 20% no consumo de petróleo nos EUA em dez anos; 75% dessa economia viria do uso de combustíveis alternativos e o restante de veículos mais econômicos. Mas foi no final de 2007 que veio o verdadeiro incentivo, quando foi assinada a nova lei energética que prevê a utilização de no mínimo 1,9 bilhão de litros em 2009, e 3,8 bilhões em 2012. Essa medida garantiu o crescimento da produção de biodiesel, mas não resolveu o problema da falta de competitividade do biodiesel.