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A bela ou a fera?


Edição de Fev / Mar 2008 - 15 fev 2008 - 10:08 - Última atualização em: 17 dez 2012 - 09:17
Com a entrada do B2, cerca de 76 mil toneladas de glicerina serão geradas a partir da produção de biodiesel. Para muitos usineiros, essa é a fera que assombra o caráter ambientalmente correto de seus negócios. Mas, para os pesquisadores, é hora de encarar a glicerina como uma bela oportunidade. E há quem defenda ser possível até mesmo lucrar com ela.

Renata Costa, de São Paulo

A glicerina sempre foi o Calcanhar de Aquiles na história de sucesso do biodiesel brasileiro. E com a entrada da mistura B2 (2% de biodiesel no diesel de petróleo) no mercado, vai se tornando impossível se esquivar dela. A maioria dos usineiros ainda vê o produto como um resíduo indesejado, mas os mais audaciosos defendem que ele tem um grande potencial de lucro. Por enquanto, a unanimidade entre empresários, pesquisadores e o governo é apenas uma: a glicerina não pode mais ser ignorada.

Para entender o tamanho do problema, basta fazer uma conta simples. A previsão é de que o Brasil produza em 2008 cerca de 760 milhões de litros de biodiesel. Por volta de 10% de todo o produto resultante da fabricação do combustível será transformada em glicerina. Ou seja, os usineiros terão que lidar com 76 mil toneladas de glicerol a atravancar seu caminho.

O imenso volume do material produzido no contrapé do desenvolvimento do biocombustível não é uma dor de cabeça que incomoda apenas os empresários brasileiros. A estimativa é de que no mundo todo sobrem cerca de 700 mil toneladas de glicerol por ano – incluindo o volume que vem do biodiesel. Essa seria a diferença entre o que é produzido e o que é, de fato, utilizado. Grande parte da glicerina – tanto aqui quanto no exterior – é vendida para indústrias que a utilizam como matéria-prima para fabricar solventes, adoçantes, conservantes alimentícios, anestésicos e plastificantes de cápsulas no setor farmacêutico. Mas nem assim é possível absorver todo o excedente.

Hoje, o maior temor é que essa glicerina, altamente poluidora, seja descartada de maneira irresponsável no meio ambiente. Em contato com rios e lagos ela se transforma em uma espuma branca, um tipo de sabão. Mas, por ser insolúvel, se precipita na água e dificulta a oxigenação dos animais aquáticos.

Associar o biodiesel – que daria origem a toda essa glicerina – a qualquer tipo de poluição seria como dar um tiro no pé dos programas que estimulam o crescimento do setor – já que uma das bandeiras levantadas é a de que o biodiesel é um combustível ecologicamente correto. “Atualmente há um excesso de glicerina no mercado mundial. Por isso, é fundamental estudar novos usos e aplicações”, alerta o professor do Departamento de Química da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Luiz Pereira Ramos.

E é justamente esse o trabalho que ele está fazendo. O pesquisador recebeu do governo federal a missão de correr atrás de soluções para o problema. Atualmente, ele desenvolve um estudo de viabilidade econômica da glicerina como parte das linhas de pesquisa e desenvolvimento do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel. Outros dois pesquisadores participam do grupo: Cláudio Mota, do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Sérgio Peres, da Universidade de Pernambuco (UPE). Três possíveis usos da glicerina estão sendo analisados por eles: a produção de biogás, o uso como aditivo em gasolina e a transformação em polímeros. Ainda é cedo para apresentar resultados definitivos. Mesmo assim, Ramos tem uma visão positiva do futuro. “Acredito que os mercados vão se desenvolver para absorver a glicerina. Ela não é um subproduto e pode, inclusive, justificar a existência do biodiesel”, defende. “Mas se eu fosse usineiro, sem saber o que fazer com ela ou ter lugar para estocá-la, com certeza também estaria preocupado.”

A preço de banana

A maior parte dos colegas do pesquisador, no entanto, está pessimista. Para eles, não é possível enxergar soluções nem mesmo no longo prazo. Com tantas incertezas, o caminho seguido pelos usineiros tem sido vender a glicerina a preço de banana para empresas estrangeiras. O problema é que, ao lançarem milhares de toneladas de glicerina no mercado, os empresários ficaram reféns da conhecida lei da oferta e da demanda. Com mais biodiesel – e glicerina – à venda, o que era previsto aconteceu: os preços despencaram.

Só a projeção do B2, em 2005, já causou oscilações no mercado da glicerina, aplicada em diversos ramos industriais. No final do ano de 2006, ela, que até então custava R$ 4, caiu a R$ 1,40 – só pela perspectiva das toneladas e toneladas de glicerol advindas das usinas de biocombustível do país.

O susto foi tão grande que indústrias produtoras de glicerina, como é o caso da Fontana S/A, resolveram mudar os rumos do próprio negócio. Na sede da empresa, na cidade de Encantado (RS), eram fabricadas seis mil toneladas do produto por ano. O material é usado na produção de sabonetes da marca Turma da Mônica, além de artigos de limpeza como saponáceos, lava-louças, sabão e amaciante. Com a oscilação dos preços, a decisão foi diminuir a fabricação própria a partir da nafta e do sebo animal para comprar e destilar a glicerina das usinas de biodiesel – que é muito mais barata. “Já não era mais viável economicamente, por conta da perspectiva de grande oferta”, explica o diretor Ricardo Fontana. Hoje, a Fontana usa a glicerina de biodiesel como parte de sua matéria-prima, mas não revela de quais usinas compra o material.

Mas nem todos os compradores de glicerina aceitam bem esse co-produto do biodiesel. É o que diz Bruno Montero, gerente de operações comerciais da Razzo Ltda. A empresa, instalada em São Paulo (SP), vende sebo, sabão e glicerina. Ele conta que muitos clientes do setor alimentício e farmacêutico não querem nem ouvir falar do produto obtido nas usinas de biodiesel. A crítica é de que essa glicerina seria de baixa qualidade, já que carrega uma mistura de sais, etanol e outras substâncias. “Sem tratamento adequado, ela não pode ser utilizada. Alguns clientes pedem até certificados que atestem que não usamos esse tipo de glicerol”, afirma.

Instalar equipamentos para purificar a glicerina obtida com o biodiesel corresponde a um custo de 20% do valor de instalação de uma usina, sem ocupar muito espaço. A estratégia pode compensar, já que a purificação agrega valor ao co-produto. Segundo Lau Rubim, diretor presidente da Lautec, que vende equipamentos para destilação da glicerina, é possível purificar o glicerol obtido de qualquer matéria-prima. O maquinário faz um fracionamento químico e, assim, todas as impurezas são separadas.

O difícil, agora, está sendo encontrar interessados. Por enquanto, Rubim diz que só recebeu pedidos de orientação por parte das usinas, mas não fechou negócio. “Os usineiros só enxergam o biodiesel. Por isso eu mesmo resolvi abrir uma planta de purificação de glicerina”, diz o empresário, que há 30 anos atua no ramo. A unidade Biobrotas Oleoquímica Ltda está sendo construída em Brotas, no interior de São Paulo, e deve entrar em operação ainda neste semestre. A estratégia é comprar a glicerina bruta das usinas, fazer a bi-destilação e vender para o mercado interno e externo. Ela passará a atuar em uma área até agora inédita: a terceirização do serviço de destilação da glicerina.

Problema virou realidade

A glicerina poderia ser um suprimento excelente para o mercado se o consumo interno não fosse de apenas 14.500 toneladas anuais, segundo dados do anuário de 2006 da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química), e se o glicerol vindo do biodiesel não fosse tão impuro.

Especialistas e pesquisadores da área química apontam a falta de planejamento do governo federal e dos próprios usineiros como a principal falha na questão do aproveitamento da glicerina excedente, pois o que antes era uma projeção tornou-se um problema real e urgente.

O professor do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Claudio Mota, faz um alerta. “Até o momento nenhum estudo sistemático foi feito para provar que é possível limpar 100% do etanol e outras impurezas de qualquer glicerina”. Ele acredita, no entanto, que basta fazer pesquisas para que isso seja possível. Já Salvador Ávila, analista de processos dos Senais Bahia e estrategista da COBIO (Co-produtos do Biodiesel), diz que isso depende da qualidade do processo para obtenção do biodiesel. “Se tiver muita água no processo, por exemplo, já afeta a qualidade da glicerina”, diz Ávila. “De todas as amostras que recebi de glicerina, 95% não se pode limpar completamente”, afirma.

A busca por soluções

Se, de um lado, há muitos usineiros que reclamam da glicerina, de outro há quem tenha cansado de esperar a solução cair do céu e partido para soluções criativas. Neste segundo grupo está a usina Granol, que até março de 2007 transformou o glicerol em fonte de energia por meio da queima em caldeiras. Nos últimos meses, no entanto, passou a adotar outra estratégia. Agora o excedente da produção está sendo comercializado para uma indústria farmacêutica nacional.

Antes da venda, no entanto, a Granol faz um primeiro processo de purificação de sua glicerina, apenas para separar o ácido graxo das 900 toneladas que produz por mês na unidade de Anápolis, em Goiás. Em Cachoeira do Sul, cuja produção começou em janeiro de 2008, o volume e o destino são os mesmos. O próximo passo da empresa é partir para a exportação. A intenção é avaliar a melhor remuneração e destinar a comercialização a esse mercado.

Decisão acertada, de acordo com o professor Cláudio Mota. “Queimar a glicerina é livrar-se do problema, mas não agrega nenhum valor econômico ao produto”, diz. Outra questão apontada pelo professor são os danos a médio prazo aos equipamentos das caldeiras, provocados pelas impurezas da glicerina. “Além disso, se não houver controle da temperatura e da quantidade de ar durante a queima, pode haver emissão de acroleína, composto químico altamente tóxico”.

Outra solução rápida encontrada pelas usinas é a exportação da glicerina bruta, apenas purificada de etanol e água. “Elas estão vendendo para os Estados Unidos e China ao preço de R$ 150 a tonelada da glicerina. Se ao menos a purificassem, poderiam vendê-la por R$ 1500. Mais uma vez servimos como colônia”, critica Ávila.

A opinião, no entanto, não é compartilhada pelo pesquisador Claudio Mota. “Não acredito que o público consumidor da glicerina se interesse por um produto tão puro”, diz. “É mais interessante comprar a glicerina bruta, bem mais barata”, completa.

Pesquisas para o futuro

Para os especialistas, o investimento de verbas públicas e privadas em pesquisas precisa ser muito maior, porque a situação é urgente. Não há escape imediato para as usinas nos atuais mercados consumidores de glicerina. A professora Thais Vieira, do Departamento de Agroindústria,
Alimentos e Nutrição da Universidade de São Paulo (USP), fez uma análise sobre as possibilidades do aproveitamento desse co-produto e
concluiu que a indústria farmacêutica ainda é interessante, pois está em crescimento no Brasil e também em outros países como a China.
Mas, segundo a pesquisadora, deve se saturar em breve.

A situação ficará ainda pior com a adoção do B5 em 2013, com uma oferta de 190 mil toneladas por ano de glicerina. “Como não há outro mercado a médio prazo, tem gente já tentando colocar glicerol em qualquer lugar que não atrapalhe
e não prejudique. Inclusive em ração animal e em substituição ao sorbitol, açúcar usado como adoçante e umectante em alimentos”, conta. Ela dará início a uma pesquisa de degradação da glicerina em contato com algum microorganismo no solo. “Podemos usar algum microorganismo que consiga
degradar a glicerina para produzir polímeros para plástico.”

O professor Claudio Mota, que tem projetos nessa linha, estuda a substituição de insumos petroquímicos por glicerina na produção de plástico
polipropileno. Com isso, o preço do material cairia, já que ficaria independente das variações da cotação internacional do combustível fóssil. “A glicerina pode tranquilamente substituir a matéria-prima do petróleo”, afirma. Nos Estados Unidos já há tecnologia desenvolvida para isso, mas
protegida por patentes. Por isso, os pesquisadores brasileiros têm que desenvolver novos processos para o mesmo fim.

Outra linha de pesquisa, desenvolvida por Donato Aranda, professor do Instituto de Química da UFRJ, em parceria com a Petrobras, e que também tem sido estudada em outros países, especialmente na Europa, é a transformação da glicerina (triálcool) em etanol para ser adicionado à gasolina. Há
um bom mercado para isso, já que o MTDE (metil-tbutil-éter), aditivo que era incorporado à gasolina, foi proibido nos Estados Unidos por ser
cancerígeno.

Nos outros países, a idéia mais imediata é transformar a glicerina em propileno glicol, para substituir o etileno glicol, um anticongelante usado, entre outras aplicações possíveis, para lavar aeronaves e que é poluidor. “A glicerina é o mercado do futuro. Empresas como a Solvay e a Dow Chemical têm comprado adiantado a produção de usinas que fazem um produto razoável, ainda que não seja o ideal”, diz Luiz Pereira Ramos.

Um trabalho da Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia, foi um dos vencedores em 2007 de um prêmio oferecido pela Petrobras para pesquisas em tecnologia. A pesquisadora do Grupo Bioenergia e Meio Ambiente da UESC, Sabine Robra, conseguiu produzir biogás a partir da degradação da glicerina bruta por meio de bactérias. A pesquisa começou em 2003, usando material de compostagem de um hotel, formado
por restos de comida, frutas e grama do campo de golfe. Juntaram a isso a glicerina de biodiesel e perceberam que ela tem alto teor de degradação em condições anaeróbicas (sem ar). Outra experiência foi com a glicerina bruta em um ambiente anaeróbico e úmido. No caso da pesquisa, o estrume de gado. As bactérias ali presentes quebram a glicerina para se alimentar até produzir o biogás. “Com isso conseguimos reduzir o uso de petróleo, de
lenha e de carvão vegetal”, diz Sabine. “E o que sobra da mistura glicerina e estrume ainda pode ser usado como biofertilizante”, completa.

Embora as iniciativas existam, o pesquisador Salvador Ávila opina que estamos muito atrás de outros países em relação à glicerina. “Os grupos
que potencialmente poderiam desenvolver catalisadores e soluções para a purificação mais eficaz da glicerina estão fazendo pesquisa para Itália,
Alemanha e França, exportando conhecimento”, conta. Segundo ele, isso acontece porque o governo brasileiro tem dado subvenção apenas à indústria, não aos pesquisadores. “É claro que há gente competente trabalhando no Brasil, mas com os meios produtivos afastados dos grupos de pesquisa é difícil dar certo.” De qualquer forma, o que se sabe é que a preocupação existe e muita gente já está envolvida. Resta agora esperar que as pesquisas saiam dos laboratórios e ganhem, de fato, um lugar nas indústrias.

Um só produto, mas com muitos nomes

Nem toda glicerina produzida a partir de biodiesel tem as mesmas características. O resultado final depende de vários fatores, entre eles a oleoginosa usada, o catalisador e o álcool (metanol ou etanol). Para ter maior valor de mercado, os especialistas também fazem a chamada destilação da glicerina, ou ainda a biodestilação. Hoje há quatro tipos principais de glicerina que podem ser obtidas:
Bruta – contém muito catalisador da transesterificação, bastante metanol ou etanol, água, ácidos graxos e sabões.
Loira – a bruta após receber tratamento ácido, seguido de remoção dos ácidos graxos. Possui de 75 a 85% de glicerol. O restante é composto de sais, água e traços de metanol ou etanol.
Grau farmacêutico – é a loira após ser bidestilada a vácuo e tratada com absorventes. Tem mais de 99% de pureza.
Grau alimentício (food grade) - completamente isenta de metanol, pode ser obtida pela hidrólise de óleos/gorduras.

O processo em laboratório

Para obter o biodiesel é feita uma mistura na proporção de nove partes de óleo vegetal ou gordura animal para uma de álcool (etanol ou metanol). O processo de transesterificação gera mil litros de biodiesel (um metro cúbido) e 100 litros de glicerina. Por ter densidade menor, o biodiesel fica por cima e pode ser retirado facilmente. A glicerina carrega com ela álcool, sabão, água e catalisador, impurezas que devem ser removidas na purificação (ou destilação) e que variam conforme o tipo de óleo vegetal utilizado. Isso deve ser levado em conta no processo de purificação.

A glicerina em números

• Caso o Brasil atinja a meta de produzir 760 milhões de litros de biodiesel em 2008 serão geradas como coproduto 76 mil toneladas de glicerina;
• A expectativa é de que, em 2013, quando o Brasil pretende adotar o B5, a produção de glicerina salte para 190 mil toneladas por ano;
• O volume de glicerina excedente no mundo todo é de 700 mil toneladas por ano;
• No final do ano de 2006, a glicerina, que até então custava R$ 4, caiu a R$ 1,40. Os preços foram influenciados pela entrada do biodiesel no país.