Distribuição

Petrobras segura oferta da BR para momento melhor


Valor Econômico - 22 set 2020 - 10:53

A Petrobras deve segurar a oferta dos 37,5% ainda detidos pela petroleira na BR Distribuidora até que haja uma melhoria de cenário no mercado de capitais. O Valor apurou que, diante do contexto da bolsa e do atual patamar de preços da BR, a estatal não pretende sacramentar a operação a curtíssimo prazo. Pelo atual valor de mercado da distribuidora, a venda pode levantar cerca de R$ 9,25 bilhões.

A estatal obteve no dia 26 de agosto o aval do conselho de administração para a saída do capital da distribuidora. O cenário, porém, mudou: o Ibovespa acumula uma retração de 3,6% e as ações da BR um recuo de 2,4% desde então.

Ao segurar a oferta, a aposta está na recuperação das ações. A avaliação do mercado é de que a distribuidora vem fazendo o seu “dever de casa” nos cortes de custos e busca por maior rentabilidade e que a empresa é, hoje, melhor do que era do quando foi privatizada em 2019 - embora a pandemia de covid-19 tenha interrompido a trajetória de valorização dos papeis.

As ações ordinárias da BR encerraram o pregão ontem com queda de 0,9%, a R$ 21,2. Os papeis vêm se recuperando nos últimos meses, depois de terem atingido a casa dos R$ 13 em alguns dias em março e abril, mas o patamar atual ainda está distante da realidade anterior à eclosão da pandemia no Brasil, quando a cotação da companhia flutuava acima dos R$ 28. Em 2020, a queda acumulada das ações da distribuidora é de 27,9%.

A Petrobras aguarda o momento oportuno para a oferta, de olho no quanto pode arrecadar. A Ativa Investimentos estima que uma valorização da ordem de R$ 4 nos papéis poderia representar, para a estatal, cerca de R$ 1,7 bilhão a mais.

O analista da Ativa, Ilan Arbetman, conta que, desde que o conselho da Petrobras aprovou a oferta subsequente (“follow-on”), houve uma piora no humor dos mercados. Ele cita incertezas em torno das eleições presidenciais nos Estados Unidos e das ações dos bancos centrais para conter a crise global - aspecto que afeta principalmente mercados emergentes e setores de demanda cíclica. As novas projeções da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), que apontam para uma recuperação mais lenta do consumo de derivados, também impactam as perspectivas. “ Vemos uma precificação maior do mercado sobre riscos e dúvidas”, explica.

O analista destaca que a Petrobras tem, hoje, uma “relativa tranquilidade no caixa”, em relação aos meses mais críticos do choque de preços do petróleo - vale lembrar que, no dia 20 de abril, o mercado americano viu pela primeira vez na história os preços do barril WTI entrarem no terreno negativo.

Para ele, as ações da BR estão pressionadas para baixo, sobretudo, devido às dificuldades da empresa para perseguir, num contexto de crise, os planos para melhora na rentabilidade. “A companhia é alvo de uma avaliação mais assimétrica do mercado, mas percebemos que os projetos que estão sobre a mesa têm qualidade”, disse.

Segundo Arbetman, é possível que Petrobras opte por seguir com a venda apenas após a divulgação dos resultados do terceiro trimestre, no dia 10 de novembro. A expectativa é que o próximo balanço traga números melhores do que aqueles do segundo trimestre, auge da contração da demanda.

Um analista de um grande banco de investimentos afirmou, sob a condição de anonimato, que o próximo balanço pode ajudar, mas não deve justificar uma valorização abrupta das ações. Segundo ele, a própria intenção da Petrobras de realizar uma venda grande - superior a um terço do capital da distribuidora - tende a manter os papéis pressionados.

A saída da estatal da BR vem sendo desenhada desde 2017, quando a petroleira fez a abertura de capital da distribuidora e arrecadou R$ 5 bilhões, ao vender 28,75% do ativo. Em julho de 2019, a estatal levantou mais R$ 8,5 bilhões, com a venda de 33,75%.

A Petrobras reiterou que o lançamento da oferta não tem data e está sujeito, entre outros fatores, “às condições de mercado, à aprovação dos órgãos internos da Petrobras, notadamente quanto ao preço, e à análise da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e demais órgãos reguladores e autorreguladores”.

André Ramalho e Gabriela Ruddy – Valor Econômico