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Com biodiesel, Comigo quer chegar a R$ 30 bilhões até 2032


Forbes - 08 abr 2026 - 10:41

“Nosso faturamento passou de R$ 14 bilhões e queremos chegar a R$ 30 bilhões até 2032. Para isso, vamos investir cada vez mais em industrialização, inclusive com a produção de biodiesel.” A fala de Antonio Chavaglia, 80 anos, produtor rural e presidente do Conselho de Administração da Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano, mais conhecida como Comigo, dita numa entrevista exclusiva à Forbes Agro, resume bem o caminho a ser trilhado daqui para frente por uma das maiores cooperativas agrícolas do Brasil e que reúne 12,6 mil produtores goianos de soja, milho e sorgo.

Na manhã de segunda-feira (6), no município de Rio Verde (GO), no sudoeste de Goiás a 230 quilômetros de Goiânia, Antonio anunciou oficialmente a largada da 23ª edição da feira agrícola Tecnoshow Comigo, que segue até sexta-feira (10) e que se consolida como uma vitrine tecnológica e de negócios para a agropecuária do Centro-Oeste. A reportagem da Forbes Agro está acompanhado a feira que deve movimentar cerca de R$ 10 bilhões em negócios, número semelhante da edição de 2025.

Durante a abertura, no palco, além de lideranças do agro, estava o governador em exercício de Goiás, Daniel Vilela, que assumiu o cargo dias antes, após a renúncia de Ronaldo Caiado para disputar a Presidência.

Foi nesse ambiente, de transição política e de projeções econômicas ambiciosas, que Chavaglia fez questão de expor uma das principais tensões da cooperativa: a limitação energética da nova fábrica da Comigo.

“Estamos fazendo o maior investimento da nossa história, mas precisamos de energia. Sem isso, você trava o desenvolvimento”, afirmou, ao se referir à nova esmagadora de soja da cooperativa no município de Palmeiras de Goiás, projeto superior a R$ 1,3 bilhão.

A cobrança de Antonio não é casual e Vilela se prontificou em resolver a situação o mais rápido possível. Até porque a unidade representa tanto para a Comigo como para o Estado, o eixo central da estratégia de verticalização, que busca capturar mais valor na cadeia da soja e reduzir a exposição ao mercado de grão in natura.

Além de Antonio, o presidente executivo da Comigo, Dourivan Cruvinel de Souza, falou dos planos futuros da cooperativa que explicam como eles devem dobrar a receita nos próximos cinco anos.

Fundada em 1975, no município de Rio Verde (GO), a cooperativa figura na 28ª posição na Lista Agro100 da Forbes 2025, com um faturamento de R$ 10,94 bilhões em 2024, além de ser a 5ª maior no setor de Cooperativas da lista.

Biodiesel como próxima fronteira

Nos planos futuros, a aposta no biodiesel sintetiza o movimento da cooperativa. Ao avançar na cadeia do óleo de soja, a Comigo busca capturar valor em um mercado que combina demanda doméstica crescente, políticas de mistura obrigatória e potencial de exportação.

“Já estamos estudando um projeto para produção de biodiesel em Rio Verde”, afirmou Dourivan.

Se confirmada, a iniciativa fecha o ciclo de verticalização iniciado décadas atrás, agora com maior intensidade tecnológica e escala industrial.

No centro dessa estratégia está a mesma lógica que guiou a cooperativa desde sua origem que é transformar produção de commodity em valor agregado. A diferença é que, desta vez, o salto pretendido é bilionário. Em 2025, a receita foi de R$ 55 bilhões com uma produção de 9,84 milhões de metros cúbicos de biodiesel, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

A lógica da industrialização

A trajetória da cooperativa ajuda a entender o peso dessa decisão. Desde os anos 1980, quando entrou no processamento de soja, a industrialização passou a ser o principal vetor de geração de margem. “A soja esmagada dá resultado; o grão mal paga o custo”, diz Chavaglia.

“Foi quando levei a ideia da indústria de esmagamento para o então presidente. Ele me perguntou se eu estava ficando doido”, diz Chavaglia. A “loucura” era que a produção de soja nem tinha escala ainda, por isso, a ideia de uma indústria parecia não fazer muito sentido.

“Mas eu insisti e dizia que os chapadões seriam explorados e que não podíamos mandar a soja para fora sem agregar valor. Demoramos quase um ano para conseguir o dinheiro. A indústria foi a grande mola propulsora para a cooperativa e um divisor de águas para os produtores.”

O plano deu mais do que certo. Com o recebimento total de 5,4 milhões de toneladas de grãos entre soja, milho e sorgo e que representou 14,5% da safra 2024/2025 de Goiás, a Comigo conta com um pátio de 11 fábricas para processar e beneficiar a soja e sementes para o plantio, além de fabricar insumos como fertilizantes, suplementos minerais e ração.

O carro-chefe é justamente a soja. Em 2025 o processamento foi de 1,8 milhão de toneladas da oleaginosa, produzindo 1,2 milhão de toneladas de farelo e 454 mil toneladas de óleo. Ainda assim, a cooperativa industrializa 46,7% do volume de soja recebido pelos produtores, uma lacuna que a nova unidade pretende eliminar.

A conta é que ao dobrar a capacidade de esmagamento, a Comigo amplie sua participação em mercados mais rentáveis, como farelo para exportação e óleo refinado. É nesse ponto que o biodiesel entra como próximo passo estratégico.

“Quanto mais industrializamos, melhor a margem para enfrentar o crescimento das despesas”, afirmou Chavaglia.

Meta financeira e expansão coordenada

A ambição de alcançar R$ 30 bilhões em faturamento até 2032 está ancorada em uma base que já cresce de forma acelerada. Em 2025, a Comigo registrou receita de R$ 14,1 bilhões, avanço de 25,5% em relação ao ano anterior, com lucro (sobras) de R$ 1,1 bilhão e patrimônio líquido de R$ 6,8 bilhões.

A operação é puxada majoritariamente pela soja e seus derivados, que respondem por mais de 60% do faturamento. Ao mesmo tempo, a cooperativa mantém uma engrenagem integrada por todo o Estado de Goiás que inclui serviços de armazenagem de grãos com 19 unidades, assistência técnica, 20 lojas agrícolas e uma loja especializada em máquinas e implementos.

Essa estrutura explica o plano traçado por Dourivan que é o responsável pela execução da estratégia. “O fundamento para dobrarmos o faturamento da cooperativa virá da combinação entre a nova esmagadora, novas lojas e o aumento da produtividade do cooperado”, diz.

A expansão segue um modelo orgânico com a abertura de uma loja por ano, construção de um a dois armazéns e avanço para novas regiões.

Em paralelo, a cooperativa investe em assistência técnica para elevar a produtividade. Os produtores saltaram de uma produtividade média de 40 para 80 sacas de 60 quilos por hectare nas últimas décadas, e a meta é chegar a 100 sacas por hectare nos próximos anos.

Escala, base social e capital

O crescimento da Comigo também se sustenta em sua base de cooperados e funcionários bem capacitados. Em 2025, com capital social de R$ 4,56 bilhões, a cooperativa detinha 12.595 associados e uma equipe de 3.754 trabalhadores. Em 2025 foram investidos R$ 4,1 milhões com inúmeras iniciativas como cursos, treinamentos e capacitações.

“Investimos muito em pessoas. Dificilmente buscamos gerentes de fora. Nós os formamos internamente”, diz Antonio.

“Temos um programa de trainee de um ano e meio, no qual o colaborador conhece todas as áreas, passando pelo financeiro, armazenagem, indústria e lojas. Isso valoriza o funcionário. No último ano, distribuímos R$ 25 milhões em participação nos resultados para os colaboradores.”

Esse conjunto de ações reforça uma lógica de escala. Quando se requer mais produção, isso significa mais industrialização, que, por sua vez, depende de uma mão de obra qualificada para garantir a eficiência produtiva, alinhada com o atendimento das demandas de mercado.

Os desafios do custo e risco pela frente

Apesar do ciclo virtuoso, o ambiente não é isento de riscos. O custo de produção segue pressionado por fatores externos, especialmente no mercado de fertilizantes, altamente dependente de importações.

“Grande parte da matéria-prima vem de regiões em conflito. O preço subiu drasticamente e a logística está complexa”, afirmou Dourivan que depende de mercados como o próprio Irã e a Rússia.

“Este é um ano complexo”, diz Antonio. “A guerra encareceu o petróleo e os insumos subiram 30% a 40%. É um cenário difícil, somado às incertezas do ano eleitoral no Brasil. Temos de navegar com cautela e responsabilidade porque o custo sobe todo dia e a margem não aumenta na mesma proporção.”

Nesse contexto, apesar de todas as incertezas, os planos continuam firmes, inclusive o de crescimento da Comigo, que avança no próprio ritmo de produtividade do agro goiano.

“A nossa safra de verão foi muito boa”, diz Dourivan. “A safrinha já está plantada e continua chovendo bem na região. O problema real não é esta safra, que já estava acertada, mas sim a próxima. Não sabemos se haverá a quantidade de insumos necessária e nem qual será o preço pago por eles.”

Fábio Moitinho – Forbes