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A mamona na berlinda


Edição de Fev / Mar 2008 - 15 fev 2008 - 14:15 - Última atualização em: 17 dez 2012 - 09:17
A utilização da planta na produção de biodiesel é a discussão do momento. Há quem diga que novas pesquisas vão dar mais credibilidade e viabilidade ao insumo. Mas muitos acreditam que o uso de um óleo nobre para fazer combustível, com outras opções disponíveis, é inaceitável.

Carla Aranha, do Rio de Janeiro

A mamona já foi usada para fabricar desde óleo para iluminação no Brasil colonial até o famigerado óleo de rícino, um poderoso vermífugo. Mas só recentemente a planta foi elevada à estatura de assunto de interesse nacional. Isso porque ela é uma das maiores estrelas do Programa Federal de Produção e Uso do Biodiesel. Mas essa estrela pode em breve sair da constelação de insumos recomendáveis para a produção do combustível verde. E há até quem acredite que ela nunca deveria ter sido indicada. A questão é realmente polêmica e, para colocar ainda mais pimenta na história, não faltam argumentos de ambos os lados.

Quem é favorável ao uso do óleo de mamona no programa de biodiesel tem em sua defesa as pesquisas conduzidas pela Embrapa e pela Petrobras, que prometem tornar o uso dessa matéria-prima cada vez mais palpável. Enquanto a Embrapa estuda novas cultivares com aperfeiçoamento tecnológico, a Petrobras vem investindo em técnicas que podem revolucionar a obtenção do óleo de mamona.

Os otimistas podem ainda contar com os fatores sociais envolvidos. Esse time enfatiza que a mamona cresce bem no semi-árido brasileiro e pode proporcionar a inclusão econômica e social de uma população excluída historicamente pela seca. “Com o aperfeiçoamento dos sistemas de produção e a melhoria dos programas estaduais de agricultura familiar, a mamona terá cada vez mais importância nessa região do Brasil”, defende Napoleão Esberard, engenheiro agrônomo da Embrapa Algodão. Também a favor da planta estaria o fato de que a mamona não pode ser usada como alimento, ao contrário da soja e outras oleaginosas.

Por fim, o governo aposta na mamona e prevê que as plantações deverão continuar aumentando. No Nordeste, principal região produtora, a safra 2006/2007 teve uma área plantada de 151,2 mil hectares, número que subiu para 165,7 mil hectares na safra 2007/2008, segundo dados da Conab. No Brasil como um todo, foram 155,6 mil hectares plantados em 2006/2007 e 170 mil na safra 2007/2008. Embora os números sejam positivos, mesmo quem defende o uso da mamona, como Esberard, reconhece: “Ainda é pouco para as necessidades do programa de biodiesel”.

O outro lado

Os críticos ao uso da mamona na fabricação de biodiesel também têm fortes argumentos para defender seu ponto de vista: o alto preço do óleo da planta, sua alardeada viscosidade e o fato de ter nada menos do que 700 aplicações nobres na indústria ricinoquímica – contribuindo para a produção de artigos que vão desde couro artificial até vidros à prova de bala e lubrificantes.

Mas o alto preço do óleo de mamona é o que mais pesa contra a sua utilização como matéria-prima do combustível verde. Hoje, ele custa mais caro do que o óleo de muitas outras oleaginosas. E há também a concorrência com a indústria ricinoquímica que, atualmente, paga mais do que o dobro que a indústria do biodiesel pelo produto.

Como se não bastasse, os governos estaduais do Nordeste são acusados de não oferecer a assistência adequada aos agricultores, na grande maioria famílias do semi-árido. O secretário de Política Agrícola da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Antoninho Rovaris, afirma que não chegam sementes de boa qualidade. Segundo ele, muitas vezes as usinas também não cumprem o preço mínimo estabelecido(veja quadro abaixo), o que faz o trabalhador rural se desinteressar pelo cultivo da mamona.

Grandes desafios

Com agricultores ameaçando abandonar as plantações de mamona, o governo do Ceará lançou no ano passado uma política de incentivos financeiros e garantia de preço mínimo. É uma tentativa de reverter um quadro negativo, em que a previsão de safra colhida em 2007 deverá ficar 27,23% abaixo do esperado. Foram colhidas apenas 5.615 toneladas, quando a expectativa era que a produção alcançasse 7.716 toneladas. Antes disso, em 2006, já houve uma queda drástica de 55,01% na produção de mamona no estado.

A Bahia, maior produtor da planta, enfrenta um outro tipo de dificuldade: a forte concorrência com a indústria ricinoquímica. “As empresas de ricinoquímica estão tentando garantir estoques de mamona e com isso os preços aumentaram, o que é muito bom para o agricultor, mas não para a política de biodiesel”, diz Antoninho Rovares.

Os próprios usineiros parecem concordar. Um dos maiores problemas na utilização da mamona como insumo para o biodiesel está no fato de que as usinas vêm dando preferência ao óleo de soja. Não à toa: o óleo de mamona é, na média, muito mais caro – embora no final de 2007, a soja tenha atingido níveis bastante altos nas cotações – e a disponibilidade de soja no país é bem maior.

A Bom Brasil, de Salvador, uma das maiores usinas produtoras de óleo de mamona no país, destinou toda a produção do ano passado à indústria ricinoquímica. “Esse mercado tem pago preços melhores”, explica Adrian Hanzi, diretor-gerente da empresa.

Para a Mamominas, que também concentra seus negócios na produção de óleo de mamona, não há grande interesse do setor em transformar o óleo nobre em combustível. “O preço do óleo de mamona para a indústria ricinoquímica está em R$ 4 o quilo e o último leilão da Petrobras pagou cerca de R$ 1,80 pelo óleo. É uma questão matemática”, conta Ricardo Ralston, diretor da unidade de extração de óleo de mamona que atualmente possui 600 hectares plantados no noroeste de São Paulo e 297 hectares na região de São Tomé das Letras, em Minas Gerais. “Por patriotismo, vou continuar investindo na mamona, mas entendo que outras empresas não façam o mesmo”, comenta.

Ralston afirma também que há muitas empresas comprando grãos de mamona com a única finalidade de garantir o Selo Social, que concede isenção de PIS/Cofins às usinas do Norte e Nordeste que usam a planta. Analistas de mercado, usinas de outras regiões do país e corretoras apontam que o óleo re- sultante das sementes compradas do agricultor familiar vem sendo vendido para uso industrial, ao invés de se transformar em biodiesel. As usinas estariam comprando óleo de soja refinado e óleo de algodão semi-refinado, alternativas bem mais baratas do que o óleo de mamona, para produzir o combustível. “Acredito que a tendência seja essa mesma, por causa do preço. A indústria de biodiesel não tem outra saída por enquanto a não ser o óleo de soja”, diz Ralston.

O alto grau de viscosidade da mamona – nove vezes maior do que o do óleo de soja, por exemplo – seria outro empecilho à sua utilização em larga escala para fabricação de biodiesel. “Essa particularidade faz com que a purificação do biodiesel fique dificultada. Assim é mais oneroso conseguir produzir biodiesel de mamona com pureza suficiente”, diz o engenheiro químico com pós-doutorado pelo National Center for Agricultural Utilization Research, Paulo Anselmo Ziani Suarez.

Boas novas

A Petrobras mantém suas pesquisas para garantir que os pontos positivos relacionados à mamona ganhem dos negativos. Os técnicos da empresa estão concentrando esforços para produzir biodiesel direto do grão esmagado, sem passar por outros processos, e para obtenção de etanol a partir da torta da mamona. Com isso, eles aumentariam a importância do papel da mamona no programa do biodiesel.

Napoleão Esberard também lembra que em breve a produtividade da mamona poderá aumentar muito no nordeste brasileiro. As novas cultivares recentemente lançadas pela Embrapa Algodão, com um ciclo muito curto, entre 95 e 120 dias, vêm sendo consideradas fruto de um bom aperfeiçoamento tecnológico, que deverá aumentar a produção da planta. Além disso, a Embrapa também já fez o pré- -lançamento de dois novos cultivares geneticamente modificados, um com elevados teores do ácido ricinoleico, apropriado para a indústria ricinoquímica, e outro com baixos teores do ácido e mais óleo. “Dessa forma evoluiríamos para dois mercados bem definidos”, diz Esberard.

Segundo Suarez, é preciso prestar atenção para que eventualmente uma crise como a de 2006, quando o quilo da mamona baixou para R$ 0,20, devido a um aumento grande na oferta de óleo e sementes, não volte a acontecer – o que, no momento, parece pouco provável. “É difícil haver um aumento na demanda, já que o mercado da indústria riconoquímica tende a ficar nos níveis atuais, e o de biocombustível ainda não decolou”, comenta. Por isso, os preços devem se manter estáveis.

A produtividade no Brasil já está aumentando, graças a uma maior orientação que, ao menos uma parte dos agricultores, vem recebendo sobre a época certa de plantio e o período crítico de controle de plantas daninhas, entre outros fatores. Mas, mesmo assim, essa produtividade é considerada pequena, principalmente quando comparada a outras oleaginosas. A última safra do Brasil chegou a 750 kg por hectare, de acordo com dados da Embrapa. Na Índia, maior produtor mundial seguida da China e depois por Brasil e Rússia, a produtividade é de 850 kg por hectare, em grande parte porque os produtores indianos adotam um regime de irrigação nas plantações de mamona – o que não acontece no Brasil. Nas regiões secas da Índia onde a terra não é irrigada a produtividade fica abaixo de 250 kg por hectare.

Napoleão Esberard, da Embrapa, também frisa que o óleo de mamona pode ser misturado a outros óleos, como o de coco (Cocus nucifera). “Ele pode fornecer, dessa maneira, um excelente biodiesel”, diz. A mistura diminuiria inclusive os problemas com a viscosidade. Com as novas tecnologias de obtenção do óleo, e as novas cultivares, a Petrobras e a Embrapa acreditam que a mamona terá um futuro garantido como fonte de biodiesel. Se essas soluções terão efeitos positivos antes que novas oleaginosas se desenvolvam, só o tempo dirá.

Descontentamento entre agricultores

O programa de produção de biodiesel a partir da mamona tem mais um desafio a vencer, além do preço elevado do óleo e sua alta viscosidade. Em alguns estados, ainda é preciso convencer os agricultores a plantar mamona. No Piauí, 600 famílias da região de Canto do Buriti, no sul do estado, podem em breve parar o plantio da oleaginosa. A falta de infra-estrutura e incentivo é uma das principais queixas dos agricultores. No Ceará, há um ano os agricultores envolvidos na produção de mamona ameaçaram abandonar as plantações – dessa vez, o motivo foi o baixo preço pago pela planta. “É comum que no Nordeste as usinas paguem cerca de R$ 0,30 pelo quilo da mamona, enquanto o preço estabelecido é de R$ 0,56”, diz Ricardo Ralston, diretor da usina Mamominas, produtora de óleo de mamona de Minas Gerais e São Paulo.

As mil e uma utilidades da torta de mamona

A torta de mamona, resíduo que sobra da extração do óleo da planta, poderá ser usada não apenas como fonte produtora de biodiesel. Descobertas recentes apontam que sua composição química a torna também um poderoso inseticida. Estudos de 2002 demonstram que uma das proteínas encontradas na torta de mamona, a ricina, de alto grau de toxicidade, pode ser altamente eficaz no combate a pestes que atacam as lavouras e a parasitas. Testes realizados no final dos anos 90 já comprovaram que a torta de mamona usada como adubo ajuda a controlar a população de parasitas nas plantações.

Mais surpreendente ainda, a ricina também já está sendo utilizada pela medicina no tratamento contra o câncer. A ricina se liga a um anticorpo que combate o câncer, e assim penetra na célula indesejada, matando-a.

Em breve a torta de mamona, que constitui um bom adubo orgânico, poderá ser utilizada também na ração animal. A grande quantidade de proteína que possui faz dela um alimento ideal – logicamente, desde que se elimine a ricina (substância tóxica). Análises feitas alguns anos atrás mostram que se dada em pequenas quantidades aos animais a proteína não causa nenhum efeito adverso. Os pesquisadores calculam que a utilização da torta de mamona na alimentação animal, como produto atóxico, está mais próxima do que se imagina.