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Política

Governo Lula quer colocar Petrobras na transição energética


Valor Econômico - 29 nov 2022 - 10:49

O plano estratégico 2023-2027 da Petrobras, que será divulgado nesta quarta-feira (30) após o fechamento do mercado, pode ser revisto pelo futuro governo Lula caso considere necessário alterar diretrizes de investimentos. Hoje a estatal foca grande parte dos esforços na exploração e produção de campos de petróleo do pré-sal.

O plano, que vai passar por aprovação do conselho de administração antes de ser conhecido, está desenhado nos moldes da atual gestão, que não fez aposta mais ambiciosa em fontes de energia renovável. O novo comando da companhia, porém, vem dando sinais de que quer investir mais nessa área e transformar a Petrobras em uma empresa de energia indo além de petroleira.

Em entrevista ao Valor, o coordenador-executivo do grupo de trabalho de energia da equipe de transição, Mauricio Tolmasquim, confirmou a tentativa: “Alguns aspectos vão ser revistos, como a transição energética, [com o objetivo] de transformar a Petrobras em uma empresa de energia”, afirmou. A mudança de rumo vinha sendo explicitada na campanha eleitoral de Lula, que sinalizou a intenção de fazer da petroleira uma investidora de projetos de energia renovável como usinas de geração eólica e solar, algo feito por outras petroleiras no mundo, em especial as europeias.

Ontem foi realizada a primeira reunião entre o grupo de trabalho de energia da equipe de transição e o comando da Petrobras, de forma virtual. Pela estatal, participaram o presidente, Caio Paes de Andrade; o diretor de relacionamento institucional e de sustentabilidade, Rafael Chaves; o diretor de governança e conformidade, Salvador Dahan; e a advogada-geral da Petrobras, Taisa Maciel. Além de definir um ponto focal (um coordenador) na empresa para as futuras conversas, o grupo de trabalho pretende realizar uma nova reunião com os diretores da Petrobras na segunda-feira (5), de forma presencial. Nesse dia, a empresa realiza uma apresentação virtual do plano estratégico para investidores, em Nova York.

Pela equipe de transição, estiveram, além de Tolmasquim, o senador Jean Paul Prates (PT-RN), a ex-diretora geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) Magda Chambriard, o pesquisador e coordenador técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), William Nozaki, e o coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar.

De acordo com a Petrobras, também participaram da reunião representantes do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Casa Civil. Prates é um dos nomes cotados para assumir a presidência da Petrobras. Ele afirmou, por meio de nota divulgada após a reunião, que as informações que virão das interações com a Petrobras serão tratadas de forma cuidadosa para evitar especulações e vazamento: “Tratamos [na reunião] de assuntos preliminares, como confidencialidade de documentos e trocas de informações. Definimos ainda critérios de sigilo, classificação e tipos de dados, bem como a forma como deverão circular. Estamos buscando todas as informações para nosso relatório, tendo, obviamente, todos os cuidados para evitar especulações indevidas e vazamento de informações”, disse.

O Valor apurou que diretores da Petrobras explicaram ao grupo de trabalho que existem ativos da empresa “engatilhados” para venda, e que a equipe pediu para segurar o máximo possível o desinvestimento de forma que a nova gestão possa decidir se segue com as operações. Entre as transações que estão perto do fechamento, estão a refinaria Isaac Sabbá (Reman), em Manaus (AM), e a refinaria Lubrificantes e Derivados do Nordeste (Lubnor), em Fortaleza (CE).

Na nota divulgada por Prates, ele reafirmou que vai pedir que alguns processos de alienação de ativos da Petrobras sejam interrompidos até o começo da nova gestão: “Temos vários processos de desinvestimento que a gestão atual da Petrobras está levando a cabo. Vamos destacar alguns que acreditamos deveriam ser suspensos, mas a administração atual da estatal é quem vai tomar a decisão que ela achar pertinente a respeito de cada caso”, completou o senador.

Tolmasquim confirmou, por sua vez, o pedido de suspensão das operações de desinvestimento em curso e contou que a decisão ainda depende de análise de questões como a adoção de eventuais penalidades, que podem até mesmo impedir a postergação do negócio, e do estágio de cada um dos processos de venda, se em fase inicial ou próxima do fechamento.

Fonte a par do tema afirmou que o clima da reunião foi de cordialidade, o que sinaliza uma transição que pode ser tranquila, mesmo após declarações sobre a intenção de reduzir os dividendos pagos aos acionistas da empresa para aumentar os investimentos. O tema não foi tratado na reunião de ontem, assim como a política de preços dos derivados da estatal.

Tolmasquim disse que os diretores da companhia foram receptivos e se colocaram à disposição para transferir de forma imediata informações que não sejam sigilosas ou sensíveis, que resultem em oscilações nas ações da companhia na bolsa. Fonte afirmou, porém, que a empresa terá que repassar todas as informações disponíveis à equipe do governo eleito, mas para uso de forma “restrita”. Significa que uma pessoa na equipe de transição terá que se responsabilizar pelo sigilo dos dados. O pedido de informações à Petrobras deve ser formalizado nos próximos dias.

Em nota, a companhia afirmou que foram estabelecidos os primeiros passos “para uma transição profissional e dentro das boas regras de governança” e que está à disposição para fornecer “todas as informações necessárias para que a equipe de transição conclua um primeiro diagnóstico que deve subsidiar a próxima gestão”.

Fábio Couto, Rafael Bitencourt e Renan Truffi – Valor Econômico