Soja

Atraso no plantio da soja traz ameaça à oferta de biodiesel


DCI - 12 set 2012 - 11:59
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A corrida global em torno da soja, provocada pelas quebras de safra latino e norte-americanas, trouxe aumento de custos para a produção de biodiesel no Brasil. As indústrias processadoras da oleaginosa se preveniram do desabastecimento com a formação de estoques, para garantir a oferta de 2012. Mas o atual atraso no plantio da nova temporada bota em risco a disponibilidade da matéria-prima no início de 2013.

O diretor-executivo da consultoria Agropcon, Paulo Costa, que fundou a filial da Cargill em Portugal, avalia que o atraso do plantio da soja, por falta de chuva e desnutrição do solo - principalmente no centro-oeste brasileiro - ameaça a disponibilidade de matéria-prima para a produção de biodiesel no primeiro trimestre de 2013.

A soja responde por aproximadamente 79,5% da produção do biodiesel no Brasil, seguida pelo sebo bovino (de 15% a 20%). A produção de óleo do grão caiu 6,9%, de 7,3 milhões de toneladas, em 2011, para 6,8 milhões neste ano, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

As processadoras da oleaginosa, contudo, prepararam-se para a escassez de oferta - provocada pelas quebras de safra no Brasil e na Argentina - formando estoques, segundo Costa. "O último trimestre está resolvido. O problema que ninguém está olhando é o início do ano que vem: a safra precoce está em risco por causa da seca", analisa Costa.

"Mas é praticamente impossível termos um desastre igual ao do início desse ano", pondera. Ligado indiretamente ao clima, o custo do óleo de soja subiu 18,8% em quase um ano: de R$ 2,5 mil, em setembro do ano passado, a tonelada passou a custar mais de R$ 2,9 mil em agosto último.

Mesmo assim, as associações do segmento defendem que a presença de biodiesel no congênere de petróleo - hoje em 5% - pode chegar a 10%, até 2020, sem que isto comprometa as fontes de abastecimento. E criticam a política da Petrobras - lembrando o mercado de etanol - de importar o combustível fóssil e vendê-lo a preço artificialmente fixado.

"A Petrobras está comprando diesel num momento em que poderíamos alavancar o biodiesel, com avanços graduais na mistura - para 6% no ano que vem, e assim por diante", observa o gerente de Economia da Abiove, Daniel Furlan Amaral.

Para a fabricação de biodiesel no Brasil - pontua um assessor técnico da Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) - exige-se matéria-prima 100% nacional e são dados incentivos fiscais às usinas que utilizam 30% de soja advinda da agricultura familiar, conforme previsto em um plano federal destinado ao segmento agroindustrial.

Lula e a transesterificação
Para o ex-presidente Luiz Inácio da Silva, o Lula, o biodiesel "veio para ficar". O líder político foi homenageado pela Aprobio recentemente, por ter reconhecido e promovido esse mercado em seu tempo de chefe do Executivo.

No caso do óleo de soja, o combustível custa cerca de 60% mais, na comparação com o diesel comum, mas apresenta certas vantagens: menor emissão de gases poluentes, dispensa do enxofre, melhor combustão e maior potencial lubrificante, segundo um membro técnico da Aprobio.

A ponte que separa o óleo vegetal comestível do biocombustível feito à base de soja se chama transesterificação, um processo químico que adapta a matéria-prima aos motores automobilísticos. "O óleo de soja não pode ser utilizado diretamente, pois causa problemas no motor", adverte o especialista.

Bruno Cirillo