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Emissões

Como a indústria europeia do petróleo decidiu salvar o clima


Bloomberg - 25 jun 2015 - 09:56

Os chefes de algumas das maiores empresas de energia da Europa decidiram dar uma guinada histórica. Estava na hora de escutar os manifestantes que marchavam na neve do lado de fora da conferência do setor, exigindo medidas para combater o aquecimento global.

Quando a conversa na convenção se transformou em ação, Royal Dutch Shell, BP, Total, Eni, Statoil e BG publicaram uma carta aberta sem precedentes sobre as alterações climáticas. Em uma ruptura com seus maiores concorrentes do EUA, elas anunciaram o apoio aos esforços para colocar um preço na poluição, reconhecendo que estavam do lado errado da história.

“Elas mudaram totalmente de posição retórica”, diz Charlie Kronick, assessor sênior para o clima da Greenpeace em Londres. “Elas sabem que se você não estiver sentado à mesa, você pode acabar virando almoço”.

É claro, fazer o bem também significa fazer bem para os patrões de uma das indústrias mais poluentes do mundo. Os signatários da carta também são grandes produtores de gás natural e a guinada irá ajudá-los a promover o combustível como uma alternativa mais limpa do que o carvão. A Shell começou a produzir mais gás do que petróleo em 2013 e a Total, no ano seguinte.

Se a estratégia for bem-sucedida, os perdedores seriam companhias mineradoras, como Glencore Plc e Anglo American Plc, e países ricos em carvão, dentre eles a Austrália, a Indonésia e a Colômbia.

O caminho para um entendimento sobre o clima começou alguns meses antes.

O braço de investimentos da Igreja da Inglaterra, que tem quase US$ 10 bilhões em ativos, anunciou em dezembro que iria apresentar as resoluções dos acionistas sobre mudanças climáticas nas assembleias gerais anuais de vários colossos europeus do petróleo neste ano. As empresas sabiam que teriam que reagir porque a igreja reuniu o apoio de outros investidores institucionais.

Resposta

A resposta começou a ganhar forma em Davos, no Fórum Econômico Mundial, em janeiro. Lá, sob a égide de um grupo conhecido como Oil Gas Climate Initiative, vários executivos conversaram sobre os preços do carvão em um jantar a portas fechadas. Contudo, o caráter abrangente do grupo, que incluía empresas como as estatais Saudi Arabian Oil e Petróleos Mexicanos, retardou o avanço, segundo fontes do setor.

Depois veio o divisor de águas no Fórum de Energia de Oslo, em fevereiro, um evento com todos os atores importantes do setor mundial de petróleo e gás, no idílico hotel Scandic Holmenkollen Park, rodeado de montanhas cobertas de neve e de uma pista de esqui centenária que foi sede dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1952. Os ativistas reunidos na entrada diziam que a neve seria “algo presente apenas nos livros de história” se as emissões ligadas ao petróleo continuassem ininterruptamente, segundo um panfleto publicado online.

Dentro das salas com painéis de madeira do hotel, um grupo de altos executivos do petróleo estava adotando uma visão similar – porém menos sensacionalista – sobre o futuro do setor: a única forma de deter o aquecimento global é impor um preço mundial para o carvão.

Dois meses depois, eles decidiram aproveitar a IHS CERAWeek, uma conferência anual em Houston, para se aproximar dos americanos.

No gigantesco hotel Hilton Americas-Houston, de 1.200 quartos, executivos seniores das maiores empresas europeias e americanas se reuniram para uma sessão a portas fechadas sobre mudanças climáticas, de acordo com uma fonte do setor.

A Exxon Mobil Corp. não participou, segundo uma fonte do setor. A Chevron Corp. deixou claro que se opunha a fixar um preço para o carvão, posição reiterada mais tarde pelo CEO, John Watson.

Texto final

Entre a CERAWeek e a publicação da carta no começo de junho, as seis empresas europeias estiveram ocupadas tentando chegar a um acordo sobre o texto final. Segundo fontes do setor, os CEOs delegaram a missão em suas equipes e não se reuniram mais para discutir o assunto.

Quando o texto avançou, as empresas mais uma vez tentaram ampliar a iniciativa, mas outras companhias não se uniram por falta de tempo para avaliar a carta ou, na maioria dos casos, por se oporem ao seu teor. Até agora, apenas a Repsol SA, o grupo petroleiro espanhol, se uniu aos seis signatários originais.