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Saúde

Eletrificação do transporte pode evitar 65 mil mortes no Brasil até 2050, diz estudo


Exame - 23 jul 2026 - 09:53

A poluição provocada pelo transporte rodoviário pode causar 47% mais mortes prematuras por ano no Brasil até 2050, caso a eletrificação da frota não avance em ritmo superior ao crescimento do número de veículos em circulação.

A projeção faz parte do estudo Benefícios à saúde do transporte de emissão zero, elaborado pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo, o ICCT.

O levantamento estima que, em 2024, cerca de 8 mil pessoas morreram prematuramente no Brasil em decorrência da exposição à poluição do transporte rodoviário. O país ocupou a 17ª posição entre os 20 mercados com maior número de mortes analisados.

No mesmo período, foram registrados aproximadamente 9,2 mil novos casos de asma infantil associados à poluição veicular, o que colocou o Brasil na décima posição entre os países mais afetados por esse indicador.

O avanço da eletrificação poderia mudar essa trajetória. No cenário mais ambicioso analisado pelo ICCT, o Brasil evitaria cerca de 65,2 mil mortes prematuras e 18,6 mil casos de asma infantil até 2050.

Para isso, porém, o país precisaria acelerar a substituição dos veículos a combustão em um ritmo ainda distante do observado atualmente.

Crescimento da frota pressiona ganhos

O estudo projeta que a frota brasileira crescerá cerca de 30% até 2050. No mundo, a expansão estimada é de 40%.

Esse aumento ajuda a explicar por que o aperfeiçoamento dos padrões de emissão dos veículos a combustão, embora reduza a quantidade de poluentes liberada por cada modelo, não seria suficiente para diminuir o número absoluto de mortes.

Em escala global, o relatório projeta uma alta de 74% nas mortes prematuras associadas à poluição do transporte rodoviário caso não haja uma transição mais acelerada para veículos de emissão zero.

Em 2024, o setor contribuiu para quase 700 mil mortes prematuras e 250 mil novos casos de asma infantil no mundo. Segundo o ICCT, uma pessoa morreu, em média, a cada 45 segundos em razão da poluição do transporte, enquanto um novo caso de asma infantil foi registrado a cada dois minutos.

“Enquanto países de alta renda avançam na transição de suas frotas, países de baixa e média renda caminham para concentrar uma parcela cada vez maior desses impactos, ampliando, e não reduzindo, as desigualdades globais”, afirmou Lingzhi Jin, coautora do estudo.

O transporte rodoviário responde por quase metade da exposição anual à poluição por partículas finas recomendada pela Organização Mundial da Saúde, a OMS. Essas partículas, emitidas principalmente pela queima de combustíveis, conseguem penetrar no sistema respiratório e estão associadas a doenças cardiovasculares e pulmonares.

Só o cenário mais ambicioso

O ICCT analisou dois caminhos possíveis para a adoção de veículos de emissão zero, os chamados ZEVs, sigla em inglês para veículos que não emitem poluentes pelo escapamento.

O primeiro cenário, chamado Momentum, considera a implementação integral de todas as metas nacionais e municipais já anunciadas, ainda que não sejam obrigatórias.

No Brasil, esse caminho levaria os veículos elétricos a representar cerca de 57% das vendas de modelos leves em 2050. Entre os veículos pesados, a participação seria de apenas 12%.

Mesmo nesse cenário, o número de mortes provocadas pela poluição rodoviária continuaria aumentando.

“O ritmo de incorporação de novos veículos de emissão zero à frota precisa mais do que compensar o aumento da frota de veículos com motor a combustão decorrente do crescimento das vendas”, afirmou Jonathan Benoit, desenvolvedor de modelos do ICCT e coautor do estudo.

O segundo cenário, classificado como ambicioso, prevê que todos os veículos novos vendidos no mundo sejam de emissão zero até 2045.

No Brasil, os modelos elétricos precisariam alcançar cerca de 61% das vendas de veículos leves em 2035 e 100% em 2045. Para os veículos pesados, a participação teria de chegar a aproximadamente 54% em 2035 e também atingir 100% dez anos depois.

Segundo o relatório, apenas essa trajetória seria capaz de reduzir, em números absolutos, as mortes prematuras associadas à poluição do transporte no país.

Em escala global, o cenário evitaria 8,8 milhões de mortes prematuras até 2050. O número anual de óbitos cairia 63%, enquanto os novos casos de asma infantil seriam reduzidos em 80%.

Vendas crescem

A venda de veículos eletrificados ganhou ritmo no Brasil em 2026. No segundo trimestre, encerrado em junho, esses modelos responderam por 15% das vendas de veículos leves.

Desse total, 8% eram veículos de emissão zero e 7% eram híbridos plug-in, modelos que combinam motor elétrico e motor a combustão e podem ser recarregados na rede elétrica. Com R$ 140 mi do BNDES, corredor verde vai ligar litoral a interior de SP com biometano

O desempenho, embora indique uma aceleração do mercado, ainda está distante do necessário para alcançar o cenário de redução projetado pelo ICCT.

Segundo Paulo Resende, diretor do Núcleo de Logística e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral, mecanismos como o Mover não favorecem diretamente uma transição mais rápida para veículos sem emissão. "É um belíssimo começo. Cria uma aceleração importante numa renovação que estava estagnada. Mas tem que ser de longo prazo — independente de qual governo esteja no poder”, explica.

O programa prevê incentivos tributários, como uma redução de 2% no Imposto sobre Produtos Industrializados, o IPI, em comparação com veículos flex a combustão. Para o pesquisador, a diferença não seria suficiente para acelerar as vendas no ritmo necessário.

Mais de nove estados brasileiros também oferecem isenção ou descontos no Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores, o IPVA, para modelos de emissão zero.

No transporte coletivo, governos municipais e o governo federal apoiam a compra de ônibus elétricos por meio de linhas de financiamento subsidiadas. Nos caminhões, porém, a eletrificação permanece quase inexistente: os modelos de emissão zero representaram menos de 0,5% das vendas no segundo trimestre de 2026.

Controles de emissão

O Brasil adota há décadas regras para reduzir a emissão de poluentes locais por veículos a combustão.

As fases P8 e L8 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores, o Proconve, estabeleceram padrões mais rígidos para veículos pesados e leves. Embora tenham sido implementadas depois de normas semelhantes em outros mercados, essas regras estão alinhadas às melhores práticas internacionais, segundo o ICCT.

Ainda assim, o aprimoramento tecnológico não compensa sozinho o crescimento da frota.

O estudo também incorporou medições feitas em condições reais de circulação pela iniciativa The Real Urban Emissions, ou TRUE, que monitora as emissões de veículos nas ruas.

Testes realizados na Região Metropolitana de São Paulo mostraram que diferentes modelos ultrapassam, durante o uso cotidiano, os limites estabelecidos pelo Proconve. O problema foi identificado tanto em veículos antigos quanto em caminhões novos certificados pela fase P8.

A diferença entre os resultados de laboratório e as emissões verificadas nas ruas acrescenta outro limite às políticas baseadas apenas em padrões para motores a combustão.

Para o ICCT, a combinação entre crescimento da frota, renovação lenta dos veículos em circulação e participação reduzida dos modelos de emissão zero mantém o país em uma trajetória de aumento dos impactos sobre a saúde, apesar dos avanços recentes nas vendas de elétricos.

Letícia Ozório – Exame