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A união faz o biodiesel


Edição de Dez / Jan 2008 - 14 dez 2007 - 09:40 - Última atualização em: 17 dez 2012 - 10:12
O mercado do combustível verde oferece oportunidades de negócio para cerca de 4.500 cooperativas brasileiras, mas para a maioria falta descobrir como entrar nessa conta.

Raquel Marçal, de Curitiba

Um setor que deve faturar pelo menos US$ 1 bilhão em 2008 está à espera das cooperativas brasileiras. O valor, que corresponde à demanda de biodiesel no próximo ano (760 milhões de litros), tem potencial para ultrapassar US$ 2,6 bilhões em 2013, ano em que deve entrar em vigor a obrigatoriedade da mistura de 5% de biodiesel ao diesel de petróleo. Os números são até conservadores, já que deixam de fora o lucrativo comércio de subprodutos do biocombustível – como a torta de soja – mas dão uma idéia do quanto o mercado pode ser atrativo para o cooperativismo. O segmento, no entanto, ainda tenta descobrir como entrar nesse filão.

No país, as 7.603 cooperativas filiadas à Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) movimentam R$ 68 bilhões por ano. Cerca de 4.500 delas têm condições de encontrar no biodiesel oportunidades de negócios para engordar essa cifra. “Há espaço para cooperativas agropecuárias, de transporte, de produção e de trabalho”, afirma Evandro Scheid Ninaut, gerente de apoio ao desenvolvimento de mercados da OCB.

No final de outubro de 2007, a entidade promoveu, no Rio de Janeiro, o terceiro seminário para discutir a inserção das cooperativas na cadeia do biodiesel. O evento de dois dias atraiu 120 participantes interessados em seguir os passos de quatro filiadas que já trilham o caminho do combustível verde: a Cooperativa Mercantil e Industrial dos Produtores de Sorriso (Cooami), a Cooperativa Mercantil eIndustrial dos Produtores Luverdenses (Cooperbio, de Lucas do Rio Verde), a Cooperativa Agroindustrial do Pareceis (Cooapar) e a Cooperativa de Biocombustíveis de Cuiabá (Cooperbio), todas do Mato Grosso. As duas primeiras, inclusive, já possuem autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para fabricar 3 milhões de litros de biodiesel por ano.

A maior delas, no entanto, ainda espera o “sim” da agência. A Cooperbio de Cuiabá, que está em fase de testes e deve inaugurar uma usina em janeiro de 2008, na capital mato-grossense, é a terceira maior fábrica de biodiesel do estado. Com capacidade para produzir 110 milhões de litros por ano, fica atrás apenas da ADM (169,5 milhões de litros/ano) e da Fiagril (123 milhões de litros/ano). Para consumo próprio, no entanto, a usina será a maior do país.

Economia

O combustível, obtido a partir da soja e do algodão produzidos pelos 260 cooperados, será destinado exclusivamente às máquinas, tratores e colhedeiras das fazendas. “Com o biodiesel feito do óleo de soja teremos uma economia de 25% no custo do combustível e com o biodiesel feito de algodão a economia será de 40%”, calcula João Luiz Ribas Pessa, presidente da cooperativa.

Há alguns anos, os gastos com diesel nas plantações da região correspondiam a 4% dos custos, mas com a alta do petróleo, cujo preço bate recorde atrás de recorde, essa porcentagem chegou a 10%. “Queremos ver se baixamos isso para 4% a 6% de novo”, espera Pessa.

Como mostram os exemplos das quatro cooperativas, o terreno está especialmente fértil para o ramo agropecuário do cooperativismo, responsável por 6% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e 35% do PIB agrícola. Na posição de “donas” da matéria-prima – que representa 80% dos custos de produção de uma usina – as cooperativas podem lucrar fornecendo óleo ou grãos para as indústrias ou instalando usinas próprias, seja para vender o biodiesel a distribuidoras ou fornecer aos cooperados a fim de cortar gastos com combustível nas lavouras.

A fabricação para consumo próprio oferece vantagens importantes. “Como é o cooperado que produz a matéria-prima, e como é ele que precisa do produto, não é necessário ir ao mercado para buscar matéria-prima ou procurar consumidor”, diz João Luiz Ribas Pessa, da Cooperbio de Cuiabá.

Produtores que utilizam o girassol no Centro-Oeste podem chegar a uma economia ainda mais significativa. Na região, o custo médio de produção do girassol é R$ 500 por hectare, com rendimento de 1.800 quilos por hectare de grãos.

A quantidade é suficiente para produzir 504 litros de biodiesel, ao custo de R$ 0,99 por litro. O custo é 50% menor do que o preço do diesel nos postos do Mato Grosso.

Além disso, desde que produza somente para si, a cooperativa fica livre de pagar PIS/Pasep e a Contribuição Social para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) – impostos que incidem apenas sobre a venda do combustível, conforme estabelecido na lei nº 11.116, de 18 de maio de 2005. Outra boa notícia vem da ANP. Hoje, a resolução nº 41, de 24 de novembro de 2004, obriga as cooperativas a pedir autorização para produzir biodiesel, como qualquer outra empresa. Mas a agência estuda a possibilidade de isentar de autorização as cooperativas que produzam o combustível para consumo próprio.

Incentivo fiscal

Outro ponto a favor das cooperativas agropecuárias são os esforços do governo federal para a inclusão da agricultura familiar na cadeia do biodiesel, como ilustra a criação do Selo Social. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), atualmente 91 mil famílias estão integradas ao sistema produtivo do biodiesel e a meta é chegar a 350 mil famílias até 2010. Grande parte delas vai estar organizada em pólos de produção de oleaginosas próximos a usinas em todo o país – até agora 30 pólos foram implantados. O modelo dos pólos, criado pelo MDA, pretende garantir a inclusão dos agricultores familiares e o suprimento das indústrias. “Os pólos podem ser o berço de inúmeras cooperativas na área de atuação do biodiesel. Onde tem indústria, tem de ter arranjo produtivo de matéria-prima”, afirma Arnoldo de Campos, coordenador geral de agregação de valor e renda do MDA.

“Os agricultores familiares têm diante de si um mercado que não pára de crescer”, afirmou José Honório Accarini, representante do Ministério da Casa Civil no Grupo Gestor do Biodiesel, durante o seminário da OCB, no Rio. “O papel das cooperativas é organizar os agricultores familiares”, completou. Organizar a produção de matérias-primas, porém, é apenas o começo caso as cooperativas ambicionem erguer uma indústria. “A capacitação em gestão é o maior desafio para as cooperativas entrarem no processo industrial da cadeia do biodiesel”, alerta Arnoldo de Campos.

É essa capacidade, por exemplo, que será analisada pelas instituições bancárias que oferecem linhas de crédito para financiar usinas. Os bancos e outras instituições financiadoras só liberam verbas para projetos consistentes, ou seja, que provem a viabilidade técnica e econômica da futura indústria.

Mas essa tarefa pode ser complicada, como bem sabe Ricardo Henrique Albuquerque, presidente da Cooperativa Agroindustrial do Compartimento da Borborema (Coopaib), com sede em Pocinhos (PB). Albuquerque, um oficial da Marinha aposentado, batalha recursos junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, para instalar uma usina na cidade. Seu primeiro pedido de financiamento foi rejeitado, mas, determinado, ele foi atrás de parceiros como a Embrapa, a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a OCB e a Universidade de Brasília e obteve ajuda para elaborar um segundo projeto, que será re-encaminhado à Finep em breve.

Valor agregado

Albuquerque não está feliz com o atual destino da mamona, plantada com sementes desenvolvidas pela Embrapa em 3.500 hectares de Pocinhos, que segundo ele tem 62% dos 15.600 habitantes abaixo da linha de pobreza. A oleaginosa é vendida em forma de grão a indústrias da Bahia e de São Paulo. “Hoje não estamos agregando valor ao nosso produto”, lamenta. A idéia é construir uma usina com capacidade de produção de 1,2 milhão de litros de biodiesel por ano, não só a partir da mamona como também do caroço do algodão, outra cultura forte no municí-pio. A usina, segundo ele, funcionará também como laboratório para estudantes de engenharia da UFCG e de escola para treinamento de técnicos que vão tocar a cooperativa no futuro.

Com a experiência de quem conhece bem as complicações do caminho, Albuquerque dá conselhos às cooperativas que almejam o sucesso no biodiesel. “Façam seus planos de negócio e busquem parcerias em universidades e órgãos de pesquisa. Sem pesquisa não se vai a lugar algum”, diz. Outra recomendação é freqüentar seminários e congressos do setor. “Participar desses eventos é uma oportunidade de conversar com os órgãos governamentais e conhecer novas tecnologias de produção”, explica.

Para Márcio Lopes de Freitas, presidente da OCB, o biodiesel é sem dúvida uma chance e tanto de se criar renda alternativa para pequenos e médios cooperados, mas o governo precisa empenhar-se mais para ajudá-los. “Incentivar a produção a gente sabe, o que está faltando são políticas públicas para dar segurança ao produtor. O Selo Social é útil, bem-vindo, mas não é suficiente se o agricultor não tem linha de crédito”, critica.

Na opinião dele, com mais apoio do Estado e competência administrativa, as cooperativas podem, sim, ter sucesso na cadeia do biodiesel e, quem sabe, levantar grandes usinas. “Não tem que pensar pequeno, não”, incentiva.

Empreendedorismo

Quando o preço do óleo diesel começou a pesar demais no bolso dos produtores de algodão do Mato Grosso, eles resolveram agir para baratear os custos. Reunidos na Associação Mato- grossense dos Produtores de Algodão, sediada em Cuiabá, encomendaram a uma empresa especializada um estudo de viabilidade técnica e econômica para instalar uma usina de biodiesel. “Fizemos uma análise de dimensionamento de fábricas com capacidade de produzir 50 milhões e 100 milhões de litros por ano. O estudo mostrou que com 110 milhões de litros ao ano o custo-benefício era maior”, conta João Luiz Ribas Pessa, presidente da Cooperbio de Cuiabá.

Com os dados na mão, a Ampa incentivou seus associados a formar uma cooperativa para construir a usina. O passo seguinte foi convidar fabricantes de equipamentos e instalações a apresentarem suas propostas, o que incluía a tecnologia a ser adotada. “A tecnologia é a principal definição do processo industrial”, afirma Pessa. A escolhida foi uma tecnologia 100% nacional, desenvolvida pela Unicamp, que permite usar tanto o álcool metílico quanto o etílico. “O catalisador que será utilizado está disponível no Brasil, não precisamos importar”, diz Pessa.

Na Cooperbio, cada cooperado terá uma cota de biodiesel proporcional ao consumo de combustível em sua fazenda e deve entregar a quantidade de matéria-prima necessária para produzir o volume correspondente. “A cada mil litros de diesel que ele consome, ele pode se habilitar a uma cota da cooperativa”, explica Pessa.

A cooperativa também contrata esmagadoras para que os produtores que não possuam a máquina possam extrair o óleo do caroço de algodão – a usina processará somente o óleo da planta.

No caso da soja, a outra matéria- -prima da indústria, o cooperado pode entregar o óleo ou o grão. Como parte dos produtores entrega o grão da soja, a usina também obterá farelo de soja e glicerina, subprodutos que serão vendidos.

Em fase de testes, a cooperativa apenas aguarda a autorização da ANP para começar a produzir. Quando as máquinas começarem a funcionar para valer, a usina, com capacidade para produzir 110 milhões de litros por ano, estará entre as maiores do país.