Setor de biodiesel cria entidade e vai debater qualidade do produto
A indústria de biodiesel está se movimentando para tentar romper a resistência histórica que existe entre outros elos da cadeia, como distribuidores de combustíveis e fabricantes de automóveis, em relação à qualidade do biocombustível brasileiro e à sua mistura ao diesel fóssil. Abrir o debate com esses agentes deverá ser uma das prioridades da AliançaBiodiesel, organização cuja criação está senod oficializada nesta quarta-feira (8) pela Associação das Indústrias Brasileiras de Óleos Vegetais (Abiove) e Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio).
Embora a Lei do Combustível do Futuro tenha previsto um aumento escalonado da adição do biodiesel ao diesel até 25%, são constantes as críticas dos distribuidores, revendedores de combustíveis e fabricantes de automóveis de que o aumento do percentual do biodiesel acelera o desgaste dos motores.
Em fevereiro, a Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis) afirmou que as oficinas já relatam mais falhas em bicos injetores e saturação precoce do filtro (DPF), entre outras, e relacionou os problemas à formação de resíduos e ao crescimento microbiológico no combustível. Também é frequente a crítica de distribuidores pequenos e médios a respeito da falta de infraestrutura própria para garantir homogeneidade na mistura.
Jerônimo Goergen, presidente da Aprobio, diz que as indústrias trabalham para melhorar a qualidade de seus produtos e avalia que o próximo relatório do Programa de Monitoramento da Qualidade do Biodiesel (PMQBio), a ser divulgado em maio pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), deverá apresentar uma redução no número de amostras com problemas.
No último relatório, de setembro de 2025, a ANP identificou inconformidades em 27,5% das amostras (37% entre produtores e 23,4% entre distribuidores). Segundo Goergen, os principais problemas hoje não são relacionados à matéria-prima, mas sim aos equipamentos e procedimentos. “As indústrias estão se esforçando para melhorar”, afirma.
Para André Nassar, presidente da Abiove, os problemas que ocorrem hoje nos motores não estão relacionados à qualidade do biodiesel, mas a fatores externos que podem ser discutidos com outros elos da cadeia. Segundo ele, os problemas têm a ver com condição de clima, tempo de armazenamento ou existência de água dentro dos tanques, por exemplo.
No segundo ciclo de avaliação do PMQBio deste ano, cujo relatório deve sair no segundo semestre, a ANP deverá informar quais são os produtores com inconformidades, iniciativa que tem apoio das associações. “Quem não melhorar vai começar a ter problemas”, disse Gorgen.
Abiove e Aprobio hoje já têm cada um programas de certificação que avaliam a qualidade do biodiesel de suas associadas, com avaliações independentes. O plano agora é reunir essas iniciativas em uma certificação unificada.
Reconhecimento
Para Goergen, “não adianta ter uma lei que garante a mistura se não tem o reconhecimento de quem consome”. Para ele, o reconhecimento do biodiesel brasileiro é fundamental até para a conquista de mercados fora do Brasil. “Não podemos continuar falando mal de nós mesmos”, diz.
Sob a nova organização, as indústrias devem reforçar sua atuação junto ao governo, embora hoje o diálogo com o Congresso seja centralizado na Frente Parlamentar do Biodiesel, ressalta Nassar. O setor está demandando agilidade nos testes para o aumento da mistura mínima do biodiesel, hoje em 15%, sob o argumento de que o governo precisa ter um “plano B” caso falte diesel por causa da guerra no Oriente Médio.
“É inconcebível que o Brasil, num governo que criou o programa de biodiesel, perca oportunidade de ocupar espaço na transição energética”, afirma Goergen. “A guerra deveria nos levar a querer reduzir a participação do diesel importado”, acrescenta Nassar.
A AliançaBiodiesel também deverá avançar no debate sobre novos mercados e vai formalizar nesta quarta-feira um acordo com a Latam para estudar a viabilidade de oferta de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) feitos a partir do biodiesel, segundo Goergen.
Camila Souza Ramos – Globo Rural



