Em algumas regiões do Estado, agricultores afirmam que semeadura do cereal ficou inviável
Mato Grosso, maior produtor nacional de soja, enfrenta atrasos no plantio deste ano, já que as lavouras estão sofrendo com o clima irregular para a instalação da safra. Sem a umidade necessária para o cultivo da oleaginosa, a janela para o plantio de milho segunda safra no Estado fica cada vez mais arriscada, obrigando o produtor a mudar sua estratégia.
De acordo com a última atualização do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), divulgada na sexta (10), a semeadura de soja no Estado chegou a 91,82% da área. Os trabalhos seguem abaixo dos 96,17% semeados na mesma época do ano passado, e ainda são inferiores aos 95,51% da média plantada.
Na propriedade de Ronan Poletto, produtor no município de Sorriso, o plantio da soja está 12 dias atrasado em relação à safra anterior. Segundo ele, as chuvas estão muito irregulares na região, o que deve reduzir o rendimento da safra, uma vez que haverá necessidade de replantio.
“Este ano a soja está sofrendo bastante com o clima. Plantei numa situação arriscada, de pouca chuva. Se no ano passado consegui 64 sacas por hectare, se alcançar 55 sacas agora será um bom resultado”, conta o produtor em um relato à Associação dos Produtores de Milho e Soja de Mato Grosso (Aprosoja-MT).
Na avaliação da Aproclima, o fenômeno El Niño provocou a redução dos volumes de chuva em todas as regiões do Mato Grosso. “Esse cenário, aliado às altas temperaturas reduzem o potencial produtivo da soja e podem ter impactos importantes na produção de soja e redução na área de milho”, lembra.
Safrinha em milho em risco
O atraso na semeadura de soja em Mato Grosso compromete o início do plantio de milho safrinha no Estado, que geralmente acontece no início de janeiro. Com o cenário climático adverso, Ronan Poletto vai reduzir a área plantada com o cereal.
“Teremos um risco maior para semear os últimos talhões e devo diminuir a área em 40% neste ciclo. Devido a esse atraso da chuva para a soja, eu prefiro arriscar menos para perder menos”, afirma.
Para Gilberto Peretti, produtor em Gaúcha do Norte, o atraso no plantio de soja chegou a 30 dias se comparado com a safra anterior. Além disso, dos 100 hectares semeados, 30 precisarão de replantio. Todo esse cenário desmotivou o produtor a investir no milho segunda safra.
“Não há chances da gente plantar milho nesta safra. Está muito tarde para investir na cultura e o prejuízo será grande para nós, já que a expectativa de produção é muito baixa”, destaca.
A cultura do milho também deve perder espaço na Fazenda Galera, em Conquista D'Oeste. Leonardo Marasca trabalha como agrônomo na propriedade. Ele menciona que em meados de novembro do ano passado, a soja estava semeada em 81% da área na fazenda.
Este ano, no entanto, nenhum hectare foi plantado devido à falta de chuva, o que tornará inviável a operação com milho safrinha na propriedade.
“Como a janela de plantio extrapolou, já está definido que haverá condição de fazer o plantio do milho safrinha. Os pedidos de sementes foram cancelados, e o impacto para a fazenda será grande, já que vamos ter que buscar o insumo pagando mais caro para suprir nossa demanda”, diz.
Área plantada com milho será menor
O Imea, em partes, já considera o impacto no atraso da safra de soja para o cultivo de milho em Mato Grosso. A última projeção do instituto, divulgada no início de novembro, apontou uma área de 7,20 milhões de hectares do cereal, 1,08% a menos em relação à estimativa divulgada em outubro. Quando comparado com 2022/23, a retração na área de milho no Estado está em 3,86%.