Indústria de biodiesel quer teste simplificado para elevar mistura
A indústria do biodiesel está pedindo ao Ministério de Minas e Energia (MME) que simplifique o procedimento de testes de aumento da mistura do biodiesel ao diesel. O argumento do setor é que o governo precisa ter uma alternativa na manga caso se confirmem temores no mercado e ocorra uma disrupção no abastecimento de diesel no país por causa da guerra no Oriente Médio. O teor de mistura de biodiesel ao diesel hoje é de 15% (B15).
A demanda está sendo apresentada pela organização AliançaBiodiesel, que reúne a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio). A Lei do Combustível do Futuro prevê que o governo já poderia ter elevado a mistura para 16% desde março, desde que submetido a testes.
O grupo que representa a indústria produtora quer que o MME realize apenas os testes de bancada (em laboratório), e não em campo, com os equipamentos nas estradas, o que integraria uma segunda etapa dos ensaios.
Pelo protocolo atual em discussão no ministério, as novas misturas precisam ser primeiro validadas nos laboratórios, e depois testadas em campo com equipamentos fornecidos pela indústria — no caso, sob organização da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Procurada, a associação não comentou até o fechamento desta matéria.
Segundo André Nassar, presidente da Abiove, o mercado vai precisar de uma alternativa para este ano caso as disrupções na cadeia de combustíveis provocadas pela guerra se prolonguem. “O mercado já precisa de mais biodiesel. Dado essa necessidade, temos que encontrar uma solução para este ano. Seguir o protocolo completo não viabiliza o aumento de mistura para este ano”, afirmou.
Além da preocupação com o abastecimento, há pressão de custo. Atualmente, o preço do litro do biodiesel já está abaixo do preço do diesel importado. Na semana passada, o biocombustível era vendido na base de Araucária (PR) por R$ 4.992 o metro cúbico, ante R$ 6.287 o metro cúbico do diesel importado na mesma base, de acordo com levantamento de preços da Argus. O diesel importado atende entre 25% e 30% da demanda nacional.
Nassar ressaltou que a indústria não quer “aumento de mistura a qualquer custo”. “A gente defende que o processo seja correto, fazendo os testes”, destacou.
Só os testes de bancada já devem levar 14 meses se permanecer a estrutura que estava garantida pelo programa “Política com Ciência” até o início de março, com duas bancadas do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).
Recentemente, o MME anunciou que está estruturando uma “rede nacional de pesquisa”, com outros sete laboratórios e sob coordenação do Centro de Pesquisas e Análises Tecnológicas da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), para a realização dos testes laboratoriais.
Questionado sobre o andamento do cronograma e se aceitaria simplificar o processo, o MME não respondeu sobre o assunto, e disse que mantinha o posicionamento já enviado à reportagem em 11 de março. Na ocasião, a Pasta afirmou que o plano de testes já teria sido acordado “entre todos os atores afetados pelo assunto” e estava em “fase final de consolidação metodológica e validação”.
O órgão que coordena a avaliação da viabilidade técnica das misturas de biocombustíveis é o Subcomitê de Avaliação da Viabilidade Técnica de Misturas de Altos Teores de Biocombustíveis em Combustíveis Fósseis. Ele integra o Comitê Permanente do Combustível do Futuro (CTPCF), que assessora o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) na definição da aplicação das regras da Lei Combustível do Futuro.
Camila Souza Ramos – Globo Rural