Soja

Para Aguilera, biodiesel só poderá se consolidar a partir da soja


Agência Estado - 04 out 2012 - 09:35 - Última atualização em: 29 nov -1 - 20:53
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A indústria de biodiesel do Brasil só pode crescer de forma consolidada utilizando a soja como matéria-prima. A afirmação é do sócio da Alpha Valorem Consultoria, José Carlos Aguilera, que já foi presidente por duas vezes da Brasil Ecodiesel, primeira empresa brasileira voltada para a produção de biodiesel a partir de oleaginosas alternativas. Para Aguilera, os investimentos que são feitos hoje para aprimoramento de oleaginosas como mamona e pinhão-manso deveriam ser aplicados para a melhoria genética da soja, para que aumentasse sua produtividade e seu teor de óleo.

O consultor ressalta que o Brasil deveria criar um plano agrícola que englobasse a soja como alimento e também como matéria-prima para o biodiesel. "O consumo per capita de proteína animal está crescendo, existe necessidade de mais farelo que se obtém com o esmagamento da soja, assim como o óleo. O óleo é um subproduto que estará disponível cada vez mais", disse ele. Aguilera afirma que a indústria de biodiesel terá de se unir a indústria de alimento para se consolidar. "Os Estados Unidos fizeram isso com o etanol e o milho e o mercado está se consolidando", disse.

Segundo ele, o vínculo da produção de biodiesel ao programa de agricultura familiar tem seus méritos sociais, mas é um entrave para o crescimento sustentado do setor. "Para se operar no mercado de biodiesel no Brasil, paga-se um tributo que é o apoio à agricultura familiar", disse. Este custo da agricultura familiar, segundo ele, chega ao equivalente de R$ 0,70 por litro de biodiesel, que possui um preço médio em torno de R$ 2,50 por litro.

Aguilera afirma que o setor de biodiesel repassa para a agricultura familiar cerca de R$ 2 bilhões por ano. "Investir em agricultura familiar é necessário para que as empresas obtenham o selo social do governo e participem do leilão de biodiesel", disse. Porém, segundo ele, hoje qualquer empresa pode comprar soja vinda de agricultura familiar é já obtém o selo. "Muitas empresas agem como tradings, comprando e vendendo produto de agricultura familiar e conseguem o selo", afirma.

"O projeto de biodiesel não funciona se não tiver escala, o que só a soja e sua infraestrutura já existente pode dar", disse. Os projetos de oleaginosas alternativas, como mamona, pinhão-manso e palma, estariam sendo realizados longe dos mercados consumidores, no Norte e Nordeste, para apoiar o desenvolvimento social, mas isto o torna caro e tira sua competitividade. "E os óleos feitos de mamona e outras oleaginosas acabam não sendo utilizados para biodiesel", afirma.

Na avaliação de Aguilera, participou da Conferência Internacional BiodieselBR 2012, apenas o projeto de óleo de palma da Vale, que está sendo tocado no Pará, tem competitividade efetiva porque o óleo produzido na região Norte será utilizado para abastecer a Vale na mesma região. "Este produto será consumido próximo de sua origem, o que trará economia para Vale na substituição do diesel mineral", disse.

Nos demais projetos, o consultor acredita que a questão logística é um peso que vai tirar a competitividade de muitas empresas. Segundo ele, apenas as empresas mais verticalizadas que utilizarem soja como matéria-prima irão sobreviver no mercado. "As margens do setor não são grandes. Então quem tiver a soja dentro de casa e produzir o óleo e também o biodiesel e for localizada perto do mercado consumidor será mais competitiva", afirma. Entre essas empresas Aguilera cita exemplos como a Cargill e ADM que estão construindo usinas de biodiesel próximas de suas unidades esmagadoras.

Ele afirma, contudo, que ainda existe no mercado de biodiesel espaço para uma grande empresa de biodiesel. "O espaço que seria ocupado pela Agrenco ainda está para ser ocupado", disse. A Agrenco, atualmente em recuperação judicial, nunca chegou a operar totalmente suas usinas de biodiesel localizadas no Centro-Oeste do país. "Empresas verticalizadas possuem um menor custo fixo e se estiverem próximo dos mercados consumidores terão ainda mais competitividade", disse. Segundo ele, empresas como Oleoplan, Granol, Caramuru e Camera deram passos positivos em direção a verticalização mas ainda estão muito concentradas apenas no sul do país, resultando em perda de competitividade já que o maior consumo está no Sudeste.

Eduardo Magossi
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