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Interferência do governo no biodiesel chega ao emprego


Folha de S.Paulo - 29 set 2021 - 10:02

A interferência do governo no setor de biodiesel atingiu o mercado de trabalho. O segmento agroindustrial de óleos e gorduras teve uma redução de 7,5% na população ocupada no segundo trimestre deste ano, em relação à do primeiro.

Os dados são do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), com base nos números da Pnad-Contínua do IBGE.

A interferência do governo neste ano teve início no leilão 79, quando a mistura de biodiesel ao diesel, que deveria ser de 13%, voltou para 10%. No leilão referente a setembro e outubro, o governo elevou a mistura para 12%, mas já retornou para 10% em novembro e dezembro.

A atuação do governo foi considerada um retrocesso pelo setor de biodiesel. “Perdemos duas vezes”, diz o presidente do conselho da Aprobio (Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil), Francisco Turra.

“De um lado, reduzimos o esmagamento de soja internamente, exportando essa matéria-prima e deixando de gerar valor agregado. De outro, elevamos a importação de diesel”, afirma Turra.

Para Juan Diego Ferrés, presidente da Ubrabio (União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene), essa interferência não responde a uma lógica econômica.

A redução da mistura de 13% para 10% de biodiesel ao diesel foi justificada porque ela provocaria uma queda de R$ 0,02 no litro do diesel na bomba.

Mesmo com a redução a 10%, no entanto, o litro, com o recente aumento da Petrobras, vai custar R$ 0,20 a mais. O culpado, portanto, não é o biodiesel, mas o câmbio e os preços internacionais do petróleo, afirma Ferrés.

É preciso eliminar eventuais desafios que ocorram em todas as etapas do processo, mas não mirar o produto e achar que ele é o problema, diz.

“O impacto da interferência foi na veia”, afirma Jaime Alfredo Binsfeld, presidente da Amub (Associação das Menores Usinas de Biodiesel do Brasil). As 14 indústrias que compõem a associação têm capacidade anual de produção de 832 milhões de litros do combustível. O setor, como um todo, chega a 9 bilhões de litros.

As pequenas e médias empresas, que representam um terço das indústrias que participam dos leilões, não são verticalizadas e atuam apenas com o biodiesel, diz ele.

Uma interferência dessa mexe não apenas com emprego, mas também com toda a economia de uma microrregião.

Algumas pequenas cidades são totalmente dependentes de usinas de biodiesel, mesmo que elas sejam de pequeno porte, segundo o presidente da Amub.

A redução de produção implica em menores vendas, menor circulação de mercadorias e queda no comércio.

O corte de 1 ponto percentual na mistura significa uma redução próxima de 100 milhões de litros. Quando se cortam 3 pontos, são próximos de 300 milhões, segundo o presidente da entidade.

Binsfeld diz que preocupa também os próximos passos do setor. A eliminação dos leilões, como propõe o governo, deve ser bem transparente. Questões tributárias, contratos, adição, recebimento, distribuição são temas que ainda geram muitas dúvidas.

A manutenção das pequenas indústrias no setor é importante, principalmente porque delas também dependem distribuidoras menores e que movimentam economias regionais.

“Essas mudanças são muito sensíveis porque precisamos saber com clareza como vai ser o dia seguinte”, afirma.

Mauro Zafalon – Folha de S.Paulo