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Na rota do biodiesel


Edição de Dez / Jan 2008 - 14 dez 2007 - 09:33 - Última atualização em: 17 dez 2012 - 10:12
Fiagril investe R$37 milhões em uma usina que aposta na flexibilidade do uso de matérias-primas. O empreendimento, no Mato Grosso, tem capacidade inicial de produção de 120 milhões de litros de combustível verde por ano.

Fernanda Guirra, de Goiânia

Oferta abundante de matéria- -prima, uma medida caprichada de investimentos e uma dose de espírito empreendedor costumam ser importantes ingredientes de uma receita de sucesso no mundo do agronegócio. E se o produto final for resultado de um processo que levou em conta a preocupação com o meio ambiente, melhor ainda. Em Lucas do Rio Verde, no norte de Mato Grosso, o Grupo Fiagril decidiu seguir essa receita à risca ao diversificar as atividades apostando na produção de biodiesel.

“É o combustível do futuro, com certeza. O mundo inteiro tem falado em preservação ambiental, em energias menos poluentes. É uma alternativa com um potencial imenso”, declara o gerente administrativo Francisco Flores. Para dar solidez ao negócio e proteger a empresa das oscilações de preços das matérias-primas, o Grupo Fiagril decidiu escolher uma planta industrial que pudesse trabalhar tanto com oleaginosas como a soja e o caroço do algodão, quanto com sebo bovino. “Essa flexibilidade na hora de escolher a matéria-prima utilizada torna o processo muito mais viável economicamente”, ressalta.

A inauguração da usina aconteceu em novembro de 2007 e já no dia seguinte a planta começou a produzir. “A região tem poucas indústrias”, conta Flores. Por outro lado, tem abundância de matéria- -prima. A cidade de Sorriso, que fica a 50 quilômetros de Lucas do Rio Verde, é o município que mais produz soja no mundo. Pouca indústria e muita matéria-prima: a equação poderia já estar perfeita para a usina dar certo. Mas há ainda mais um componente que impulsiona o sucesso do biodiesel: o alto preço do óleo diesel no local. “Estamos em uma área que possui 90% de atividades agrícolas e, por outro lado, tem o óleo diesel mais caro do país”, analisa Flores.

Valor agregado

Com o objetivo de agregar valor à produção primária local, o grupo investiu R$ 37 milhões na construção da usina, que teve início em dezembro de 2006. Cerca de 80% dos recursos necessários foram financiados com o apoio do Banco Nacional de DesenvolvimentoEconômico e Social (BNDES). A previsão é de que, no início, a usina empregue 50 pessoas. Uma equipe nada pequena, já que, segundo Flores, o sistema é totalmente automatizado.

A partir de 1º de janeiro de 2008, entra em vigor a obrigatoriedade da adição de 2% de biodiesel, o chamado B2, ao diesel de petróleo vendido no Brasil. Em 2013, esse percentual deve chegar a 5%, mas o grupo com sede em Lucas do Rio Verde tem sonhos mais altos. “Torcemos para que o governo passe logo para o B10, ou seja, chegue à mistura de 10% de biodiesel ao óleo diesel”, diz Francisco Flores. A usina da Fiagril começa a funcionar com a capacidade de produção em torno de 120 milhões de litros de biodiesel por ano, podendo alcançar até 135 milhões de litros anuais. Em um primeiro momento, a Fiagril pretende vender a produção para a Petrobras, mas os planos futuros incluem a comercialização também para produtores rurais da região.

Cuidado ambiental

A tecnologia utilizada na fábrica está sendo instalada pela primeira vez no país e foi desenvolvida e patenteada pela Westfalia Separator do Brasil (WS), empresa que pertence ao grupo alemão GEA. A unidade vai trabalhar com o sistema conhecido como Neutralização Alcóolica, que não gera resíduos indesejáveis na produção de biodiesel, como a borra - que reduz o rendimento do produto final - e a água de lavagem - que precisa de tratamento especial para não ser poluente. “Escolhemos o método mais amigável ao meio ambiente”, diz Francisco Flores.

Segundo a direção da Fiagril, a opção pela planta ocorreu pelo fato de o processo de produção ser realizado por meio da separação de biodiesel e glicerina por centrífugas, o que permite uma operação ágil e eficiente, com um controle de qualidade mais rigoroso. Além disso, a usina possui um sistema integrado chamado CIP (Cleaning in Place, na sigla em inglês), que dispensa que o equipamento seja desmontado na hora da limpeza.

Quando tudo começou Em 1985, quando Marino José Franz, fundador do Grupo Fiagril, deixou a terra natal, em Santa Ca-tarina, e decidiu desbravar o Centro-Oeste do país, começava uma trajetória de sucesso que sempre teve como pano de fundo a agricultura. Depois de administrar fazendas próximas, o primeiro negócio foi uma loja de distribuição de produtos químicos, aberta em 1988.

Anos depois, em 1997, firmou sociedade com o paranaense Miguel Vaz Ribeiro, que atuava como gerente de unidades armazenadoras na região. Surgia, assim, a Fiagril Armazéns Gerais e, logo em seguida, a Fiagril Agromercantil. A soma das experiências de ambos foi decisiva para o crescimento do grupo, que atua no comércio de insumos agrícolas, presta assistência técnica a produtores, possui unidades armazenadoras e, agora, ingressa no setor de biodiesel. Além da sede, em Lucas do Rio Verde, a Fiagril possui lojas nas cidades mato-grossenses de Sorriso, Sinop e Ipiranga do Norte.

Em busca de novas oportunidades de expansão, em julho de 2006, a empresa participou do quarto leilão público de compra de biodiesel, feito pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Na assinatura do contrato, assumiu o compromisso de fornecer à estatal cerca de 27,5 milhões de litros do biocombustível ainda em 2007. No entanto, como houve demora na entrega de algumas máquinas necessárias para a fábrica, a conclusão do processo de negociação sofreu um atraso e dificilmente a empresa vai liberar todo o volume contratado até o final de dezembro.

“A partir do leilão, ficamos com um compromisso firmado e faremos o possível para entregar o máximo de biodiesel ainda em 2007. Em 2008, imaginamos que não devem ocorrer atrasos”, explica Francisco Flores. Na primeira fase, as matérias-primas utilizadas na produção, e que já estão nos tanques da fábrica, são os óleos de soja e de caroço de algodão. Flores destaca que, mesmo com o alto preço atual da soja, foi possível utilizar a oleaginosa no processo porque a Fiagril fez compra antecipada do grão, com preço “hedgeado” (protegido por contratos futuros).

Pelos cálculos da empresa, 100 quilos de soja têm rendido aproximadamente 18 litros de óleo e cerca de 17,5 litros de biodiesel. Para a comercialização da glicerina, que é um subproduto do processo de obtenção de biodiesel, existem, segundo ele, algumas possibilidades de negócio sendo estudadas, mas nenhum acordo foi fechado.

Biodiesel no Brasil

A Fiagril assumiu o posto de 42ª usina autorizada pela ANP em setembro e já possui o Selo Social, concedido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) às usinas que utilizam produção da agricultura familiar no processo de obtenção de biodiesel. Segundo a direção, o grupo tem campos com experimentos de outras oleaginosas e a intenção é incentivar agricultores familiares da região a ampliar os tipos de cultura.

“Sabemos que o fato de estarmos em uma região com grande oferta de óleos vegetais e gordura animal e de termos vínculos com pequenos produtores são vantagens competitivas da Fiagril”, afirma o gerente administrativo do grupo, lembrando que não estão descartadas as possibilidades de novos investimentos. De acordo com ele, a empresa vai aguardar o posicionamento do mercado nos próximos meses e avaliar a aceitação do produto. Se houver demanda, novas unidades poderão ser construídas. E mais um passo será dado para que a Fiagril consolide sua participação no mercado do biodiesel.