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Caminhões: trocar diesel por GNL não evitaria maioria de mortes por poluição

Estudo realizado por pesquisadores da Escola Politécnica da USP mostraram impactos menores do que esperados sobre mortes por doenças respiratórias, cardiovasculares e câncer de pulmão

Agência Fapesp 4 min de leitura

A substituição completa do diesel usado como combustível nos caminhões de carga pesada por gás natural liquefeito (GNL) salvaria vidas, mas não seria o suficiente para evitar a maior parte das mortes hoje atribuídas aos efeitos da poluição do ar, indicou estudo feito por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e do Imperial College London, no Reino Unido.

De acordo com a pesquisa, publicada na revista científica Atmospheric Environment, o GNL ajuda a reduzir as emissões de material particulado, mas não o suficiente para evitar todas as mortes atribuíveis à poluição nas cidades vizinhas às rodovias estudadas.

A pesquisa foi desenvolvida no âmbito de um projeto do Centro de Pesquisa para Inovação em Gás (RCGI), um Centro de Pesquisa em Engenharia (CPE) constituído por Fapesp e Shell na Escola Politécnica da USP.

A proposta era avaliar a viabilidade de criar um "Corredor Azul" no Estado de São Paulo, conceito que prevê a implantação de uma infraestrutura para o uso do gás natural como combustível em veículos rodoviários.

Para chegar à conclusão do estudo, os pesquisadores levantaram o fluxo dos caminhões entre São Paulo e Campinas no sistema rodoviário Anhanguera-Bandeirantes e, em seguida, estimaram a emissão de poluentes proveniente dos veículos de carga, analisando a dispersão atmosférica, em especial as concentrações de material particulado.

Além disso, foram levantadas estatísticas de mortes por câncer de pulmão e por doenças cardiovasculares e respiratórias em 12 cidades lindeiras às rodovias, utilizando o banco de dados do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde do Brasil (Datasus). Utilizando a metodologia da Organização Mundial da Saúde (OMS), foi estimada também as possíveis mortes que seriam evitadas com a troca de combustível.

Os pontos de maior concentração de poluentes, segundo o estudo, que observou apenas as emissões provenientes dos caminhões, estão em Jundiaí, próximo à rodovia dos Bandeirantes, e em Cajamar, nas proximidades da rodovia Anhanguera. A menor concentração foi registrada em Campinas, em um local distante de ambas as rodovias.

De acordo com os estudos analisados no artigo, os veículos movidos a gás natural produzem entre 70% e 85% menos poluentes que aqueles a gasolina ou a diesel. Além disso, promovem uma redução de 10% na emissão de gases de efeito estufa (GEE) em comparação com os caminhões a diesel. Portanto, era de se esperar uma correlação entre mortes e poluição do ar.

Mas o impacto da mudança no combustível, de acordo com os modelos usados no estudo, foi menor do que o esperado. "Achávamos que haveria uma redução maior nas mortes atribuíveis à poluição do ar proveniente dos veículos pesados", afirmou Ana Carolina Rodrigues Teixeira, pesquisadora do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP e bolsista da Fapesp, em entrevista à Assessoria de Comunicação do RCGI.

"No caso de mortes por doenças respiratórias em crianças, por exemplo, não haveria nenhuma redução nos óbitos após a substituição total do diesel por gás natural nos caminhões. Ou seja, precisamos avaliar outras fontes poluidoras, como veículos de passeio e indústria, para entender melhor como seria o impacto da redução de emissões de poluentes na saúde da população", comenta Teixeira.

Pelos cálculos dos pesquisadores, as mortes anuais por doenças cardiovasculares atribuíveis à poluição atmosférica podem ter uma variação de 8 a 296 óbitos, com uma média aproximada de 188. Para doenças respiratórias em pessoas idosas a variação é de 52 a 190 mortes e para câncer de pulmão variou entre 18 e 62 mortes no ano de 2016.

Pela simulação, a mudança no combustível dos caminhões para gás natural liquefeito poderia evitar menos de cinco mortes por ano para câncer de pulmão. Com relação às doenças cardiovasculares, a redução máxima seria de 14 mortes, mas com 90% de chance de menos de cinco mortes serem evitadas. Para as doenças respiratórias em idosos, menos de dez mortes seriam evitadas anualmente.

"Consideramos esse estudo um pontapé inicial para a discussão de políticas públicas relacionadas ao tema", disse a pesquisadora do IEE-USP.

O artigo “PM emissions from heavy-duty trucks and their impacts on human health” pode ser lido clicando aqui.

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