Glicerina

Produção de glicerina, de biodiesel e o consumo de metanol levantam suspeitas


BiodieselBR.com - 08 ago 2012 - 11:45 - Última atualização em: 09 ago 2012 - 18:07
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No começo desse mês, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publicou a edição 2012 de seu Anuário Estatístico do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis. Em sua maior parte, o documento não oferece grande novidade aos leitores – boa parte dele simplesmente compila dados que a agência já havia disponibilizado para o mercado. Mas uma olhada mais cuidadosa na seção reservada ao biodiesel revela incoerências, no mínimo, curiosas e, no máximo, preocupantes. 

O problema aparece quando se comparam os dados publicados em três tabelas diferentes: Produção de Biodiesel; Glicerina gerada na produção de biodiesel; e Consumo de Metanol. O caso é que os números que estão nelas parecem contradizer as leis da química que regem a fabricação de biodiesel.

A Lei de Lavoisier – ou Lei da Conservação das Massas – é bem clara: tudo o que entra de um lado numa reação química precisa sair do outro. Sem entrar em todas as minúcias da estequiometria (ramo da química que procura descrever átomo por átomo as reações), no caso da transesterificação o esperado é mais ou menos o seguinte: 

X litros de óleo + 0,X litros de álcool (metanol ou etanol) = X litros de biodiesel + 0,X litros de glicerina.

Basta trocar o "X" por um número qualquer. 

Claro que isso é no mundo ideal. No mundo real, as coisas são um pouco mais complicadas e os valores podem apresentar alguma variação. Mas, não é muita coisa e as proporções não costumam ficar muito longe do descrito acima, como assegura o professor do Departamento de Química da UFRJ Cláudio Mota. “Mesmo variando de um óleo para outro, não é de esperar grandes variações na proporção entre biodiesel e glicerina”, disse por telefone à BiodieselBR, acrescentando que qualquer explicação precisa ser procurada em outras variáveis que não a matéria-prima.

Isso torna ainda mais surpreendentes os números apurados pela ANP em relação a produção de biodiesel e de glicerina em determinados estados brasileiros. Um dos casos mais chamativos é o de Rondônia, estado que produziu pouco mais de 2,2 milhões de litros de biodiesel no ano passado, mas declarou uma produção de 588 mil litros de glicerina no mesmo período. Isso dá uma relação de 26,7% entre os dois números, mais uma vez e meia o que seria considerado normal.

Embora ressalte que não saiba como os números da ANP são levantados, Mota especula que uma parte das discrepâncias em relação à glicerina talvez possa ser explicada por variações o teor de água contido no material. “A glicerina não sai pura do processo de transesterificação, ela sai misturada com uma série de contaminantes como metanol e água”, afirma. Isto explicaria apenas uma parte desta grande variação.

Mesmo que haja uma explicação perfeitamente inocente para a questão toda da glicerina, há uma incomoda correlação entre a produção elevada de glicerina e o consumo elevado de metanol. Voltando ao exemplo de Rondônia, nos dados da ANP é fácil perceber que as duas usinas do estado – Amazonbio e Ouro Verde – consumiram cerca de 504 mil litros de metanol em 2011. Isso dá uma relação de quase 23% para o volume de biodiesel produzido no período. 

E esse é só um exemplo. Sendo bastante generoso com as margens de erro, temos três estados nos quais tanto a produção de glicerina quanto o consumo de metanol ficaram 5 pontos percentuais acima do esperado: Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Rondônia. No Tocantins, o consumo de metanol superou os 15%, mas a produção de glicerina foi um pouco menor – 13,7%.

Evidente que o bom exercício da lógica diz que a existência de correlação não implica, necessariamente, em causalidade. Mas, tudo isso junto levanta uma séria suspeita de que pode ter gente fabricando mais biodiesel do que tem informado. Em outras palavras, é bem capaz de ter usina terceirizando sua produção.

Pode muito bem acontecer que tudo não passe de um simples mal-entendido. Afinal, por meio de sua assessoria de imprensa, a ANP informa que os dados de seu Anuário Estatístico têm como fonte declarações mensais fornecidas pelas próprias usinas. “Iremos analisar as inconsistências apresentadas e, caso necessário, retificar os dados”, diz o email enviado pela agência esbanjando cuidados para não levantar nenhuma suspeita sobre a lisura dos fabricantes de biodiesel.

Fábio Rodrigues