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Natureza

Desmatamento associado à soja no cerrado tem menor taxa dos últimos 20 anos


Abiove - 13 dez 2021 - 09:02

A partir da década de 1980, o cerrado se transformou em uma nova e importante fronteira agrícola brasileira. Essa transformação modificou os aspectos socioeconômicos regionais e impulsionou a produtividade agropecuária, tornando o Brasil um dos principais produtores mundiais de commodities agrícolas.

O Brasil tem avançado muito na gestão do monitoramento do desmatamento do bioma. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) está divulgando os resultados do projeto Prodes Cerrado, que consiste no mapeamento do desmatamento para toda extensão do cerrado desde 2000. A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) iniciou, em 2017, um mapeamento completo da expansão da soja com o objetivo de buscar soluções para reduzir e, no menor prazo possível, eliminar o desmatamento associado diretamente à cultura, conciliando a produção com os interesses ambientais, econômicos e sociais.

Com a safra de soja 2020/21 encerrada, completamos duas décadas de uma análise detalhada da dinâmica da expansão da cultura no bioma cerrado, desenvolvida pela Agrosatélite – empresa referência em sensoriamento remoto e inteligência geográfica para o agronegócio e o meio ambiente – por meio de imagens adquiridas por satélites.

Estas imagens permitiram avaliar tanto o incremento gradual da área de soja na região quanto detalhar as transições que ocorreram em termos de mudança de uso da terra ao longo desses 20 anos. O período coincide com a maior conscientização ambiental no sentido de preservar os recursos naturais buscando alternativas à abertura de novas áreas com o melhor aproveitamento das terras já abertas e do uso de novas tecnologias para aumento da produtividade.

São informações objetivas sobre a distribuição espacial das lavouras de soja e sua associação com a recente conversão de vegetação nativa, além do conhecimento sobre os estoques de terras aptas para a produção do grão, que nos forneceu elementos chaves para se buscar o equilíbrio entre a preservação ambiental e o aumento da produção. Neste sentido, as imagens de satélite não apenas revelam o que aconteceu no território ao longo do tempo em decorrência da sojicultura, mas também permitem o planejamento para o desenvolvimento sustentável do agronegócio.

Vale informar que o Brasil está dividido em seis biomas com fitofisionomias típicas, como é o caso do cerrado. Historicamente a produção de soja no País teve início no Sul, em região do bioma Mata Atlântica, e foi ganhando destaque no cerrado com o desenvolvimento de novas tecnologias que permitiram sua produção em ambientes anteriormente desconsiderados.

O cerrado estende-se por cerca de 25% do território brasileiro com sua cobertura vegetal nativa preservada em pouco mais de 50%. Atualmente, 52% (20 milhões de ha) da área cultivada com soja no Brasil se encontra neste bioma, onde a região do Matopiba (acrônimo para designar Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) ganha destaque por se tratar da mais nova fronteira agrícola brasileira em que a expansão da sojicultura com conversão de vegetação nativa ainda tem certa relevância.

Já na região mais consolidada do cerrado (Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais e São Paulo), os estoques de terras abertas com aptidão agrícola para soja são grandes, com uma perceptível expansão da oleaginosa por meio da intensificação do uso da terra, conforme vem sendo observado nos últimos anos.

As 90 mil fazendas de soja que estão no bioma cerrado preservam 35% da sua área. São 20 milhões de hectares preservados em áreas de Reserva Legal e de Preservação Permanente conforme estabelecido pelo Código Florestal brasileiro.

Quando for necessário aumentar as áreas de cultura da oleaginosa, podem ser substituídos gradativamente os 26 milhões de hectares de área de pastagem com aptidão agrícola. Ou seja, é possível mais que dobrar a área cultivável de soja neste bioma sem precisar desmatar. E isso já vem acontecendo nos últimos anos: é um potencial gigantesco e sustentável.

Esta mais recente análise geoespacial, que acabou de ser publicada, nos mostra que a expansão da soja no bioma cerrado caiu de 13% em cima da vegetação nativa entre o período de 2001-2007 para 3% entre 2014-2021, ou seja, nos últimos sete anos, 97% da expansão foi em áreas já abertas antes de 2014.

Já no cerrado “consolidado” que compreende os estados do MT, MS, GO, DF, MG e SP, diminuiu de 7% entre 2001-2007 para 1% entre 2014-2021. Isso quer dizer que nos últimos sete anos, 99% da expansão no cerrado “consolidado” foi em áreas já abertas antes de 2014.

Especificamente no Matopiba, que consideramos não só a maior fronteira agrícola do Brasil e sim do mundo, caiu de 40% entre o período de 2001-2007 para 10% em 2014-2021. Conferindo que nos últimos sete anos, 90% da expansão da soja nesta região foi em áreas já abertas antes de 2014. No geral, a expansão da soja no último ano safra foi 85% acima da taxa média anual, com 760 mil ha no cerrado “consolidado” e 408 mil ha no Matopiba.

Do desmatamento de 2020 no bioma (735 mil hectares), foram convertidos para soja apenas 28 mil hectares (3,8%), dos quais 4,7 mil hectares no Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, DF e 23,3 mil ha no Matopiba.

Graças a um trabalho científico de excelência, com 100% de acurácia e que utiliza métodos e tecnologias geoespaciais sofisticados para a geração de conhecimento sobre a dimensão do cerrado e a dinâmica da evolução da sojicultura no bioma, podemos afirmar que hoje temos a menor taxa de desmatamento associada à soja dos últimos 20 anos. E essa taxa segue em queda safra após safra.

Bernardo Pires é gerente de Sustentabilidade da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais