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Distribuição

Logística é gargalo e demanda investimentos de R$ 8 bilhões


Valor Econômico - 04 out 2022 - 09:07

Para se dar uma volta completa no planeta Terra é necessário percorrer um pouco mais de 40 mil quilômetros. Parece muito, mas as empresas de distribuição de combustíveis estão acostumadas a ver seus caminhões percorrerem essa quantidade de quilômetros em menos de uma hora. A maior empresa distribuidora de combustíveis do país, a Vibra, antiga BR Distribuidora, fez as contas e, todos os dias, ela dá 27 vezes a volta no planeta. São mais de um milhão de quilômetros. Todos os dias. Esses números dão a dimensão do que é o desafio para se entregar gasolina, diesel e etanol em todos os cantos de um país continental como o Brasil em que a malha rodoviária ainda responde por 65% da matriz logística.

No momento em que o mundo já vive uma transição energética e as empresas de óleo e gás são cobradas a reduzir suas emissões, a logística virou questão importante também no quesito ambiental e de custo para o consumidor. Se um carro já polui em um dia mais do que o metrô em 30 dias, imagine uma frota de caminhões.

O Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), que reúne as empresas do setor, fez um levantamento com o apoio da Leggio Consultoria que mostra que se forem feitos investimentos da ordem de R$ 8,7 bilhões em ferrovias, dutos e portos dedicados diretamente para o setor, haverá uma redução de 15% das emissões de gases do efeito-estufa, segundo a consultora Camilla Rodrigues Affonso. Mais do que isso, os ganhos com a eficiência dada pela nova infraestrutura vão fazer com que os custos totais da distribuição de derivados sejam reduzidos em R$ 2,6 bilhões a partir de 2035. “Os dutos para a curta distância são extremamente competitivos. Mas na longa distância essa competitividade é viabilizada pelas ferrovias”, disse Affonso durante o Rio Oil & Gas.

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Os investimentos também são necessários para acabar com o gargalo logístico que vai piorando na medida em que o país cresce. “Em 2014, quando havia despacho pleno das termelétricas, todas as reportagens eram sobre gargalo logístico. Vem crise, a gente dá aquela respirada, mas estamos voltando para ritmo de crescimento e começamos a ver alguns gargalos. Como não tem plano novo de refinarias, a importação é cada vez mais relevante, por exemplo. E como tirar o produto do porto?”, questiona o vice-presidente da Vibra, Marcelo Bragança.

O vice-presidente de operações da Ipiranga, Francisco Ganzer, explica que um plano novo de logística requer uma solução diferente para cada região do país. Enquanto no Sul, o ideal são mais ferrovias e dutos, no Norte e Centro Oeste o transporte aquaviário tem muita relevância, diz. “Temos uma relação contratual com nossos clientes e precisamos fazer chegar o produto na cadência que ele precisa”.

Nos planos do atual governo, a ideia é apostar fortemente em ferrovias. Hoje elas respondem por 17% da matriz logística e a meta é chegar a 31%. A expectativa é de que sejam investidos R$ 200 bilhões nos próximos anos com base nos cerca de 80 pedidos de autorização feitos ao ministério depois da entrada em vigor do marco regulatório ferroviário. O secretário-executivo do Ministério de Infraestrutura, Bruno Eustáquio, lembra que a inversão da matriz logística é importante inclusive para viabilizar novas energias. O hidrogênio, por exemplo, que é considerado uma das energias futuras mais promissoras, tem dois terços do seu custo determinado pela logística, segundo Eustáquio.

Qualquer que seja o novo governo, a percepção é de que os novos investimentos terão que ser feitos em conjunto com a iniciativa privada. As próprias empresas já se organizam para dar mais eficiência à sua distribuição. No ano passado, as três maiores companhias do país, Raízen, Ipiranga e Vibra se uniram para fazer o investimento conjunto para atender a demanda por diesel do setor agrícola do Norte e Centro Oeste. As empresas investiram 115 milhões de reais em um terminal portuário em Santarém com capacidade de movimentar 300 milhões de litros de combustíveis por ano. Nos estudos da IBP sobre o investimento em infraestrutura para o setor, 10 portos estão mapeados. Entre eles, o de Santarém, com R$ 484 milhões.

Josette Goulart – Valor Econômico