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Experiência é a alma do negócio


Edição de Abr / Mai 2008 - 15 abr 2008 - 16:06 - Última atualização em: 13 dez 2012 - 16:59
Com mais de dez anos de pesquisas e estudos sobre biodiesel, a pioneira Oleoplan é uma das líderes do setor no Rio Grande do Sul e agora tenta ficar na frente das multinacionais na corrida dos biocombustíveis.

Daniel Bittencourt, de Passo Fundo

A cidade de Veranópolis, situada na região da Serra Gaúcha, é chamada de Capital Nacional da Longevidade, de Princesa dos Vales e, desde 2007, pode ser considerada um ícone do biodiesel no Rio Grande do Sul e no Brasil. Todas essas classificações são corretas, mas a última se configura como a mais importante porque uma das maiores indústrias de biodiesel do Estado, a Oleoplan S/A – Óleos Vegetais do Planalto, está situada nas terras desta pequena cidade.

Esta classificação ainda não possui registro oficial, mas demonstra a importância que possui uma empresa que desde 1980 vem trabalhando com a extração de óleo de soja e seus derivados. Depois que os primeiros dez anos se passaram, veio a crise na produção de óleo, que na época era considerado um subproduto da soja, e por isso valia muito pouco no mercado dos anos 90.

Toda essa reviravolta mercadológica fez com que o presidente da Oleoplan, o engenheiro mecânico Irineu Boff, previsse com uma folga de dez anos o que viria a ser a menina dos olhos do mercado de combustíveis renováveis. Desde o final da década de 90 a Oleoplan vem estudando e desenvolvendo alternativas de mercado para o óleo de soja. E uma delas foi a de investir na produção de biodiesel em larga escala.

Segundo o diretor da Oleoplan, Marcos Boff, essa iniciativa se concretizou na empresa a partir de 2002. “Três anos antes da criação da lei que regula a introdução do biodiesel na matriz energética brasileira, a Oleoplan já vinha desenvolvendo tecnologia no setor. E o biodiesel surgiu como mais uma frente de trabalho da empresa, que viu nesse mercado uma alternativa que viesse agregar mais valor no óleo produzido pela Oleoplan.”

Conhecimento de causa

A Oleoplan sempre trabalhou com o esmagamento da soja para obter o óleo e o farelo do grão – produtos que já garantem a atividade da empresa. O primeiro é trabalhado no mercado de óleo bruto degomado, usado geralmente para o consumo humano. E o farelo sempre foi comercializado para o uso em rações de aves e suínos.

Mesmo sendo produtos de diferentes aplicações, toda essa experiência caiu como uma luva para a Oleoplan na hora de resolver investir em biodiesel. O que não significou que ela iniciou uma corrida desenfreada e sem estratégia. A empresa sempre viu esse mercado com bastante cautela. No início do programa todo o óleo de soja estava com um nível de preço que era competitivo com o do diesel convencional. E com isso havia risco de que esse novo produto poderia se tornar mais caro, cena que se configurava em um mercado que deveria ser tratado com todo o cuidado possível.

“Muita gente que acabou entrando nisso pensando em obter lucros extraordinários com o biodiesel acabou perdendo. Talvez eles erraram na estratégia ou não conheciam este mercado”, diz Boff.

E todo o cuidado possível não foi pouco para a Oleoplan. Pensando que o mercado de biocombustíveis acabaria virando um mercado de commodities, a indústria não deu menos atenção para os produtos que ela já produzia, entre os quais a lecitina de soja e a glicerina.

Mesmo sendo um mercado de risco, levando em consideração que é preciso uma grande produção de biodiesel para que o lucro líquido seja considerável, o investimento de R$ 20,5 milhões para a construção de uma unidade com capacidade de 198 milhões de litros por ano valeu a pena para a Oleoplan.

Sucesso nos leilões

Somente neste primeiro ano de atuação a indústria conseguiu destinar sua produção inicial nos leilões de biodiesel. Em 2007 foram vendidos dez milhões de litros através do leilão da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). E nos leilões promovidos pela Petrobras, mais 14,5 milhões de litros foram vendidos para a formação de estoques estratégicos, resultando em um retorno financeiro total de mais de R$ 45 milhões.

Apesar do boom do mercado de biodiesel no Brasil, a Oleoplan não possui o perfil de uma empresa que arrisca tudo no primeiro lance. Boff diz que desde o início dos movimentos de leilões, a indústria sempre entrou com volumes experimentais, porque havia algum risco de mercado. “Então sempre houve um resguardo para poder assumir um compromisso que a empresa pudesse cumprir.”

No ano passado ocorreram leilões que trabalharam com uma agenda futura. Para o primeiro semestre deste ano vigora a mistura de 2% de biodiesel no diesel convencional. E o governo fez novos leilões para garantir que os 2% de adição obrigatória ocorram ainda no primeiro semestre de 2008. “Nós percebemos que havia um grande excesso de oferta de biodiesel, pois o governo incentivou a produção do combustível e a iniciativa privada respondeu de maneira bastante agressiva, inclusive superando em muito a demanda obrigatória quefoi criada”, comenta Boff.

Demanda e ofertas Atualmente há uma estimativa no país de que para atender a demanda de B3 são necessários mais de 1,2 bilhão de litros de biodiesel. E a oferta, hoje, considerando a capacidade autorizada de produção, ultrapassa os 2,7 bilhões de litros. “De capacidade autorizada, o Brasil teria como produzir B5 já. E uma luta que está sendo promovida é de que seja aumentada essa demanda para que todas as fábricas possam operar. Mas isso é algo que tem que ser ajustado”, avalia Boff.

Selo social

O processo funcional da Oleoplan não se baseia somente nos produtos da soja e do biodiesel. Tão importante quanto a qualidade daquilo que sai como produto final da usina é o cuidado com a responsabilidade social, ação que ocupa um lugar de destaque na empresa.

Hoje a Oleoplan gera mais de 200 empregos diretos espalhados pelo Rio Grande do Sul e é a maior indústria instalada no município de Veranópolis, respondendo por 50% de suas exportações. No Estado ela atinge milhares de produtores rurais, especialmente da agricultura familiar, uma vez que a empresa tem avançados projetos para atender ao Selo Combustível Social – 46% da soja que a Oleoplan utiliza é oriunda da agricultura familiar de pequenos produtores do estado.

Preocupação ambiental

Além disso, a Oleoplan também possui um projeto que contribui para a preservação do meio ambiente. Transcendendo a contribuição para a agricultura familiar, a indústria possui um trabalho de reciclagem de óleo de fritura proveniente de residências, restaurantes e estabelecimentos comerciais para produzir biodiesel. O projeto alcança uma arrecadação espontânea de quatro mil litros por mês.

A Oleoplan coleta esse óleo em postos de recolhimento do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) de Porto Alegre e na cidade de Veranópolis. Normalmente despejado no esgoto, ele passa por um processo de limpeza, é tratado e então misturado com outros óleos que darão origem ao biodiesel.

Longevidade

Assim como a cidade em que está localizada, a Oleoplan também mantém um olho no futuro. Hoje ela é a maior indústria da região de Veranópolis e está entre as dez maiores usinas que já produziram biodiesel.

Além disso, na questão de esmagamento, a Oleoplan participa de um mercado que é dominado por grandes empresas multinacionais e tem que ir se adequando dentro desta competição.

Mesmo assim, atende alguma demanda de mercado local – algo bem mais regionalizado – e investe pesado em produtos para exportação de óleo de soja.

Como tudo começou

A Oleoplan é uma das indústrias mais antigas a trabalhar com a produção de biodiesel. Ela surgiu a partir de uma empresa que já existente em Veranópolis desde 1976. Em 1980, foi adquirida por Irineu Boff, dando origem à atual Oleoplan.

Irineu já atuava no mercado de soja, e quando comprou o que hoje é a Oleoplan, ela já era uma indústria de esmagamento de grãos, só que com uma capacidade bem menor do que hoje.

Ao longo dos anos a produção foi aumentando e com isso foi sendo implementada uma estrutura de logística que complementou os negócios. Terminais de recebimento de grãos foram montados em cidades do interior, até que a Oleoplan chegou a seu porte atual, figurando entre as dez maiores usinas de biodiesel do Brasil.

Processos de preparo

A Oleoplan possui três pontos de recebimento de grãos espalhados pelo interior do Estado (Passo Fundo, Muitos Capões e Ronda Alta). Esses grãos são adquiridos diretamente de cooperativas ou de produtores rurais e são levados para os pontos de recebimento, onde são encaminhados para a Oleoplan conforme a necessidade da fábrica.

Na usina da Oleoplan é feita toda a preparação de esmagamento do grão – processo pelo qual é extraído o óleo. Depois disso, o óleo é preparado para a reação de transesterificação, onde é transformado em biodiesel e repassado às distribuidoras.