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Fome de mercado


Edição de Out / Nov 2007 - 09 out 2007 - 14:58 - Última atualização em: 18 dez 2012 - 15:26
A Bioverde quer dobrar a capacidade de produção em um ano, investir em pesquisa e trabalhar junto a cooperativas agrícolas

Renata Costa, de São Paulo

A Bioverde Biocombustíveis comemorou aniversário de um ano em setembro. O tempo de trajetória é curto, mas a vontade de crescer é grande e os diretores da empresa têm como meta conquistar logo seu lugar no mercado nacional.

A planta onde está localizada a usina foi comprada pronta. Os investidores, da Distribuidora Petrosul, não quiseram perder um ano e meio construindo uma nova usina. Em Taubaté, onde fica a Bioverde, a apenas 130 quilômetros da capital paulista, funcionava até setembro de 2006 uma unidade da Elekeiroz – empresa petroquímica que produzia plastificantes por reação de esterificação. O empreendimento foi aproveitado e, no total, para colocar em produção a Bioverde, foram aplicados mais de 30 milhões de dólares.

O segundo passo urgente foi a mudança de nome para tentar separar as imagens da nova empresa e da Petrosul - à qual permanece sendo o braço de produção de biocombustível. “Felizmente temos capacidade de produção muito maior do que a necessidade da Petrosul, por isso a desvinculação”, conta José Pereira Junior, gerente de projetos da Bioverde. “Temos contrato com ela, mas não somos produtores exclusivos desta distribuidora”, completa. Inaugurada como Biopetrosul, a empresa mudou a razão social para Bioverde Indústria e Comércio de Biocombustíveis Ltda.

Crescimento localizado

A idéia, segundo Pereira Junior, é focalizar a atenção da Bioverde para o abastecimento na região Sudeste. Hoje, a demanda do Brasil por diesel é de 42 milhões de metros cúbicos anuais. A região Sudeste consome 44% deste total. Com a adoção do B2, provavelmente não faltarão clientes para a Bioverde. Hoje a realidade é outra. Embora a empresa já tenha feito muitos contatos para o fornecimento de biodiesel, por enquanto não há nenhum contrato – público – fechado. “O mercadoestá muito fraco para o biodiesel. Não há gente querendo comprar”, afirma José.

A culpa pela baixa procura seria, segundo Pereira Junior, da soja – uma matéria-prima ainda muito cara. Outra questão que prejudica o mercado de biodiesel é a falta de interesse de algumas distribuidoras. “Algumas não distribuem biodiesel por puro preconceito”, diz.

Para baixar os custos e ter alternativas no que diz respeito à matéria- prima, a usina da Bioverde funciona com linhas independentes de reação para esterificação e transesterificação. São cinco reatores em batelada que aceitam qualquer tipo de óleo. Atualmente, a rota utilizada é a metílica, embora a etílica também seja possível.

As vantagens da flexibilidade no uso de matérias-primas é poder atender às especificações dos clientes, aumentando a variedade de demandas possíveis e também manter a independência em um hipotético momento de crise. “Se um produto estiver muito caro ou em falta no mercado, podemos usar outro sem precisar de qualquer adaptação tecnológica”, conta Pereira Junior. O sebo bovino, inicialmente previsto para ter uma participação de 20% na produção de biodiesel da Bioverde, pode ser uma das alternativas ao óleo vegetal. Os frigoríficos da região já foram sondados como possíveis fornecedores. Mas ainda não há nenhum contrato assinado.

Participação social

Embora hoje o trabalho da Bioverde seja exclusivamente de trans-formação da matéria-prima em biocombustível – “na usina em Taubaté só entra o óleo processado” – Pereira Junior, como gerente de projetos, está à frente de uma série de possíveis braços de atuação da empresa.

Uma das possíveis frentes é o Núcleo de Agronegócios, que está prestes a iniciar seus trabalhos. Por meio dele, a empresa incentivará a formação de cooperativas rurais para a produção de novas oleaginosas para serem usadas como matéria- prima. “Pensamos em implantar o programa em um raio de até 200 quilômetros de Taubaté”, explica Pereira Junior. “Pode ser nos estados de São Paulo, Minas Gerais ou Rio de Janeiro”, arremata.

A empresa pensa também em fomentar cooperativas para o reaproveitamento de óleo residual, como o óleo de cozinha reciclado. “É possível que financiemos projetos envolvendo pinhão manso, mas ainda estamos estudando para ver se o cultivo é viável na região”, afirma Pereira Junior.

Outra opção é investir em estudos e pesquisas de novas oleaginosas originárias da Mata Atlântica e que poderiam ser cultivadas facilmente na região do Vale do Paraíba, onde está localizada a cidade de Taubaté, em São Paulo.

O apoio e aproximação da empresa com pesquisas desenvolvidas em universidades ainda é tímido. Existe, mas não formalmente. A intenção da Bioverde, porém, prevê firmar parcerias com instituições de pesquisa da região.

A capacidade da usina da Bioverde hoje é de 85 milhões de litros por ano. A meta é, em mais um ano, chegar a 200 milhões. Com o volume, poderia ficar complicado manter o Selo Combustível Social. Mas a empresa está preparada: “Para este ano não há problema, pois estamos adequados às normas exigidas. Ao chegar aos 200 milhões de litros já estaremos com nosso Núcleo de Agronegócios bem estruturado para atender às normas do Selo Combustível Social”.