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Natureza

Entidades criticam saída da Abiove e empresas da Moratória da Soja


Globo Rural - 03 fev 2026 - 08:44

O Greenpeace Brasil, o WWF Brasil e o Imaflora classificaram como “grave retrocesso ambiental” a saída da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e 19 tradings da Moratória da Soja. Em comunicado conjunto divulgado nesta segunda-feira (2/2), as entidades salientaram que a decisão terá impactos no desmatamento da Amazônia e outros efeitos negativos.

“Ao saírem do acordo, essas empresas assumem integralmente a responsabilidade pelos impactos ambientais, sociais, climáticos e reputacionais de tal decisão, uma vez que, com a Moratória esvaziada, abre-se caminho para a expansão descontrolada do cultivo de soja no bioma Amazônia, colocando as populações em risco, aumentando o desmatamento e as emissões de gases de efeito estufa no país. Esse cenário resultará em eventos extremos cada vez mais frequentes e severos no Brasil, como secas, ondas de calor e inundações”, afirmou Ana Clis Ferreira, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil.

No comunicado, as entidades ressaltam que a Moratória da Soja sustentou a reputação da soja brasileira livre de desmatamento nos mercados internacionais por quase 20 anos.

“Ao esvaziar a Moratória, essas empresas assumem integralmente a responsabilidade pelos impactos ambientais, climáticos e reputacionais decorrentes da possível retomada do desmatamento associado à soja na Amazônia”, diz o comunicado. Na avaliação das entidades, sem um mecanismo equivalente à Moratória da Soja, volta o risco da soja brasileira voltar a estar diretamente ligada à destruição da floresta.

“Essa escolha não é uma obrigação legal, mas uma decisão empresarial. Ao optarem por sair da Moratória, essas empresas sinalizam que, em detrimento de compromissos reais com o desmatamento zero, estão priorizando o acesso a incentivos via recursos públicos, que tampouco se comprometem com o combate às mudanças climáticas. Trata-se de uma troca explícita: floresta por benefício financeiro”, acrescentaram as entidades no comunicado.

A Abiove anunciou no início de janeiro a sua retirada da Moratória da Soja, mas não detalhou o motivo. Também abandonaram o acordo grupos como ADM do Brasil, Agrex, Agrícola Alvorada, Amaggi, BTG Pactual, Bunge, Cargill, CHS, CJ Selecta, Cofco, Dual, Fiagril, Imcopa, Lous Dreyfus Company (LDC) e 3tentos.

Desde 1º de janeiro, entrou em vigor, em Mato Grosso, a Lei Estadual nº 12.709/2024, que retira benefícios fiscais das empresas que aderem à Moratória da Soja.

A Abiove sinalizou que as tradings vão continuar cumprindo as exigências ambientais de compradores internacionais. E afirmou que confia nas autoridades brasileiras para a implementação de um novo marco regulatório para assegurar a continuidade das políticas de preservação e controle do desmatamento.

“É fundamental deixar claro que a Moratória da Soja está sendo esvaziada por uma decisão unilateral da Abiove e das traders que ela representa”, afirmaram as entidades civis em comunicado.

As entidades citam estimativas da TNC indicando que o fim da Moratória da Soja pode resultar no desmatamento de até 9,2 milhões de hectares na Amazônia, área equivalente ao território de Portugal.

Com a volta do desmatamento, o Brasil fica mais longe de alcançar a meta de zerar o desmatamento até 2030, além de por em risco os compromissos climáticos assumidos pelo país.

“Diante desse retrocesso, fazemos um chamado direto aos grandes compradores corporativos de soja - empresas de alimentos, proteína animal e varejo - para que exijam de seus fornecedores a manutenção dos critérios ambientais da Moratória da Soja, independentemente da decisão dessas traders. Transparência e responsabilidade socioambiental não são opcionais”, afirmam.

Carta da UE

O comunicado é divulgado após a Retail Soy Group, organização de empresas de varejo da União Europeia criado em 2013 para “encontrar soluções” para uma produção de soja sustentável, enviar uma carta pedindo às maiores tradings agrícolas que informem se vão continuar individualmente no acordo da Moratória da Soja, e quais instrumentos de verificação da produção serão usados.

A carta foi enviada para ADM, Bunge, Cargill, LDC e Cofco, com cópia para a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e para o presidente Abiove, André Nassar. O documento é assinado por empresas como as britânicas Tesco, Lidl e Marks and Spencer, as alemãs ALDI Nord Group e ALDI Süd, e pela organização suíça Swiss Soy Network.

Cibelle Bouças – Globo Rural