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Trabalho em família


Edição de Dez / Jan 2008 - 14 dez 2007 - 16:09 - Última atualização em: 17 dez 2012 - 10:12
Nesta entrevista, o especialista em Recursos Naturais e Desenvolvimento Econômico Sergio Sepúlveda comenta a quantas anda a agricultura familiar, responsável pela produção de oleaginosas para o biodiesel no Brasil. E diz que, para se tornar competitivo, o produtor rural deve participar de forma ativa de toda a cadeia de produção do biocombustível.

Luciana Zenti, de Curitiba

O Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) é um organismo internacional com sede em vários países e que trabalha para desenvolver a agricultura nos locais onde atua – principalmente nas Américas e no Caribe. Faz parte do Sistema Interamericano, da mesma forma que outras importantes instituições como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Completou, neste ano, 65 anos de existência. E, há pelo menos 20, conta com o trabalho do chileno Sergio Sepúlveda, atualmente diretor de Desenvolvimento Sustentável do IICA.

No Brasil desde 1964, o IICA fez parte da criação da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e do Instituto Brasileiro de Reforma Agrária (IBRA) que, alguns anos mais tarde, daria origem ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Com o surgimento do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, o IICA tem agora outro desafio. O governo brasileiro ampara a produção do biocombustível na agricultura familiar, mas falta aos produtores rurais tecnologia e capacidade técnica. Como, então, resolver esses problemas para garantir que o biodiesel tenha o futuro promissor que todos esperam? A Revista BiodieselBR foi atrás das respostas.

Sergio Sepúlveda já viajou o mundo como consultor em desenvolvimento econômico e gestão de recursos naturais e defende que, no Brasil, os agricultores familiares passem a atuar em toda a cadeia de produção do biodiesel. Na entrevista a seguir, ele comenta o andamento da agricultura familiar no país e aponta algumas possíveis soluções.

Revista BiodieselBR - A agricultura familiar tem condições de produzir no Brasil matéria-prima em grande escala e com viabilidade econômica?
Sergio Sepúlveda - Para chegar a uma resposta precisamos analisar duas opções complementares. Por um lado, sabemos que os agricultores familiares têm uma necessidade de se adequar à escala da tecnologia de transformação da matériaprima, que é a agroindústria rural.Mas, de outro lado, existe o imperativo de que esse trabalhador promova modos associativos de produção. Acredito que se for adotada uma combinação de ambos, sem dúvida a agricultura familiar terá as condições necessárias para produzir matéria-prima em grande escala, competitiva e, também, de maneira social e ambientalmente responsável.

Revista BiodieselBR - Como é possível chegar lá?
Sergio Sepúlveda - As ações requerem um grande esforço dos setores público e privado além, é claro, das organizações que congregam agricultores familiares. É preciso ter em mente que qualquer proposta para fomentar o trabalho dos pequenos produtores agrícolas só será viável caso a idéia se transforme em um projeto nacional legitimado pelo mais alto nível político. Temos uma oportunidade extraordinária para instituir uma estratégia capaz de diminuir os desníveis sociais e as assimetrias regionais. Contudo, os benefícios para a agricultura familiar dependem do grau da participação desses produtores em todos os elos da cadeia produtiva. Eles não devem, de maneira alguma, limitar- se à produção primária e ao fornecimento de matéria-prima. Isso porque a maior percentagem de lucros é gerada na transformação da oleaginosa e na distribuição do biocombustível.

Revista BiodieselBR - De que forma os agricultores familiares podem participar de forma mais ativa de todo o processo de biodiesel?
Sergio Sepúlveda - Para que os ganhos da agricultura familiar sejam eqüitativos é necessário que os pequenos produtores sejam proprietários ou participem diretamente dos processos de gestão da agroindústria. E, se possível, também dos processos de distribuição. Isso pode ser feito por meio de organizações produtivas e associações de produtores. Mas insisto no óbvio: a empreitada é complexa e de longo prazo. Portanto as soluções devem ser concebidas como parcerias múltiplas, na quais participam as organizações da agricultura familiar, a indústria, a academia, centros de pesquisa aplicada e as organizações da sociedade civil.

Revista BiodieselBR - O governo brasileiro criou o Selo Social para incentivar a agricultura familiar. Isso é suficiente para fazer deslanchar o programa de biodiesel?
Sergio Sepúlveda - A iniciativa do governo implica em uma transformação produtiva do biodiesel de grandes proporções. Dessa forma, estão sendo alteradas as estruturas sociais, produtivas, econômicas e políticas da agricultura familiar. Nessa perspectiva, o Selo Social é apenas um dos componentes de uma complexa matriz de políticas para o desenvolvimento sustentável dos territórios rurais. Esse instrumento poderá ser útil se, ao mesmo tempo, outras políticas vinculadas a fatores sociais, ambientais e tecnológicos também forem ativadas. De qualquer forma, acredito que o enfoque que está sendo dado para o desenvolvimento sustentável dos territórios rurais é fundamental para viabilizar a produção de biodiesel. De fato, a produção de biocombustivel pela agricultura familiar pode agir como um motor estratégico em uma matriz territorial de desenvolvimento.

Revista BiodieselBR - Produtores brasileiros questionam o papel da agricultura familiar no programa de biodiesel, pois muito é gasto em treinamento e assistência para esses agricultores...
Sergio Sepúlveda - É preciso entender que o tipo de desenvolvimento com inclusão social que o governo brasileiro está promovendo requer tempo para amadurecer e se consolidar. Essa é uma proposta definitivamente de longo prazo. Não se deve esperar que as falências estruturais e as tendências históricas excludentes possam ser revertidas no curto prazo. Vale lembrar ainda que o bem sucedido programa do álcool (Proálcool) passou por diversas etapas durante cinco décadas – período em que foi subsidiado até atingir a consolidação. A contribuição pública viabilizou a produção de cana-de-açúcar e a agroindústria de transformação. Ao mesmo tempo facilitou a distribuição e ajudou a criar demanda com incentivos para a compra de carros a álcool. E vemos que esse processo de meio século, com total apoio público, agora é um sucesso mundial.

Revista BiodieselBR - Essa experiência com o álcool deve dar respaldo ao programa de biodiesel?
Sergio Sepúlveda - Sim. Acredito firmemente que o engajamento da agricultura familiar na produção de biodiesel deve ser apoiado em uma proporção e durante um período de tempo similares. Da mesma forma que inúmeros outros produtos - cujas matérias-primas vêm da agricultura -, o biodiesel gerará impactos positivos e negativos. Isso vai depender do marco jurídico, das políticas e instituições de cada país, bem como das condições climáticas e dos modos de produção usados.

Revista BiodieselBR - O senhor já mencionou em algumas palestras que a produção de matéria-prima deve preferir sistemas integrados de produção. Como seriam esses sistemas?
Sergio Sepúlveda - O biodiesel é tido como um possível motor de desenvolvimento para o setor rural e a agricultura familiar. Mas essa defesa deve ser s u s t ent a d a em princípios simples como a adequação do tipo de cultivo e das tecnologias à lógica da agricultura familiar. Também devem ser levadas em conta as condições ambientais das áreas rurais e a promoção de escalas de produção, considerando as características sociais da agricultura familiar e a situação econômica de cada empresa. Por fim, levando-se em conta todos esses fatores, é preciso promover aqueles cultivos cujas características de produção, tradição cultural e potencial de uso sejam compatíveis com a lógica da agricultura familiar.

Revista BiodieselBR - A agricultura familiar estaria restrita à produção desses cultivos?
Sergio Sepúlveda - Não. Os sistemas integrados de produção podem variar, mas estão sujeitos às características de cada lugar. Mas estamos falando de cultivos que misturam a produção de alimentos (como é o caso do amendoim) com alguma cultura para produção de biodiesel. A Embrapa tem trabalhado nessas opções por décadas e acredito que está prestes a continuar avançando nas pesquisas. Portanto estamos propondo uma adequação em mão dupla. A agricultura familiar deve se preparar para gerir unidades de escalas maiores e mais complexas. Mas, ao mesmo tempo, os processos de transformação, a escala, as tecnologias e a distribuição tendem a se adaptar à agricultura familiar.

Revista BiodieselBR - Em um país como o Brasil, onde a área agrícola ociosa é muito grande, pode existir concorrência entre alimento e energia?
Sergio Sepúlveda - Acredito que não existe perigo de uma competição, em curto prazo, entre a produção de alimentos e a de biodiesel. No entanto, é difícil avaliar os possíveis impactos na produção de alimentos no médio e longo prazo caso haja uma expansão rápida da produção de matéria-prima para o biodiesel.

Revista BiodieselBR E no restante do mundo, teremos um aumento inevitável nos preços das matérias-primas por causa dessa briga?
Sergio Sepúlveda - Parece lógico que os preços dos alimentos possam sofrer um aumento significativo. De fato, essa tendência já começou a se observar nos últimos anos. Em grande parte é resultado da globalização e do aumento vertiginoso da demanda por alimentos em outros países, especialmente a China e a Índia. Isso pouco ou nada tem a ver com o programa de produção de biodiesel no Brasil. Porém, essa observação nos lembra que é impossível separar processos tão complexos como a produção de energia e a de comida. Os especialistas concordam que uma das principais causas da escalada de preços dos alimentos é a demanda acentuada de matéria-prima para o etanol e o biodiesel – como milho, cereais, palma, açúcar e soja. A necessidade desses produtos tem induzido a altas nos preços, incrementando os custos de produção de derivados como carne, lácteos, aves, ovos e bebidas alcoólicas. Obviamente, os aumentos nos custos de produção chegarão aos consumidores.

Revista BiodieselBR - O senhor acredita que a produção de biocombustíveis é compatível com a sustentabilidade ambiental?
Sergio Sepúlveda - A maioria dos cultivos para gerar biodiesel exige uma especialização e uma escala de produção que poderia afetar os balanços da flora e da fauna local com o passar do tempo. Além disso, o aumento de áreas plantadas e a expansão de monocultivos poderiam gerar uma pressão adicional sobre a fronteira agrícola, bem como motivar a substituição de áreas de cultivos e gado por matérias-primas para biodiesel. Todas essas situações podem provocar impactos ambientais negativos e, por isso, é preciso adotar medidas para evitar esses problemas. Nesse sentido, é fundamental ressaltar os benefícios dos sistemas integrados de produção que incorporam cultivos intercalados e que são típicos da agricultura familiar.

Revista BiodieselBR - Os biocombustíveis têm gerado uma euforia na América Latina e no Caribe. Como a produção de biodiesel tem sido tratada nesses locais?
Sergio Sepúlveda - Em outros países da América Latina está sendo gerado um movimento importante na mesma direção do Brasil. Deve-se lembrar que a produção de energia de fontes múltiplas, e em particular de bioenergia, é um tema antigo que tem renascido graças aos altos preços do petróleo. Nesse contexto, estão recuperando experiências que estavam arquivadas por causa da inviabilidade econômica. Do mesmo modo que recuperam técnicas de produção tradicionais que apontam a fontes de energia provenientes da agricultura. Muitos desses países estão observando cuidadosamente a experiência brasileira como referência de aprendizado.