Leilões de biodiesel

Falta de transparência da ANP amplia pressão sobre problemas do sistema de leilões


BiodieselBR.com - 03 abr 2019 - 22:39 - Última atualização em: 04 abr 2019 - 11:13

Aqui vai um conselho para aqueles que querem entender um pouco mais do setor de biodiesel: quando parece que o mar a frente está tranquilo, se prepare, vem tempestade. Os exemplos mais recentes são a chegada do B11, que estava previsto para junho e acabou sendo adiado, e, agora, o Leilão 66.

Era para o L66 ser um leilão chato, no bom sentido, daqueles onde não acontece nada de diferente. A Etapa 2 aconteceu como se esperava, com as usinas ofertando bem mais biodiesel do que a demanda prevista e com competitividade alta. Analisando as ofertas, dava para perceber que a Etapa 3 não se alongaria demasiadamente e tudo ia transcorrer em relativa tranquilidade. Aí apareceu o problema com a interdição da Cooperfeliz, mas  como é uma usina pequena e sem Selo  o impacto do anúncio foi bastante limitado.

Só que, então, faltando cerca de 10 minutos para a Etapa 3 começar, todo mundo é informado que ela seria adiada para o dia seguinte no mesmo horário. Como assim? O que houve? Liminar? Problema no Petronect? Não. A explicação para o adiamento foi "problemas operacionais". De que tipo? Não se sabe. A ANP não deu mais detalhes. A equipe de BiodieselBR.com apurou que a versão espalhada pela ANP informava se tratar de um problema de TI.

Apesar da falta de transparência e informações oficiais, ao setor só restava se conformar e esperar. Mas a ANP não deve estar querendo deixar ninguém conformado. Depois das 18h a ANP publicou em seu site que a Etapa 3 não aconteceria mais no dia seguinte, mas, sim, na sexta-feira (05), porque, na quinta (04), seria realizada uma terceira rodada da Etapa 2. Como é que é? É isso mesmo. A ANP vai realizar uma nova rodada da Etapa 2. Algo que não está previsto no edital.

O motivo alegado para a realização dessa nova etapa é que o sistema Petronect ficou instável nos minutos finais da segunda rodada da Etapa 2 e que isso prejudicou o ajuste de preços por parte dos ofertantes. Quais ofertantes foram prejudicados? A ANP não diz e os dados não mostram.

Olhando os preços postados pelas usinas vemos que apenas a Cooperfeliz não fez alteração em suas ofertas. Mas como a usina não tem Selo, ela não participa da Etapa 3 e, portanto, poderia alterá-los na Etapa 4. Dentre as demais usinas, todas fizeram alteração de suas ofertas. Algumas mantiveram inalterado os preços de sua terceira oferta, mas isso é algo que fazem em todo o leilão.

A instabilidade realmente aconteceu, ou, pelo menos, ela foi percebida por BiodieselBR.com. Tivemos dificuldade de acesso no horário informado pela ANP em seu aviso. O problema chegou a ser registrado no chat da cobertura ao vivo.

Mas qual o problema de realizar uma terceira rodada da etapa 2? O primeiro é que não há previsão para isso. A ANP justifica usando o item 12.4 do edital, que, se interpretado em sentido amplo, dá o direto para a ANP de fazer o que quiser no leilão a qualquer momento sem se importar com o que diz o edital.

Outro problema é que todo mundo já sabe o preço de todo mundo. Todas as usinas deram os preços que acreditavam ser os melhores para o seu negócio. Algumas usinas haviam acertado a estratégia e, como estavam com preços melhores que o de seus concorrentes, já podiam considerar como certas as vendas. Outras erraram e, provavelmente, não venderiam tudo o que gostariam.

Esses dois grupos de usinas vão poder precificar novamente seu produto. Os que precificaram alto demais, podem reduzir para conseguir vender seu biodiesel. Uma ótima chance. Para os que já tinham um preço melhor, essa oportunidade piora a situação. Eles agora têm que decidir se baixam ainda mais ou se mantêm os mesmos valores. É uma situação onde as coisas podem permanecer como estão ou piorar.

O resumo é que boa parte das usinas deverá reduzir seus preços para tentar ganhar mercado. E essa etapa concorrencial extra não estava prevista em edital. 

A ANP diz que os preços iniciais dessa nova etapa serão aqueles registrados no final da Etapa 2, realizada na segunda-feira. Só que não pode ser assim. O preço inicial teria que ser aquele que as usinas colocaram no final da primeira rodada da Etapa 2. Isso porque a usina tem o preço da rodada 1 como teto na rodada 2. Como, segundo a ANP, algumas usinas não conseguiram colocar o preço que queriam ao final da Etapa 2, elas poderiam estar muito bem querendo por um preço igual ao que colocaram na rodada 1. O sistema adotado para esta rodada 3 não deixará isso acontecer, o que contraria o edital. Se bem que não dá pra ter certeza de que a ANP se importa com o edital.

Além disso, é normal que as usinas com melhores preços já comprem o óleo de soja que precisam e façam hedge ao final da Etapa 2. Como elas dão as vendas como certas, fecham contratos que garantem suas ofertas. Essas usinas agora correm o risco de não vender biodiesel.

Do lado da ANP, a situação também fica mais complicada. As usinas têm direito a uma hora de janela de ajuste de seus valores. Elas podem fazer essa redução até o último minuto. Se o sistema falhar novamente e uma usina alegar que iria mudar suas ofertas bem naquele minuto, a ANP terá a obrigação de dar a essa usina mais uma chance.

Só que a ANP não pode divulgar o resultado da Etapa 2 enquanto não tiver certeza que todos colocaram suas ofertas finais no sistema. Para garantir isso, bastava acrescentar um caixinha para ser marcada caso a usina já tivesse feito suas alterações. O resultado só seria publicado quando todas tivessem marcado. Se alguma não marcasse, o resultado não seria divulgado. Depois de analisado o caso, a usina poderia alterar ou não seus preços, dependendo da análise da ANP.

Mas isso é uma solução que não se aplica nesse caso. No que tange ao Leilão 66, a ANP se vê compelida a garantir a janela de oportunidade de mudanças mesmo com os preços já divulgados.

O que deixa a situação mais feia é que a ANP não foi transparente. Ela já sabia desse problema desde a tarde de segunda-feira. Na manhã de quarta-feira ela adiou a Etapa 3 por motivos mal explicados e no começo da noite de quarta-feira vem mostrar que o problema é outro.

No leilão passado houve uma mudança no edital feita na surdina que, depois de ser descoberta por BiodieselBR.com, foi desfeita. Dessa vez, a ANP escondeu e mascarou um problema que, por causa de sua conduta, se tornou muito maior. A falta de transparência tem sido uma constante nos leilões de biodiesel.

As usinas vão fazer uma enorme gritaria amanhã para a ANP. E com razão. Elas não têm culpa dos erros da agência ou das limitações do sistema usado para fazer o leilão. Mas são as usinas que acabarão perdendo dezenas de milhões de reais se a nova rodada da Etapa 2 for realizada.

E não dá nem para garantir que essa nova rodada será mesmo realizada.

Miguel Angelo Vedana – BiodieselBR.com

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