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O caminho é longo...


Edição de Out / Nov 2007 - 09 out 2007 - 10:52 - Última atualização em: 18 dez 2012 - 15:26
...e cheio de pedras. É o que diz o Ministro da Agricultura, da Pecuária e do Abastecimento Reinhold Stephanes sobre a expansão do biodiesel no Brasil. Nesta entrevista exclusiva à Revista Biodieselbr ele fala sobre os planos para o zoneamento, a antecipação do B5 e a expectativa de que o pinhão manso se estabeleça como a matéria-prima que vai sustentar o combustível verde.

Da Redação

Nas entrevistas, palestras e viagens que faz no Brasil e ao exterior o ministro Reinhold Stephanes faz questão de frisar que os biocombustíveis são uma prioridade do governo Lula. Impulsionado pelo sucesso do etanol, o governo federal quer a dianteira também na produção do biodiesel para consolidar o país como sinônimo de biocombustíveis.

Ele admite, no entanto, que será preciso driblar muitos problemas enquanto o caminho é trilhado. Algo a ser feito em um prazo de, pelo menos, dez anos. As dificuldades, produtores e usineiros têm na ponta da língua. Faltam pesquisas de matérias-primas que garantam a sustentabilidade econômica do biodiesel e sobram promessas de zoneamento de áreas agricultáveis que até agora não saíram no papel. Durante o intervalo de um encontro em Curitiba (PR) sobre a crise agrícola, o ministro concedeu a seguinte entrevista à Revista Biodieselbr.

Biodieselbr - Recentemente em visita ao México, o senhor colocou o pinhão manso como uma das plantas de maior potencial para a produção de biodiesel. No entanto, o pinhão manso ainda não faz parte das oleaginosas do Programa Nacional do Biodiesel. Por quê?
Reinhold Stephanes - Porque o pinhão manso, segundo os termos usados pela Embrapa, ainda não é uma planta domesticada. Ela existe, já é cultivada, mas ainda não passou por um processo de pesquisa e experimentação necessário para que se possam ter plantações industriais. Assim como também não se conhece bem o comportamento do pinhão manso sob diferentes condições de clima e de solo, e a que tipo de pragas está sujeito. Mas o fato é que o pinhão manso se mostra hoje como a segunda planta mais promissora sob o aspecto de produtividade entre todas as matérias-primas usadas para biodiesel. O dendê poderá produzir em uma plantação de bom manejo até seis mil litros de óleo por hectare. Já o pinhão manso, produzirá até mil litros por hectare. Todas as outras plantas estão abaixo deste rendimento. Outra vantagem é que o pinhão manso poderia se adaptar a um maior número de regiões no Brasil, diferente do dendê. Só que segundo a Embrapa é preciso primeiro escolher as plantas de pinhão manso mais produtivas para que sejam clonadas e gerem as plantações. Isso tornaria mais uniformes as plantações.

Biodieselbr - Quanto tempo essas pesquisas devem demorar?
Reinhold Stephanes - De cinco a dez anos. Mas algumas experiências já estão sendo feitas no Brasil, inclusive em larga escala. Em Caseara, no estado do Tocantis, há uma plantação feita pela iniciativa privada de dois mil e 500 hectares que entrará logo na fase de produção. Vamos acompanhar os resultados dessa colheita. Também há experiências sendo desenvolvidas em São Paulo e outras cidades brasileiras. Em todo caso, mesmo o pinhão manso sendo uma planta altamente promissora, acredito que temos que ter muita cautela.

Biodieselbr - O governo federal exige que as usinas produtoras de biodiesel adquiram uma porcentagem de matéria-prima originária da agricultura familiar para conseguir isenção fiscal. No entanto, as grandes usinas, por precisarem de uma quantidade muito grande de matéria-prima, são obrigadas a recorrer a milhares de agricultores familiares. Isso acaba dificultando o processo. Essa exigência não limita a capacidade de produção de biodiesel no país?
Reinhold Stephanes - A idéia é dar uma característica social a esse programa (Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel), já que o governo federal criou um mercado para o biodiesel. Existe um subsídio implícito. Diferente do álcool, que já é economicamente altamente competitivo. Por causa dessa contrapartida do governo, queremos envolver pequenos produtores ou fornecedores de matéria-prima. Mas isso, normalmente, está sendo feito com a integração com produtores maiores. Então, dificilmente uma usina que já tem a compra do óleo garantida pela Petrobras terá problemas com fornecimento de matéria-prima. Eu acho que é possível dar essa visão social ao programa sem perder as características econômicas. Mas temos que ter algo em mente. No caso do etanol, já temos uma experiência de 30 anos. O Brasil saiu na frente, está na frente e deverá continuar na frente. No caso do biodiesel nós estamos começando. Vamos ter, possivelmente, algumas pedras no caminho. O que também é natural.

Biodieselbr - E o que o Ministério da Agricultura está fazendo para retirar essas pedras do caminho? Qual está sendo a contribuição para o setor?
Reinhold Stephanes - A função principal do governo é estabelecer as regras,fazer o zoneamento e investir em pesquisas. Esses estudos servirão para orientar quais plantas são mais adequadas e como elas podem ser adaptadas para aumentar a produtividade. O Ministério já tem uma secretaria específica de bioenergia e agora também foi criada uma subsidiária da Embrapa que se chama Embrapa Agroenergia, que servirá para dar suporte ao programa.

Biodieselbr - O senhor mencionou em entrevistas anteriores que os biocombustíveis são uma das prioridades do governo Lula. No entanto até hoje não se definiu quais serão as matérias-primas que servirão de base para viabilizar a produção em larga escala. Por que isso ainda não foi feito?
Reinhold Stephanes -
No caso do etanol nós temos grandes vantagens porque já temos a planta adequada, que é a cana-de- -açúcar. E dificilmente surgirá, em outro país, uma planta mais competitiva. Já o biodiesel – apesar se ser uma prioridade – é um projeto promissor, mas está sendo pensado a médio e longo prazo. Não é uma solução imediata. Mas estão surgindo soluções na iniciativa privada muito interessantes. Como, por exemplo, a usina do Grupo Bertin, em Lins, que produz biodiesel a partir de sebo animal. Só essa unidade vai produzir praticamente 14% da meta que nós temos para o B2.

Biodieselbr - Sabe-se que hoje, mesmo sem a usina do Grupo Bertin, a capacidade de produção já superou a meta de 840 milhões de litros necessários para viabilizar o B2. Por que o governo ainda não decidiu antecipar o B5?
Reinhold Stephanes - Nós ainda vamos acompanhar o desempenho das usinas possivelmente por mais um ano ou dois anos. Depois disso é muito provável que se antecipe o B5 de 2012 para 2009 ou 2010.

Biodieselbr - Produtores reclamam que a falta de zoneamento dificulta o acesso ao crédito, prejudicando a produção de matéria-prima. Como a questão está sendo tratada em Brasília?
Reinhold Stephanes - O zoneamento só estará pronto dentro de um ano. O governo já deu as indicações de quais plantas teriam melhores condições em determinadas áreas no Brasil. Mas nós temos um segundo problema. Essas plantas, de maneira geral, não tiveram os melhoramentos com a função exclusiva de produzir óleo para o biodiesel. Muitas delas têm o óleo largamente utilizado, mas para outros usos, como o óleo de cozinha. Então nós ainda levaremos alguns anos até que tenhamos as plantas adequadas para cada região para se produzir o biodiesel.

Biodieselbr - As pessoas têm medo que sejam derrubadas árvores para se produzir matéria- -prima para o biodiesel. Existe essa possibilidade?
Reinhold Stephanes - Não, o zoneamento vai estipular os locais que estão aptos para a produção e também as áreas restritivas onde o governo não vai admitir a produção. E, claro, os locais onde, efetivamente, o governo quer que se produza. Vamos também entrar com um trabalho de recuperação de áreas degradadas e incentivar a plantação em áreas de pastagens.

Biodieselbr - O Brasil saiu um pouco atrás da Europa na questão do biodiesel. Há como conquistar a liderança?
Reinhold Stephanes - Temos que caminhar bastante. Mas temos uma grande vantagem sobre a Europa porque a produtividade de nossas lavouras é melhor. A variedade de plantas que se adaptam no Brasil é muito maior por causa do clima. Na Europa é possível tirar uma produção por ano. No Brasil, são três produções por ano. No Mato Grosso, por exemplo, planta-se soja, depois milho e algodão. Ou seja, três safras na mesma área. De qualquer forma o Brasil tomou essa decisão de que nós vamos montar uma grande rede de pesquisa no sentido de nos mantermos na dianteira ou pelo menos para tentar recuperar eventuais passos perdidos em outras áreas.