Emissões

Em vez de reduzir, país mantém emissão de gases


Valor Econômico - 06 nov 2019 - 10:49

As emissões brasileiras de gases-estufa ficaram praticamente estáveis em 2018 em relação ao ano anterior. Ocorreu um pequeno aumento de 0,3%. O país, contudo, é o sétimo maior poluidor do planeta e ainda não tem uma trajetória consistente de redução de emissões. A avaliação faz parte da sétima coleção do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG). Os dados foram divulgados ontem (05), em São Paulo.

De fato, pelos dados do sistema de alerta de desmatamento Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a tendência é de alta na derrubada da floresta.

Tasso Azevedo, coordenador do SEEG, lembra que entre agosto de 2017 a julho de 2018, o Deter registrou 4.500 km² de desmatamento. Já o Prodes – o dado oficial do desmatamento no Brasil – fechou o valor em 7.500 km².

O dado deste ano do Deter (até julho) soma 6.833 km² de desmatamento. “Historicamente, os dados do Prodes costumam ser 30% maiores”, diz Azevedo. Em agosto, setembro e metade de outubro de 2019, o Deter já apontou para 3.500 km² de desmatamento.

Em 2018, o Brasil registrou emissões brutas de 1,94 bilhão de toneladas de CO2 equivalente. Ocorreu aumento nas emissões causadas pelo desmatamento na Amazônia (8,5%), mas redução na destruição do Cerrado (10%). No balanço, as emissões por mudança do uso da terra, que representaram 44% das emissões brasileiras em 2018, cresceram 3,6%.

As emissões do setor de energia caíram 5%. A explicação é o forte aumento no uso de biocombustíveis transporte de passageiros causado tanto pelo aumento no consumi de etanol quando pela obrigação de se adicionar biodiesel ao diesel. E ainda pelo aumento de energias renováveis na geração elétrica, explicou Felipe Barcellos e Silva, analista de projetos do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA).

“Choveu muito, as hidrelétricas foram muito acionadas em detrimento das termelétricas fósseis. Por isso, foi a primeira vez que as fontes não-hídricas ultrapassaram as fósseis na matriz elétrica”, diz ele, citando principalmente energia eólica, biomassa e solar. Este grupo foi a segunda maior fonte de eletricidade no Brasil em 2018.

O setor da agropecuária ficou em segundo lugar nas emissões brasileiras (25% do total). Registrou pequena queda de 0,7%, puxada pela diminuição do rebanho nacional. A alta no preço internacional fez com que o gado passasse a ser abatido mais cedo, explicou Ciniro Costa Júnior, do Imaflora. Desta forma, a emissão de metano do gado (gás-estufa muito mais nocivo que o CO2) foi reduzida.

“Existe grande diferença entre a natureza das emissões do Brasil e a dos outros grandes emissores, à exceção da Indonésia”, indicou Ricardo Abramovay, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. Enquanto a redução das emissões dos países desenvolvidos, da China e da Índia dependem de grandes investimentos em ciência e tecnologia (porque a maior fonte de emissões é a energia), o esforço brasileiro tem que ser no combate ao desmatamento.

“Para interromper o desmatamento não precisamos fazer grandes esforços em ciência e tecnologia”, disse Abramovay. “Mas estamos avançando em direção ao aumento das emissões pelos piores métodos. É vergonhoso”, lamentou.

O Brasil não irá cumprir a meta para 2020 de reduzir em 80% a taxa de desmatamento na Amazônia, prevista pela lei nacional de mudança do clima. “Já tínhamos uma situação delicada antes do desmonte da governança ambiental promovido pelo atual governo”, disse Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, rede de 47 ONGs e movimentos que lidam com a agenda climática.

O desmatamento provoca distorções no perfil brasileiro de emissões, diz material do SEEG distribuído à imprensa. É pela mudança no uso da terra que a emissão per capita do brasileiro (9,3 toneladas brutas) é maior que a média mundial (7,2 toneladas em 2018). Um paraense, do Estado campeão de emissões, emite quatro vezes mais do que um americano.

“A emissão média mundial per capita em 2050 deverá ser de menos de 1 tonelada de CO2 equivalente”, diz Azevedo, se o que se quer é cumprir o que foi acertado no Acordo de Paris.

Daniela Chiaretti – Valor Econômico