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Aumentar estabilidade oxidativa do biodiesel exigirá investimento

EstabilidadeOxidativa 160914Conheça a opinião dos fabricantes e especialistas sobre a nova exigência da ANP para parâmetro estabilidade oxidativa da especificação do biodiesel.
BiodieselBR.com 5 min de leitura
O debate em torno da mais recente revisão da especificação do biodiesel brasileiro – que culminou com a publicação da Resolução ANP 45/2014 no final do mês passado – foi muito além da questão do teor de água. O problema é balancear a necessidade de avanço da qualidade sem que isso infle em demasia os custos de produção.

EstabilidadeOxidativa 160914
O debate em torno da mais recente revisão da especificação do biodiesel brasileiro – que culminou com a publicação da Resolução ANP 45/2014 no final do mês passado – foi muito além da questão do teor de água. O problema é balancear a necessidade de avanço da qualidade sem que isso infle em demasia os custos de produção.

Esse dilema qualidade X aumento de custos parece se mostrar mais incisivo quando se trata do parâmetro estabilidade oxidativa. Com a revisão, o tempo de garantia da estabilidade do biocombustível à oxidação foi estendido de 6 para 8 horas, seguindo o que preconiza a norma europeia EN 14214/2012. Para garantir o novo patamar, os produtores terão que investir em doses extras de antioxidantes. O que, fatalmente, acabará encarecendo o custo de produção. 

“A mudança para 8 horas representa, sim, maiores custos com antioxidantes. Apesar disso, a medida teve total apoio da Ubrabio porque prezamos por todas as medidas que venham garantir a qualidade”, afirma o professor Donato Aranda, consultor técnico da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio).

Outra entidade representativa do setor que compartilha a mesma opinião é a Associação Brasileira dos Produtores de Biodiesel (Aprobio). “Normalmente quando se aperta a especificação, gera aumento de custo”, diz Julio Minelli, diretor superintendente da Aprobio. A diferença dessa vez é que, segundo Minelli, ao contrário do que ocorreu quando o parâmetro teor de água foi limitado a 200 ppm na última revisão em maio de 2012, a ampliação do tempo de estabilidade oxidativa podem efetivamente redundar num biodiesel de maior qualidade.

Já a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) diz não enxergar “um fator significativo de custo no momento, sendo razoável o aumento de 6 para 8 horas quando da vigência do B7”. “A Abiove não apresentou posição desfavorável à proposta de adequação do parâmetro, haja vista que vem em prol da garantia de qualidade do biodiesel nacional, sem dúvida um dos focos de maior atenção dado pelas usinas”, pontua o assessor econômico da entidade, Leonardo Zilio.

Logística
Segundo a ANP as notoriamente adversas condições da logística brasileira foi o fator mais importante para que a agência considerasse necessário o aumento do tempo de estabilidade à oxidação do biodiesel.

“Devido às condições logísticas do Brasil, o biodiesel produzido na usina pode levar dias até chegar ao distribuidor. Além disso, o produto pode levar mais algum tempo até ser misturado ao óleo diesel. Logo, é necessário que o biodiesel seja suficientemente estável à oxidação, de forma a garantir a qualidade do produto que será misturado óleo diesel, bem como da mistura final que será ofertada ao consumidor”, expõe Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) por meio de sua assessoria de imprensa. 

A necessidade de o biodiesel atender à risca esse parâmetro é defendida por estudiosos da área de qualidade.

“A estabilidade oxidativa é primordial para garantir a integridade das propriedades químicas e físicas do biodiesel”, endossa a professora Elizabeth Figueiredo, chefe do Laboratório de Combustíveis e Lubrificantes do Instituto Nacional de Tecnologia (INT). 

Segundo o pesquisador do Centro de Energias do Instituto de Tecnologia do Paraná (CEN/Tecpar), Bill Costa, desde que guardado em boas condições, o biodiesel consegue se manter sem alterações importantes entre três se seis meses – dependendo do tipo de matéria-prima usada em sua fabricação. “Quanto maior a estabilidade à oxidação, maior a probabilidade de se atingir o limite superior de tal intervalo ou valores acima dele”, explica acrescentando que ao sofrer degradação características como, por exemplo, o teor de acidez e viscosidade do biodiesel se alteram. Isso pode ser um dos fatores para a formação de resíduos insolúveis no combustível. 

“Como consequência poderão ser observados o crescimento de microrganismos e a formação de borras nos tanques de armazenagem, além de entupimento de filtros de combustível e bicos injetores durante o uso veicular do biodiesel”, esclarece o pesquisador.

Fator soja
O pesquisador do CEN/Tecpar revela um outro fator também pode ter pesado para a ANP optasse por essa mudança: o uso de óleo de soja no biodiesel brasileiro. Isso porque a principal matéria-prima do biodiesel brasileiro tem um grande potencial para se oxidar – maior que o de outras matérias-primas usadas pela indústria de biocombustível, como o sebo bovino. 

“O valor de 8 horas exigido para a estabilidade à oxidação de misturas iguais ou maiores que B7 deve apenas garantir a mesma qualidade mínima exigida para a mistura atualmente adotada”, acredita Costa. “Como estamos aumentando a proporção de biodiesel de soja na mistura em dois pontos percentuais, espera-se que esta seja mais suscetível à oxidação em função da característica intrínseca da nossa principal matéria-prima, ou seja, um produto que se oxida facilmente. Assim, optou-se por aumentar o valor mínimo da estabilidade à oxidação”, conclui.

Para a pesquisadora da Embrapa Agroenergia, Itânia Soares, há formas de balancear a equação entre o aumento de qualidade e os custos. Para que o aumento da estabilidade à oxidação não coloque mais pressão sobre os preços pagos pelos consumidores brasileiros nos postos e nem, não vamos esquecer, a pesquisadora avalia que há a necessidade de diluir os custos extras no volume. “Acreditamos que a questão de se ter um produto com qualidade sem onerar o produtor poderá ser melhor equacionada reduzindo-se a capacidade ociosa das usinas, seja por meio de aumento do biodiesel na mistura, seja por exportação do produto”, propõe.

Cátia Franco – BiodieselBR.com
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